Publicado 11/07/2019 - 12h43 - Atualizado 11/07/2019 - 12h43

Por Marcelo Sguassábia

Terapia de vidas futuras

Divulgação

Terapia de vidas futuras

É de praxe que todo analista tenha, ele mesmo, um colega que o analise para manter em condições razoáveis sua saúde mental e emocional. Foi numa dessas sessões profiláticas que o Doutor Zózimo relatou o absurdo.
– Estou com um problema gigantesco no consultório.
– Grande novidade. Estranho seria se não tivesse, eu tenho vários aqui no meu. Chora aí.
– Uma paciente, já tem uns seis meses que está comigo. Quando eu boto ela em regressão, vai direto pro futuro ao invés de voltar. Te juro pela minha mãe, sério mesmo.
– Explica melhor isso, por favor.
– Terapeuticamente, faz todo sentido o paciente voltar ao que já viveu, para tentar sanar o que tá lá atrás, mal resolvido. Independente de se acreditar ou não em reencarnação. Agora, ir daqui pra frente, não tem serventia nenhuma. Pelo menos para mim, que tenho como abacaxi pra descascar a pessoa que está aqui e agora no meu divã.
– Discordo. Você ouvindo e anotando tudo o que ela disser que está vivendo lá na frente, vai te ajudar muito a corrigir rotas na conduta terapêutica que você adota hoje. Imagina ter acesso agora ao resultado do seu trabalho. Isso é maravilhoso, pensa bem!
– Deixa ver se eu entendi o seu raciocínio. Se a minha analisada parecer feliz lá no futuro, eu não mexo no time que está ganhando. Mas se estiver com uma pedra pendurada no pescoço, pronta pra se jogar das Cataratas do Niágara, eu posso pelo menos procurar impedir que isso aconteça.
– Bem por aí. Ao invés de regressão a vidas passadas, progressão a vidas futuras. Olha que maravilha…
– Não brinca com coisa séria.
– Ninguém está brincando, colega. Bem que eu queria ter na mão um paciente assim. Que experiência fantástica. E o que rola nesses relatos futuristas?
– É cada coisa que nem te conto. Foguetinho nas costas movido a urânio, bundas perfeitas, ereções perpétuas, jantares e almoços em pílulas, jornadas de duas horas de trabalho por dia, quatro ou cinco robôs dentro de casa, corações de aço inox…
– Tá de sacanagem…
– Tsc tsc. Tô não. Mas parece que tudo isso não dá conta do vazio na vida das pessoas, sabe? O mundo virou uma Noruega, um imenso Canadá, qualquer Zé Mané tem tudo. Aliás, não existe mais Zé Mané e ninguém precisa batalhar pra conseguir porcaria nenhuma. O Estado provê. O dia a dia é previsível demais, sem sal, um tédio.
– E ela continua em tratamento, em 2.120 ou sei lá quando? Digo isso porque, com coração de inox e tudo mais, é provável que vocês dois ainda estejam em plena forma.
– Não sei. Até tenho curiosidade de conduzir a paciente por aí, pra ver se descubro alguma coisa. Mas ao mesmo tempo dá medo, né? Tô sabendo lidar, não. Se me descubro morto, mesmo que em 2.120, não vai ser propriamente uma experiência inspiradora.
– Já eu não tenho medo. Se puder, pede pra sua paciente me mandar notícias minhas.
– Então, como te disse, não me interessa saber o que me espera nem na próxima meia hora. Mas de você, lá no futuro, eu já descobri alguma coisa.
– Conta!
– Nem sob tortura. Eu respeito o sigilo profissional.
© Direitos Reservados

Escrito por:

Marcelo Sguassábia