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Publicado 07/07/2019 - 12h39 - Atualizado 07/07/2019 - 12h39

Por Daniel de Camargo

As obras na José Paulino compreenderiam o trecho entre as avenidas Doutor Moraes Sales e Benjamin Constant: investimentos de R$ 6 milhões

Leandro Ferreira/AAN

As obras na José Paulino compreenderiam o trecho entre as avenidas Doutor Moraes Sales e Benjamin Constant: investimentos de R$ 6 milhões

Um ano e quatro meses após ser anunciado, o projeto que propõe a revitalização da Rua José Paulino — via centenária que já foi a Rua das Flores —, no trecho entre as avenidas Moraes Sales e Benjamin Constant, no Centro de Campinas, ainda não tem data prevista para sair do papel. Em março de 2018, a Prefeitura informou que esperava a liberação de financiamento até maio daquele ano para iniciar as obras, mas a operação financeira não foi efetuada. O plano, que visa dar um novo desenho viário e excluir o trânsito de carros, de modo que apenas os veículos de moradores da própria rua tenham acesso permitido, está orçado em R$ 6 milhões, sem incluir a iluminação. A transformação objetiva priorizar a circulação do transporte coletivo, pedestres e ciclistas.
A Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) informou, em nota, que na primeira etapa da iniciativa foi feito esboço do projeto e uma estimativa de custo. Na etapa atual, que se estende há mais de um ano, a autarquia responsável pela gestão do trânsito na cidade segue trabalhando na captação de recursos. Os valores deverão ser obtidos por meio de financiamentos ou contrapartidas de empreendimentos imobiliários.
O estudo indica também intervenções nos imóveis, para a implantação das chamadas fachadas ativas, de forma que as edificações possuam janelas, portas e vitrines em abundância, voltadas para a rua. O intuito é criar uma relação estreita entre o público e o privado. A iluminação também será adequada e, se houver recurso, a fiação será aterrada, a exemplo do que foi feito na Glicério.
O projeto, conhecido como Rua Completa, inclui a implantação de calçadas mais largas, ciclovia e faixa exclusiva de ônibus. Campinas é uma das 11 cidades brasileiras que estão recebendo apoio técnico da WRI Brasil para a implantação dessa proposta, que privilegia a valorização dos modais de transportes sustentáveis, como o pedestre e a bicicleta. Esses municípios são integrantes da Rede Nacional para a Mobilidade de Baixo Carbono.
O WRI (da sigla em inglês Instituto de Recursos Mundiais), é um grupo de investigação de assuntos ambientais que vai além da pesquisa para encontrar formas de proteger o planeta e melhorar a qualidade de vida. A Frente Nacional de Prefeitos (FNP), presidida atualmente pelo prefeito de Campinas, Jonas Donizette (PSB), é parceira da iniciativa.
Rua completa na José Paulino
As sete quadras da Rua José Paulino que, pelo projeto, receberiam melhorias, foram escolhidas por estarem dentro de uma região valorizada. Trata-se de uma rua comercial, cortada por dois calçadões (13 de Maio e Costa Aguiar). Nela estão também a sede do Corpo de Bombeiros e a Catedral Metropolitana, uma construção de taipa inaugurada em 1883, um dos principais patrimônios históricos de Campinas.
A edificação é constantemente abalada pelo intenso fluxo de veículos na José Paulino. A circulação de pedestres na via também é grande. A rua sofreria ainda intervenções para instalação de bancos e rampas de acesso, remodelação da iluminação, pontos de informação, quiosques de comércio, banheiros públicos e nova arborização.
Fachada ativa
Um dos requisitos das chamadas Ruas Completas, e que o projeto da Rua José Paulino incentiva, é a implantação das fachadas ativas nos imóveis, que exigirá a participação dos comerciantes locais. A proposta da Administração é que, com as intervenções no sistema viário, o comércio espontaneamente faça essas mudanças nas fachadas e leve atividades para essa rua, para que ela possa também ter vida noturna.
Um exemplo de fachada ativa em São Paulo é o Condomínio Conjunto Nacional, localizado na Avenida Paulista. O espaço, além de contar com 47 apartamentos residenciais, possui também um edifício comercial, com 485 estabelecimentos. Com a fachada ativa do prédio, o centro comercial do Conjunto Nacional contabiliza 66 empreendimentos, entre lojas, restaurantes, drogarias e outros. O complexo conta com fluxo não só de quem trabalha lá, mas de quem circula na região.
População
As melhorias propostas são vistas com bons olhos pela população. Alguns comerciantes, entretanto, enfatizam que precisam ser ouvidos antes da realização de qualquer intervenção na Rua José Paulino. Essa é a opinião de Mauricio Vitali, gerente de um estacionamento logo após o cruzamento da José Paulino com a Avenida Doutor Moraes Salles. O administrador diz que tomou ciência do projeto em 2018, por meio da imprensa.
"Nunca ninguém da Emdec nos procurou", disse. Para Vitali, qualquer alteração que otimize a mobilidade urbana é interessante. Contudo, pondera que o caso precisa ser bem analisado porque a via tem grande fluxo por ser uma das principais da cidade. "Não acredito que alguma coisa ande antes do fim do governo atual", afirmou. "O dono do estabelecimento, que funciona nesse ponto há 40 anos, me disse que desde a década de 70 existe a promessa de remodelação dessa rua", brincou.
Paulo Roberto Corrêa, taxista que trabalha há 15 anos no ponto atrás da Catedral Metropolitana de Campinas, endossa o receio de que mudanças sejam executadas de forma unilateral. "Táxi para a Emdec não existe", esbraveja. De acordo com o autônomo, já mudaram de lugar pontos de táxi nas avenidas Orosimbo Maia e Senadora Saraiva. Isso, em sua concepção, resultou em menos faturamento para os trabalhadores, que anteriormente estavam melhor posicionados. "No momento, estão focados nas obras do BRT", disse, completando que o projeto pode não sair do papel.
Para amigas Rafaela Lima e Jennifer Silva, moradoras da Vila Boa Vista, que trabalham como atendentes, a sinalização e alguns trechos das calçadas devem ser melhorados para facilitar o trânsito dos pedestres.
A Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) informou, em nota, que o esboço inicial do projeto foi construído com a participação da sociedade e de representantes da Associação Comercial e Industrial de Campinas (ACIC). “Esta versão prevê o remanejamento do ponto de táxi existente no trecho da via. Porém, essa medida será amplamente discutida com a classe para que a melhor opção de deslocamento seja identificada”, diz trecho do texto.
Segundo a Emdec, tão logo o levantamento de recursos seja viabilizado, será organizada uma nova rodada de discussão do projeto com a comunidade envolvida, incluindo os taxistas e comerciantes da região.
Glicério abriu o caminho das melhorias
A Rua José Paulino será a segunda via do Centro de Campinas a ser remodelada. Anteriormente, melhorias foram realizadas na Avenida Francisco Glicério, outra importante via da cidade. A primeira etapa da obra de revitalização na Glicério ocorreu entre fevereiro e novembro de 2015. Na ocasião, foi contemplado um trecho de 1 km, entre as avenidas Orosimbo Maia e Moraes Salles. A segunda etapa ocorreu entre janeiro e junho de 2016.
Neste período, os trabalhos foram desenvolvidos em 400 metros, entre as avenidas Moraes Salles e Aquidabã. Entre as melhorias, foi feito o aterramento de toda a fiação aérea, elétrica e de telecomunicações, novas redes de água e esgoto, novas calçadas com rampas de rebaixamento e de acessibilidade e piso tátil para cegos. Foram instalados também semáforos horizontais iluminados por LED.
O investimento ficou entorno de R$ 33 milhões, sendo R$ 10,6 milhões por meio de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmados com a Prefeitura e a Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento de Campinas (Sanasa), R$ 12,3 milhões da CPFL Paulista e R$ 10 milhões das operadoras de telefonia.

Escrito por:

Daniel de Camargo