Publicado 11/06/2019 - 16h00 - Atualizado 11/06/2019 - 16h00

Por AFP


O jornalista investigativo russo Ivan Golunov foi solto, livre de acusações, de uma delegacia de Moscou nesta terça-feira (11) e, em meio a lágrimas, agradeceu a simpatizantes e à imprensa pela solidariedade."Muitíssimo obrigado por seu apoio", disse Golunov.Inicialmente acusado pela polícia por tráfico de drogas, o jornalista prometeu continuar seu trabalho de investigação para o site independente Meduza.Em meio à comoção causada por seu caso no país, a Justiça russa decidiu retirar as acusações de tráfico de drogas contra Golunov."Golunov será solto hoje (terça-feira) de sua prisão domiciliar, e as acusações serão retiradas", disse mais cedo o ministro do Interior, Vladimir Kolokoltsev, citado em um comunicado.A Justiça terá agora de avaliar "a legalidade das ações dos policiais que prenderam" o jornalista na quinta-feira passada, em Moscou, e que disseram ter encontrado uma grande quantidade de drogas em sua mochila e durante uma busca em seu apartamento.De acordo com Kolokoltsev, os policiais que fizeram a prisão foram suspensos de suas funções durante a investigação.Ainda segundo a mesma fonte, duas autoridades policiais serão demitidas: o general da Polícia Andrei Puchkov, chefe das forças de ordem no distrito oeste da capital russa, e o general Yuri Deviatkin, chefe em Moscou do Departamento de Combate a Narcóticos."Vou pedir ao presidente russo", Vladimir Putin, para removê-los do cargo, declarou Vladimir Kolokoltsev.Jornalista do site Meduza, conhecido por suas investigações sobre a corrupção na prefeitura de Moscou e em setores obscuros como o de microcrédito e de agências funerárias, Ivan Golounov estava em prisão domiciliar desde sábado.Os defensores do jornalista denunciaram um caso que foi fabricado em retaliação por suas investigações.O repórter afirma que as drogas apreendidas pela polícia não eram suas e que foram colocadas em sua mochila sem seu conhecimento.As análises realizadas a pedido da Justiça não revelaram nenhum vestígio de droga em seu sangue, e nenhum dos malotes apreendidos tinha suas digitais, segundo seus advogados.- Onda de mobilizaçãoO caso provocou uma onda de rara solidariedade na sociedade russa, com apoio crescente - de jornais independentes até a mídia estatal, passando até mesmo por alguns políticos de alto escalão.A decisão de retirar as acusações não tem precedentes na Rússia, onde os serviços de segurança e a polícia são acusados com frequência de fabricar casos de drogas para silenciar opositores e onde as absolvições são poucos frequentes."É uma grande notícia. É um exemplo inspirador e motivador do que a solidariedade pode fazer em favor de pessoas que são perseguidas", comemorou o opositor Alexei Navalni, ele mesmo alvo de vários processos judiciais nos últimos anos.A União Europeia (UE) também celebrou que a Rússia tenha retirado as acusações contra Golunov, mas pediu uma "investigação exaustiva e transparente" sobre uma eventual "brutalidade policial" durante sua detenção.A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) saudou no Twitter uma "mobilização histórica da sociedade civil" na Rússia. "Agora, aqueles que tentaram montar esse caso devem ser julgados", apontou.O veículo independente Meduza, com sede na Letônia, estimou que "o poder escutou a sociedade".Desde sexta-feira, manifestantes protestaram em frente à sede da polícia de Moscou com um cartaz, a única forma de protesto que não requer autorização das autoridades.Pela primeira vez na história, os três maiores jornais russos - Kommersant, Vedomosti e RBK - publicaram uma coluna comum em apoio a Golunov e exigiram que este caso fosse totalmente investigado.O Kremlin disse que acompanhava a investigação "cuidadosamente" e reconheceu que levantava "muitas perguntas", sem culpar, porém, o sistema judiciário.Alexei Navalni publicou nesta terça uma investigação, acusando de corrupção a família de um alto funcionário dos poderosos serviços de segurança russos, o FSB. O nome desse funcionário foi citado por vários veículos como o possível "mentor" do caso contra Ivan Golunov.Supostamente ligado à "máfia dos cemitérios" investigada por Golunov, a perseguição aberta por este funcionário seria em represália às matérias publicadas pelo repórter.Uma marcha em apoio a Ivan Golunov foi marcada para quarta-feira (12) no centro de Moscou, enquanto uma petição exigindo sua libertação coletou quase 180.000 assinaturas.pop/gmo/bds/mr/tt

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