Publicado 24/06/2019 - 09h33 - Atualizado 24/06/2019 - 09h33

Por Reinaldo Dias


Em quase seis meses de governo instável, a equipe de Bolsonaro continua a surpreender com afirmações inusitadas ou que contrariam as evidências científicas. Uma das últimas pérolas foi produzida pelo Ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo ao prestar esclarecimentos na Comissão de Agricultura da Câmara de Deputados no final de maio passado. 
O Ministro surpreendeu a todos ao negar o aquecimento global ao se referir às altas temperaturas registradas nos últimos anos no planeta como resultantes – entre outras simplificações – do fato de “muitas estações que, nos anos 30 e 40, ficavam no meio do mato, hoje ficam no asfalto, na beira do estacionamento. É óbvio que aquela estação vai registrar um aumento extraordinário da temperatura, comparado com a dos anos 50. E isso entra na média global”.
Além de descarregar a culpa na localização dos termômetros, o ministro também insinuou que os meios de comunicação estão ignorando os cientistas que negam as mudanças climáticas, e ainda que alguns países impõem um terror injustificado sobre temas climáticos ou que a mudança climática é um invento marxista.
Estas afirmações absurdas do chanceler brasileiro se somam a outras que foram feitas por vários membros do atual governo, incluindo o próprio Jair Bolsonaro de que não concordam com a opinião da comunidade científica internacional sobre a existência do aquecimento global e a responsabilidade das atividades humanas nesta crise ambiental global.
Durante a campanha eleitoral de 2018, o próprio Jair Bolsonaro afirmou várias vezes que iria retirar o país do Acordo de Paris. Felizmente, até o momento, não cumpriu sua promessa de campanha por razões econômicas.
Os negacionistas das mudanças climáticas formam uma corrente de opinião global identificada com posições do nacional-populismo que tem entre seus expoentes o presidente norte-americano Donald Trump, que retirou seu país do Acordo de Paris, sendo o único a fazê-lo. Muitos integrantes do governo Bolsonaro seguem a mesma linha de pensamento negando as evidências científicas.
Um dos principais argumentos dos negacionistas é o de que não há consenso científico sobre o aquecimento global e que os cientistas nem sequer acertam a previsão do tempo para o dia seguinte. Ocorre que, ao contrário do que pensam os negacionistas, há uma enorme concordância entre os pesquisadores sobre o que está acontecendo com o clima do nosso planeta. Aproximadamente 97% dos principais especialistas climáticos em todo o mundo reconhecem que as tendências de aquecimento global registradas no último século tenham sido causadas pela atividade humana. Além do mais, a confiança relativa nas predições meteorológicas tem eficácia comprovada e delas depende, por exemplo, o tráfego aéreo comercial em todo o mundo.
Para além dos aspectos científicos, as mudanças climáticas são, definitivamente, um assunto político e pauta não somente daqueles que as negam, mas também daqueles que ignoram o fato, preferindo a inação. Os dois comportamentos tem um profundo significado político. E ambos contribuem de maneira mais ou menos enfática para nos impulsionar rumo ao desastre.
Todos os políticos, negacionistas ou não, falam de crescimento econômico, de consumo, de exportações, ou seja, de continuar aumentando o efeito estufa que provoca o aquecimento global. Ninguém se arrisca a defender que seja limitado o consumo ou que se diminua a utilização de automóveis pelo bem do planeta. Em país como o nosso, uma atitude dessas poderia derrubar um político nas pesquisas de intenção de voto ou o converteria em alvo de políticos da oposição.
De certa forma, mesmo os negacionistas como o chanceler Ernesto Araújo, contribuem com a discussão das mudanças climáticas, pois trazem o tema cada vez mais para plano do que realmente é: um problema político.
A questão climática atualmente é um dos principais desafios sociopolíticos e está diretamente vinculada com a desigualdade e a injustiça. Os que mais sofrem com o problema climático, com secas e inundações extremas, entre outros problemas, são os mais pobres. Trata-se, portanto, de um problema a ser enfrentado por toda humanidade e diz respeito ao dia-a-dia das políticas públicas que objetivam amenizar suas consequências no cotidiano dos cidadãos. Ignorar o problema e fazer pouco caso de sua existência é contribuir para a maior tragédia humana que deverá ocorrer neste século.

Escrito por:

Reinaldo Dias