Publicado 07/06/2019 - 14h51 - Atualizado 07/06/2019 - 14h51

Por Reinaldo Dias


A visita que Donald Trump fez ao Reino Unido nesta semana tem muito a dizer sobre o pensamento do líder norte-americano e o seu relacionamento com outras nações em tempos de “América First”.
A política britânica vive um caos por culpa do Brexit e a visita de Trump encontrou um governo acéfalo, sendo recebido por uma primeira ministra que só ostenta o título, pois renunciou ao cargo recentemente e deixará o posto no dia 07 de junho.
Na teoria, o propósito do Brexit era recuperar o controle do país sobre seu próprio destino afastando-se do projeto comum europeu. Mas os partidários mais radicais dessa política isolacionista defendem o alinhamento incondicional da Grã-Bretanha aos norte-americanos.
Que tipo de alinhamento incondicional seria esse? A resposta à esta pergunta pode ser extraída das falas do Presidente Trump durante sua visita à Londres. Em sua entrevista ou nos discursos oficiais sua fala deixou bem clara a expectativa de que os serviços públicos daquele país sejam totalmente privatizados para fazer negócios com empresas americanas. Prometeu um "fenomenal acordo comercial" com os britânicos depois da saída do país da União Europeia (UE). Destacou que deveriam ser abertos todos os setores da economia, inclusive o tradicional Sistema Nacional de Saúde britânico (NHS, na sigla em inglês), um dos primeiros serviços públicos de saúde universal implantado no mundo após a Segunda Guerra, na expectativa de que seja entregue em fatias às empresas norte-americanas. Destacou também que não gostaria que o Reino Unido entregasse à companhia chinesa Hauwei o desenvolvimento da tecnologia móvel digital 5G.
A expectativa de Trump é que Boris Johnson seja escolhido primeiro ministro e imponha um sistema de pagamentos, na área da saúde, como ocorre nos Estados Unidos.
Na estratégia de Trump, o Brexit é fundamental como parte de sua expectativa de ver implodida a União Europeia, por possuir um dos maiores mercados do mundo no qual os europeus ditam as regras sem se render à política norte-americana.
Além dos aspectos econômicos, a fala do presidente americano intervém na política interna britânica ao indicar seu favoritismo ao líder conservador Boris Johnson à sucessão de Thereza May. Não por acaso, visto que Boris Johnson defende o rompimento radical com a União Europeia e tem como seu interlocutor o deputado nacional-populista Nigel Farage.
Esse personagem, Nigel Farage, foi liderança do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), de extrema direita até recentemente, e participou da criação do partido político eurocético pró-Brexit neste ano de 2019, que possui quatorze membros no parlamento europeu.
Essa interferência direta de Trump nos assuntos ingleses é uma mostra do que poderá ocorrer caso o Brexit seja efetivado e o Reino Unido passe a ter uma dependência econômica dos Estados Unidos. No extremo, seria ver aquele país rebaixado à uma condição de vassalagem que envergonharia seus antepassados, abrindo mão da participação em um processo político de cooperação do qual é um importante ator na União Europeia para ser peão no xadrez geopolítico com os Estados Unidos.
O nacional-populismo que levou o Reino Unido a essa situação utiliza a exploração das diferenças culturais e identitárias e de atitude em relação à vida como estratégia de persuasão. Isso aumenta a dificuldade de se pactuar compromissos em contextos em que coexistem diferentes opiniões especialmente em sociedades onde as pessoas estão divididas pelas posições em relação a União Europeia, sobre a imigração, o aborto, o casamento homossexual, a tolerância em relação ao diferente e a posição em relação à globalização.
O que ocorre no Reino Unido encontra semelhanças em todas as nações onde o nacional-populismo se impõe ou tenta se impor. As questões que dividem se sobressaem sobre os consensos e polarizam ainda mais as opiniões, aprofundando a divisão na sociedade e acirrando os opostos em questões menores do ponto de vista global ou nacional. São questões importantes para cada indivíduo em particular ou grupos de pessoas, mas que não deveriam afetar o desenvolvimento harmonioso da sociedade e tampouco do Estado.
Os problemas destacados pelo nacional-populismo são colocados no primeiro plano para ocultar sua verdadeira intenção de aumentar a divisão na sociedade para reinar com suas propostas retrógradas e ultrapassadas. A união da sociedade os assusta e a divisão os fortalece.
Estamos falando do Reino Unido, mas no Brasil o mesmo fenômeno está em desenvolvimento e provoca a divisão que só interessa aos extremismos de qualquer natureza.

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Reinaldo Dias