Publicado 12/06/2019 - 12h56 - Atualizado 12/06/2019 - 12h56

Por Aquiles Reis


No princípio eram só olhares. O primeiro papo revelou gostos parecidos. Enredaram-se na magia do amor. Assim como livre era o tal amor, a solidariedade entre eles permitiu olhares retos.
Os eruditos garantiam que os dois só seriam felizes se descobrissem o melhor de cada um; já a moçada popular torcia para que a paixão entre Viola e Piano fosse movida à harmonia incondicional.
Enquanto os dois afinavam suas opiniões, as galeras revelavam suas preocupações: “Sei não”, disse um, “eu acho muito difícil eles se entenderem”. Ao que outro retrucou: “Eles veem o mundo sob o prisma da harmonia, ainda assim, o amor pode atravessar”. “Concordo, cada um deve tratar seu ofício como uma missão.”
“Eu tenho medo”, disse Viola; ao que Piano replicou: “Somos suficientemente maduros para saber conduzir as nossas notas”. “Acho que você tem razão”, concluiu Viola. “Certamente, aproveitaremos nossas virtudes e multiplicaremos a beleza das partituras.”
E foi assim que Viola se casou com Piano.
Durante nove meses, tudo foi sagração. Sentindo que a união frutificara, percebendo que a harmonia reinava em allegro movimento, os dois se emocionaram.
Primeiro mês de gravidez (faixa 1): Viola compõe Sertão. Enquanto toca com Piano, o amor transborda pelos dedos, comovendo-a o tanto do xodó que tem pelo parceiro.
Segundo mês (faixa 2): ambos se ajuntaram para tocar A Lua Girou, música de Milton Nascimento, compositor que os dois tanto amam. Piano vibra as notas, Viola as agita.
Terceiro mês: Piano fez Encontro. Sua amada não faz por menos, segura a onda e traduz em sons o esmero repartido. Piano vem com ela. Juntos, vão.
Quarto mês: os dois tocam Cravo e Canela, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos. Felizes, saltitam em harmonia e pulsam na levada. Com Viola batucando no braço do instrumento, a alegria é consagrada.
Quinto mês: delicadamente, Piano toca a intro de seu Mantendo a Fé. Amoroso, ele canta. “Mas... aquilo é uma lágrima?” Sim, de amor”, diz Viola, que a tudo vê e sente.
Sexto mês: A Força do Boi, criada por Viola, é como uma retribuição ao amor de Piano, ele que toca com o espírito na palma das mãos. Até seu aboio, Viola está com ele.
Sétimo mês: em nome da harmonia e do ritmo da vida em comum, Piano tece loas à Viola com Caipira; juntos, eles a preenchem com ternura.
Oitavo mês: Castelo dos Mouros é o tema que Viola idealizou e, junto com Piano, aperfeiçoou com afortunada interpretação. Dedilhando as notas, Piano explicita o fascínio de tê-la ao seu lado.
Nono mês: no ato de parir, Piano ouve Viola desdobrar as entranhas. Juntos, os dois dão vida à luz. Ele a abraça, e choram e tocam Milagre dos Peixes, de Milton Nascimento e Fernando Brant, que soa como se feita para reverenciar a bendita união de Viola e Piano. Meu Deus!
PS. Encontro (Núcleo Contemporâneo) é o lindo CD, com nove faixas, recém-lançado por Benjamim Taubkin (o Piano) e por Ivan Vilela (a Viola) – com três temas cada um –, além de três músicas de Milton Nascimento.

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Aquiles Reis