Publicado 09/06/2019 - 14h27 - Atualizado 09/06/2019 - 14h52

Por Francisco Lima Neto

As aulas de sapateado da instituição campineira mudaram o destino de muitas crianças e levaram alguns alunos para longe do País, em busca de um sonho ainda maior

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As aulas de sapateado da instituição campineira mudaram o destino de muitas crianças e levaram alguns alunos para longe do País, em busca de um sonho ainda maior

Nascida do desejo da espanhola Elizabeth Nunes de ajudar crianças e famílias carentes da cidade, a Associação Beneficente Campineira (ABC) completa 69 anos na próxima quinta-feira, com vários motivos para comemorar. Ao longo de todas essas décadas, além de roupas, comida e instrução, a arte também teve papel de destaque na transformação da vida de famílias da periferia de Campinas. A obra assistencial está entre as primeiras iniciadas em Campinas.
A associação nasceu quando Elizabeth passou a fazer parte da Sociedade de Senhoras da Igreja Metodista Central de Campinas. Em 1945, ela se tornou presidente dessa sociedade. Sempre interessada em servir à comunidade, iniciou um trabalho de atendimento às crianças e bebês de famílias carentes e de baixa renda.
O dispensário da ABC
Com o avanço desse trabalho, em 13 de junho de 1950 foi inaugurado o Dispensário Infantil na Igreja Metodista Central de Campinas, com o lançamento de uma grande campanha chamada "Cesta do Bebê". Além desse trabalho, também eram distribuídos cestas básicas, roupas e medicamentos gratuitos para pessoas em vulnerabilidade social.
Décadas depois, em 1976, a ABC começou a construir o Núcleo do Jardim São Marcos. Neste mesmo ano, a entidade passou a servir 200 refeições diárias para crianças do Jardim Pacaembu e Vila Ipê, em conjunto com a Igreja Presbiteriana Independente, e mediante convênio com o Governo do Estado.
Em 1979, o trabalho começou no Jardim São Marcos, nas dependências da Congregação da Igreja Metodista. Neste local, a ABC passou a distribuir sopas, cestas básicas e criou uma creche para crianças de 4 a 6 anos. O local começou a oferecer cursos de artesanato para mulheres da comunidade em parceria com a Prefeitura.
De lá para cá, as ações continuaram crescendo e em 1998, a associação recebeu pela primeira vez o prêmio "Bem Eficiente", uma homenagem pelo trabalho sério, consistente, eficiente e de grande valor social desenvolvido por entidades sem fins lucrativos.
A ABC criou um curso de sapateado em 2002, quando o educador Luyz Baldijão começou a desenvolver um trabalho voluntário com as crianças da instituição. "A primeira coisa que fiz foi levar as famílias para uma apresentação de final de ano da minha escola de sapateado. Dessa forma, pais e filhos puderam conhecer a dança, ter um primeiro contato com essa arte. Lotamos dois ônibus e fomos todos para o Teatro Municipal Castro Mendes", lembrou Baldijão em uma entrevista para o Correio.
Em 2006, pela primeira vez, um aluno da entidade teve a oportunidade de viajar e fazer uma apresentação internacional. Tiago Rodrigo Alves foi o primeiro a ir para Nova Iorque e lá, após a apresentação, o jovem ganhou uma bolsa para dançar por três semanas. Também recebeu um prêmio que era destinado a uma pessoa que estava disseminando o sapateado pelo mundo.
"Sou muito grato ao meu primeiro professor e à ABC pela oportunidade que me deram. Aprendi a trabalhar em grupo, pensar no próximo, ter respeito pelos outros, concentração e responsabilidades. Tive a chance da minha vida quando fui escolhido para ir para os Estados Unidos e essa oportunidade não tem preço", relatou.
Outros alunos da entidade também tiveram oportunidades de ganhar bolsas para estudar nos Estados Unidos.
As crianças atendidas pela Associação Beneficente Campineira
Atualmente, a ABC atende 90 crianças e adolescentes de 6 a 14 anos, no Núcleo São Marcos, por meio do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos. A prática garante serviços continuados às crianças e adolescentes em período extra- escolar do ensino formal. Com isso, são ofertados cursos de sapateado, informática, pintura em tela, artes, brinquedoteca, biblioteca, atividades físicas esportivas e atividades de cidadania.
O curso de pintura da associação
A entidade também oferece oficinas. Ao todo, 42 pessoas de diversas faixas etárias são acolhidas pela ABC no Centro de Convivência Inclusivo e Intergeracional. O objetivo é disponibilizar um atendimento de qualidade que contribua para a transformação social e para uma convivência justa, interagindo com a sociedade.
Além disso, a ABC oferece em parceria com a Sociedade de Mulheres Metodistas (SMM) o curso de artesanato para a comunidade. É realizado no salão social da Igreja Metodista Central de Campinas e garante o aprendizado de várias técnicas artesanais.
 
Fundadora foi vítima em período de luta religiosa
A espanhola Elizabeth Nunes, que às custas de dedicação, colaboração e pioneirismo, criou a Associação Beneficente Campineira
Elizabeth Nunes nasceu em 18 de janeiro de 1881, em Corunha, região da Galícia, uma comunidade autônoma da Espanha. Quando adolescente, fez um trabalho evangelístico de missionários ingleses, junto com sua mãe Manuela. Vivenciou um período de inquisição e de luta religiosa entre católicos e protestantes em Corunha.
Junto com a mãe, Manuela, percorria o cais da cidade e pregava para as prostitutas. Também ia aos presídios para pregar a palavra.
No final de 1800, Manuela, Elizabeth e suas duas irmãs foram condenadas à morte na fogueira, num momento em que a batalha entre católicos e protestantes estava bem acirrada.
A família foi resgatada por evangélicos ingleses, que a levou para Lisboa, em Portugal. Elizabeth e suas duas irmãs foram matriculadas pelos missionários em um fino colégio, de alto padrão, onde aprenderam o inglês com fluência. Elizabeth passa a ser professora de inglês, profissão que exerceu por toda a sua vida.
Elizabeth viajou para o Brasil e desembarcou no Rio de Janeiro em 1900. Nesta época, a Europa estava em plena turbulência, período da Primeira Guerra (1914-1917).
SAIBA MAIS
No Brasil, Elizabeth participou da Igreja Presbiteriana, Presbiteriana Independente, Exército da Salvação, Igreja Batista e Igreja Metodista. Foi diretora do internato do Colégio Batista, em Perdizes, na cidade de São Paulo.
As pessoas não tinham, nas décadas de 50 e 60, nenhum tipo de atendimento médico gratuito e Elizabeth conseguiu apoio de médicos pediatras para o atendimento de crianças pobres.
Ela conseguiu também estruturar um posto de saúde no Dispensário, com equipamentos doados e com aquisições feitas pela Igreja Metodista.
Em 1 de dezembro de 1965 Elizabeth morreu com 84 anos.

Escrito por:

Francisco Lima Neto