Publicado 09/06/2019 - 11h17 - Atualizado 09/06/2019 - 11h17

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DIÁRIO DO NÃO VIVIDO

DIÁRIO DO NÃO VIVIDO

 


 


 


Se fosse só registrar em um diário o que aconteceu, para que conseguisse me recordar depois, seria fácil. O problema é que, ao ver o registro dos fatos, aquilo não passa de um amontoado de palavras sem sentido ou correspondência com a realidade. Com a minha realidade, pelo menos. A intenção de anotar para lembrar se perde.


Seria preciso conceber algo que me lembrasse de lembrar que o que escrevi no dia anterior realmente aconteceu, por menos que me recorde de ter vivido o relatado. Ocorre que, conforme vou relatando, ao mesmo tempo já vou esquecendo o que escrevi na linha imediatamente anterior. A perda da memória faz apagar não só as recordações mais antigas, mas some igualmente com o minuto que acabou de passar.


A inclusão da data, com o dia do mês e da semana, também de nada adianta. Isso porque ao ler, por exemplo, a anotação "Quarta-feira, 23 de setembro de 1987", me pergunto o que vem a ser "quarta-feira", "23", "setembro" e "1987". Ainda que, no meio desse vácuo, às vezes ocorram alguns instantes de lucidez, onde recordo que "23" é um número que sucede o 22 e precede o 24, que "setembro" é um mês do calendário e que "1987" é o ano seguinte ao fiasco mundial da passagem do Cometa Halley pelos arredores do planeta. Esse momento, em que tudo se esclarece e ganha significado, dura coisa de 15 segundos ou menos, até que a mente volte a cair no branco anterior, no vácuo permanecendo pelas duas ou três horas seguintes.


Esses três parágrafos foram redigidos em um lapso de lucidez, e sei de antemão que daqui a pouco não significarão mais nada. Ajude-me, se puder.


 


 




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