Publicado 06/05/2019 - 15h01 - Atualizado 06/05/2019 - 15h01

Por Alisson Negrinho

A cubana Ariadna, maior pontuadora da história da liga de basquete feminino brasileiro, mora em Campinas há pouco mais de um ano e já se sente em casa

Denny Cesare/AAN

A cubana Ariadna, maior pontuadora da história da liga de basquete feminino brasileiro, mora em Campinas há pouco mais de um ano e já se sente em casa

“Um dos maiores incentivos para me tornar profissional era poder ajudar minha mãe, minha família em geral. Em Cuba éramos uma família humilde”, Ariadna Jogadora de basquete
O cronômetro aponta os segundos finais de uma desgastante e equilibrada partida. Com a bola em mãos, Ariadna arremessa cercada de adversárias, que àquela altura têm como único objetivo evitar a cesta. Toda a pressão, entretanto, não afeta a cubana, que converte mais um lance e garante a vitória do Vera Cruz, líder na Liga de Basquete Feminino (LBF) e atual campeão. Na arquibancada, amargurado pela derrota, o mais desavisado torcedor rival desabafa: "ela tinha a obrigação de acertar. Só faz isso na vida". Mas não. Assim como qualquer outro ser humano, Ariadna Capiro Felipe, sofre, chora, se cansa e tem dias ruins. 
"Quem vê o produto final que é a gente jogando, não imagina tudo que existe por trás. Me preparo muito para dar meu melhor, mas existem dias que você percebe seu corpo indisposto, ou não está com a coordenação legal, tem algum problema, tristeza, coisas que dificultam a concentração. As pessoas no dia a dia, às vezes, estão cansadas no trabalho, e conosco é igual, não somos máquinas", conta a atleta de 36 anos, em um português quase que perfeito, de quem está no Brasil há 12 anos e em Campinas desde janeiro do ano passado.
Com uma lesão no ombro, a maior pontuadora da história da LBF não possui a vida fácil que muitos imaginam. A rotina entre fisioterapia, treinos e jogos é uma realidade dura, ainda mais para quem se vê longe da família. Com os pais em Cuba e o único irmão nos Estados Unidos, ela convive com seu cachorro Giba, um labrador que a acompanha desde a chegada ao Brasil. "Ele está velhinho, já tem 11 anos, mas é muito amigão, parceiro mesmo."
A relação com a família, aliás, é especial. Enquanto criança, o hiperativismo a levou até o esporte na escola. Por lá, depois do início dividindo atenções entre vôlei e basquete, ficou com a segunda opção por ser uma modalidade mais agitada, em que acabou se encontrando. "Minha mãe agradeceu, porque eu já chegava bem cansada em casa. Ela me colocou para fazer balé, dança, piano, só que nenhum resolveu", explica a atleta cujo o pai foi jogador profissional de beisebol.
Apesar da distância da terra natal, é justamente o sentimento pelos parentes que mantém viva a chama de entrar em quadra diante de qualquer adversidade.
"Um dos maiores incentivos para me tornar profissional era poder ajudar minha mãe, minha família em geral. Em Cuba éramos uma família humilde, então sempre que consigo mandar um pouco de dinheiro para minha mãe, eu faço. Isso incentiva muito, às vezes estou cansada, mas coloco na cabeça que preciso ir bem porque tenho que continuar ajudando minha família.
Vida em Campinas
Depois de deixar Cuba, Ariadna foi para a França. A adaptação em solo europeu, contudo, não foi da maneira esperada. Foi então que conversando com uma amiga conterrânea, na época jogando no Brasil, recebeu o conselho de vir, por se tratar de um bom País. O primeiro convite aconteceu em 2006, justamente por Antônio Carlos Vendramini, atual técnico do Vera Cruz. Se no passado eram apenas três meses para experiência, agora a ala não se vê em outro lugar.
"Foi a melhor decisão que tomei, porque hoje é minha segunda pátria. Estou tão acostumada que às vezes esqueço que sou cubana."
O acerto com o time campineiro aconteceu no início do ano passado e resultou em um grande "casamento". Na cidade, ela se sente em casa. Entre suas preferências está a variedade culinária. "A gastronomia aqui é ótima. É um lugar que tem o sossego por ser do interior, mas também toda a estrutura de cidade grande, gosto muito. Amo comida árabe, gosto da salada de rúcula, açaí um pouco mais light, tapioca, sucos... Cada restaurante tem coisas que me agradam", destaca.
As diversas opções fazem com que se manter na dieta seja uma tarefa complicada. "É chato. As pessoas de fora pensam que atleta pode comer de tudo, pelo contrário, a gente tem muita restrição alimentar. No meu caso que tenho um pouco de tendência para engordar, seguro ainda mais. Só que acontece de dar uma fugidinha e comer algo gostoso, porque somos seres humanos. Claro que procuro manter a disciplina, afinal o corpo é a nossa ferramenta de trabalho."
Caseira, Ariadna normalmente passa seu tempo de folga assistindo séries ou no cinema. Já quando é para se divertir com Giba, a opção escolhida é passear no entorno da Lagoa do Taquaral. Só o que ela ainda não conseguiu foi arrumar tempo para praticar uma antiga vontade: a música.
"É uma coisa que gosto muito. Uma hora vou conseguir aprender essa parte. Eu adoraria ser DJ. Brinco que é algo que adoro, só que ainda não pude parar para aprender", completa.

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Alisson Negrinho