Publicado 06/05/2019 - 14h51 - Atualizado // - h

Por Kátia Camargo

Pesquisadora lança livro sobre cadernos manuscritos de receitas de três mulheres da elite campineira entre os anos 1860 e 1940

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Pesquisadora lança livro sobre cadernos manuscritos de receitas de três mulheres da elite campineira entre os anos 1860 e 1940

Já parou para pensar como um caderno de receitas pode conter muito mais do que um modo de preparo? Pois a doutora em história cultural pela Unicamp, Eliane Morelli Abrahão, não só parou para observar isso como decifrou os cadernos manuscritos de receitas de três mulheres da elite econômica campineira que habitaram Campinas entre os anos de 1860 a 1940. Esse estudo acabou resultando no livro História da Alimentação – Cadernos de Receitas e Práticas Alimentares, Campinas; 1860 – 1940, que faz parte da coleção Memória de Campinas do IHGG. “É analisando os cadernos de receita que percebemos, por exemplo, que a farinha de trigo não era muito usada naquela época no preparo de pães e bolos. No lugar dela entravam o cará, o inhame, a mandioca, etc. Outra coisa curiosa, bem perceptível, é o momento da introdução do fermento em pó nas receitas, algumas delas, contavam com o bicarbonato como ingrediente e foi riscado para dar lugar ao fermento”, conta Eliane.

Após se debruçar nas leituras dos cadernos de receitas de Custodia Leopoldina de Oliveira (1835-1889), Anna Henriqueta de Albuquerque Pinheiro (1871-1950) e Bárbara do Amaral Penteado (1875-1963) - três senhoras da elite econômica, política e intelectual de Campinas - que a pesquisadora conseguiu detectar escolhas alimentares da época, os rituais de alimentação, além da escrita manual das receitas culinárias das mulheres que do ambiente dos cafeicultores. “O estudo de alimentação de uma determinada época contribui, e muito, para o conhecimento de determinada sociedade. É a partir da comida que uma comunidade pode expressar suas emoções, significados coletivos, possibilidades de consumo e até mesmo o contexto das relações sociais. Pensando nisso, os cadernos de receitas contam e contextualizam muitos capítulos da nossa história”, conta Eliane.

O livro relata que algumas receitas que estão nos cadernos dessas três mulheres contam muito sobre o costume da época, por exemplo, o doce de frutas. Bastava as mulheres se dirigirem ao pomar de suas casas que encontravam o ingrediente necessário, fresco e sem nenhum custo para fazer esse tipo de doce. “Hoje em dia isso praticamente não existe, para se produzir um doce de frutas, por exemplo, na maioria das vezes é preciso ir a um mercado”, destaca. Por outro lado existiam iguarias que necessitavam de muita logística para chegarem até a panela das cozinheiras. Muitos ingredientes vinham de outras regiões do Brasil ou até mesmo de outros países, dentre eles, o queijo de Minas e o bacalhau.

Outra característica importante destacada no livro pela pesquisadora diz respeito à importância que tinham os doces. No caderno de Custodia, Anna e Bárbara eles ocupam 80,3% do total de receitas presentes. No livro, a autora destaca que pesquisas sobre os hábitos alimentares dos povos ocidentais e o avanço da produção da cana de açúcar nos séculos XIX e XX, junto ao fato de o Brasil ter sido o principal fornecedor mundial da cana de açúcar e grande consumidor do produto, justificam essa alta porcentagem nas receitas doces.

A pesquisadora destaca ainda que estudar esses cadernos de receita mostra questões como, por exemplo, a condição social e o modo de vida em um determinado período histórico. “Mas é também uma expressão de afeto, de amor, de alegria que de quem a pratica, portanto fica claro que um caderno de receitas vai muito além de um modo de preparo, pois consegue reverenciar lembranças e emoções das almas das pessoas que as vivenciaram”, diz Eliane.

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Kátia Camargo