Publicado 01/05/2019 - 15h27 - Atualizado 01/05/2019 - 15h28

Por Reinaldo Dias


Nas últimas semanas, duas lideranças autocráticas de países árabes no norte da África foram obrigadas a abandonar o poder devido a protestos em massa da população. Argélia e Sudão foram palco de gigantescas manifestações que depuseram governantes que se mantinham por longo tempo no poder através da força.
Ainda é cedo para caracterizar a queda desses dois regimes como o ressurgimento das mobilizações que varreram o mundo árabe em 2011 e que teve início na Tunísia e se espalhou pelo norte da África e todo o Oriente Médio. Mas há fortes sinais de insatisfação por toda a região e mobiliza principalmente jovens e mulheres. Há muita semelhança no que acontece hoje no Norte da África com o movimento popular e de cidadania contra a opressão e a pobreza que floresceu há oito anos. Sufocado violentamente em muitos países o movimento parece agora brotar de novo no sul do mediterrâneo.
No Sudão, Omar Al-Bashir foi destituído após três décadas de poder. Desde dezembro passado, populares revoltados foram às ruas devido à alta dos preços de produtos básicos. A repressão aos protestos causou dezenas de mortos. Mesmo assim os protestos continuaram e os militares resolveram agir e afastaram Al-Bashir no dia 11 de abril. Agora há uma luta de facções para o controle do governo, com ingerência de potencias regionais como a Arábia Saudita, Emirados Árabes, Qatar, Egito e Turquia. A população permanece nas ruas exigindo um governo civil.
Na Argélia, Abdelaziz Bouteflika buscava seu quinto mandato consecutivo quando eclodiu o movimento popular liderado por jovens e mulheres que forçaram aos militares tomarem de fato o poder. A elite política e empresarial que ascendeu com Bouteflika no poder teme o movimento renovador que ecoa das ruas e procura estabelecer um plano de contingencia que passa por persuadir o exército de que o melhor é manter um firme controle dos acontecimentos. Um fator que deve levar os militares a exercer um maior protagonismo é que não existe uma alternativa estruturada e organizada. A população revoltada varreu definitivamente os partidos políticos desacreditados, tanto os da situação como os da oposição.
Seria precipitada a afirmação de que o que ocorre no Sudão e na África são o prenúncio de uma nova Primavera Árabe, mesmo porque as agitações atuais estão ocorrendo em contextos bastante diferentes. Mas em todo o norte da África e no Oriente Médio as condições para uma maior mobilização popular permanecem. Há fatores estruturais políticos, econômicos e sociais entre outros, como o incremento da comunicação, a facilidade de acesso a celulares e mídias sociais que permitem o contágio por protesto. Nesse caso, o efeito demonstração pode incentivar ações populares. O protagonismo das mulheres, por exemplo, tem aumentado significativamente em países árabes, obrigando alguns governos a fazerem algumas concessões para amenizar o descontentamento.
Tanto na Argélia quanto no Sudão, os governos deixam longos e brutais legados de repressão. Mas não importa mais as habilidades desses regimes autocráticos em reprimir a discordância, sua sobrevivência não aparenta mais ser um fato consumado. Na medida que os desafios econômicos e sociais aumentam e as instituições políticas são privadas de legitimidade, os regimes que já estão exercendo a repressão máxima tem poucas opções de escalada da violência. Há sempre eventos desencadeantes no horizonte, pode ser a morte de uma liderança que estava envelhecendo, mudanças constitucionais controversas, ações de descontentamento pelo aumento de preços, assassinato de ícone da oposição ou qualquer outro motivo que pode se tornar o gatilho para a eclosão da revolta.
A crise na Argélia e no Sudão está longe de se encerrar. Somente houve uma mudança que ainda não satisfez os manifestantes em ambos os países que exigem um aprofundamento nas transformações. Os aparatos de poder – militar, burocrático e econômico – ainda se encontram intactos ou pelo menos mantém certo controle da situação. O fato é que as massas estão se movimentando em busca de uma vida melhor, fortalecidas que estão pelos novos instrumentos tecnológicos ao seu dispor que facilitam a busca de informação e a mobilização em tempo real.

Escrito por:

Reinaldo Dias