Publicado 01/05/2019 - 15h23 - Atualizado 01/05/2019 - 15h23

Por Aquiles Reis

A dona do samba

Divulgação

A dona do samba

A escolha da cantora Fabiana Cozza como personagem central de Dona Ivone Lara – Um sorriso negro – O musical, além de ser uma homenagem mais do que merecida à dona do samba, fundamental para que se soubesse a força de uma mulher sempre à frente de seu tempo, seria um merecido tributo a Dona Ivone, cantora e compositora de personalidade gigantescas.
“Clarinha demais, “clarinha” de menos, “clarinha ao ponto”, assim rolava a polêmica quanto ao tom da pele da ex-futura protagonista.
Diante dos protestos, em meio à troca de argumentos, Fabiana Cozza anunciou: “Renuncio por ter dormido negra numa terça-feira e numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar ‘branca’ aos olhos de tantos irmãos”. O musical estreou no ano passado com três atrizes no papel de que Cozza abdicou.
Após contextualizar um fato de 2018, voltemos ao presente: Canto da Noite na Boca do Vento (Biscoito Fino) é um álbum de extremo bom gosto que expõe a devoção de Fabiana Cozza por Dona Ivone Lara.
Além de conceber o CD, Fabiana Cozza dividiu com o violonista sete cordas Alexandro Penezzi a escolha do elegante repertório. (Por falar em elegância, escuta só: é de fazer cair o queixo a capa concebida pela genialidade de Elifas Andreato.)
Penezzi fez a direção musical do trabalho e escreveu três arranjos para Douglas Alonso (percussão) e Henrique Araújo (cavaco) tocarem com ele. Os dois, por sua vez, compuseram um arranjo cada, enquanto nove outros são criações coletivas. São poucos instrumentistas, com ótimas atuações, enriquecidas pela mixagem de Lucas Ariel e a masterização de Carlos Freitas.
Com catorze sambas, o CD abre com uma versão (quase) à capella de Meu Samba É Luz, É Céu, É Mar (Dona Ivone e Delcio Carvalho) – uma leve e cuidadosa percussão embala a voz poderosa de Cozza. Um arraso!
Alguém me Avisou (só de Dona Ivone), vem forte com a participação de Maria Bethânia.
Adeus, Timidez (Dona Ivone e Arlindo Cruz). Samba em tom menor, bem construído, no qual Cozza despeja todo o seu sentimento. Péricles participa e faz bonito.
Apenas um samba é inédito, A Dama Dourada. De Vidal Assis e Hermínio Bello de Carvalho, foi criado por eles a pedido de Cozza e conta com a brilhante participação do saxofonista Nailor Proveta, num arranjo coletivo que realça a beleza da nova composição.
Saquem só os “sambassos” de Dona Ivone com seus parceiros, cantados por Cozza: Jorge Aragão – Enredo do Meu Samba; Mano Décio – Sem Cavaco Não; Nei Lopes – Outra Vez; Silas de Oliveira e Bacalhau – Os Cinco Bailes da História do Rio; Paulo César Pinheiro – Bodas de Ouro, dentre outros.
Canto da Noite na Boca do Vento é um legado de bons sambas, ofertados a nós que hoje temos a ventura de ouvi-los – mas é também um farol lumiando os que (ou)virão depois de nós.
É o deleite absoluto de podermos (re)conhecer Dona Ivone Lara através da formidável Fabiana Cozza – duas mulheres negras que transformam o mundo com seus ofícios.

Escrito por:

Aquiles Reis