Publicado 14/05/2019 - 09h49 - Atualizado 14/05/2019 - 09h49

Por Daniel de Camargo

O Acidentômetro informa os dias de trabalho perdidos com os afastamentos, os gastos da Previdência, as mortes notificadas e outros dados relacionados à iniciativa

Matheus Pereira/Especial para AAN

O Acidentômetro informa os dias de trabalho perdidos com os afastamentos, os gastos da Previdência, as mortes notificadas e outros dados relacionados à iniciativa

Campinas ganhou na manhã de ontem o Acidentômetro do Trabalho, um painel eletrônico de LED, de cinco metros de largura por dois metros de altura, instalado em um prédio doado ao Município para a receber a Policlínica II — ainda sem data —, no cruzamento da Avenida Francisco Glicério com a Rua Barreto Leme. Essa ferramenta, que exibe para a população, em tempo real, os números de acidentes de trabalho e doenças ocupacionais no Brasil, é um dos principais recursos da campanha publicitária “A Dor Pode Te Marcar”, promovida em parceria pelo Ministério Público do Trabalho, Prefeitura de Campinas e o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador de Campinas (Cerest). O objetivo da iniciativa, lançada ontem, é conscientizar da importância da prevenção de patologias decorrentes do trabalho. 
São informados também os dias de trabalho perdidos com afastamentos previdenciários, os gastos da Previdência com benefícios acidentários, as mortes notificadas e outros dados relacionados à iniciativa. Em Campinas, por exemplo, houve o registro de 7.960 auxílios-doença, entre 2012 e 2018, resultando em impacto previdenciário de R$ 72,32 milhões, com a perda de 1.138 dias de trabalho.
Mário Antonio Gomes, procurador do MPT, esclarece que o intuito é chamar a atenção do público para o problema das doenças ocupacionais, classificado por ele como grave, gerando conscientização de empresas e trabalhadores. "Além disso, temos por objetivo que o Poder Público Municipal dê à temática das doenças relacionadas ao trabalho, em especial LER/Dort e transtorno mentais, a mesma importância e tratamento que é dado às demais questões envolvendo a saúde pública”, completou.
Para tal, a iniciativa compreenderá, dentre outras medidas, a capacitação dos agentes municipais de saúde, a estruturação do setor responsável pelo atendimento de trabalhadores adoecidos na cidade (CEREST) e a normatização sobre o assunto.
Doenças mais comuns
As Lesões por Esforços Repetitivos (LER) e os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (Dort) são as doenças que mais afetam os trabalhadores. A constatação é do estudo Saúde Brasil 2018, do Ministério da Saúde. Utilizando dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), o levantamento assinala que, entre os anos de 2007 e 2016, quase 68 mil casos de LER/Dort foram notificados à pasta. Neste período, o total de registros cresceu 184%, passando de 3.212 casos, em 2007, para 9.122 em 2016, sinalizando alerta em relação à saúde dos trabalhadores.
Campanha
Além do Acidentômetro do Trabalho, a campanha “A Dor Pode Te Marcar”, que usa a tatuagem como analogia das doenças ocupacionais e transtornos mentais, também será veiculada em rádios, TVs, jornais, outdoors, internet, busdoors, pontos de ônibus, prédios públicos, mídias indoors e também nas redes sociais. A campanha terá perfis no Instagram (/adorpodetemarcar), Facebook (/adorpodetemarcar), YouTube e um hotsite com informações acerca do tema. A campanha foi viabilizada com verba de um acordo judicial firmado entre o MPT e uma empresa da região.
Estresse levou despachante aduaneiro à depressão
Nelson Ribeiro sofreu os reflexos da sobrecarga de trabalho
Desempregado há cerca de um ano, Nelson Ribeiro, de 59 anos, morador do Jardim Aeroporto, em Campinas, encontrou no consumo exagerado de bebidas alcoólicas uma válvula de escape para o cansaço excessivo e tristeza constante e profunda que marcavam sua rotina como despachante aduaneiro. “Tive depressão por causa do nível elevado de estresse diário”, disse. Ribeiro analisa que a atividade profissional exercida por ele durante cerca de 18 anos é maçante devido à grande responsabilidade e carga horária. "Eu ganhava, em média, R$ 2 mil mensais e chegava a trabalhar 12 horas por dia. Muitas vezes, tinha horário para entrar, mas não para sair. Almoçava quando dava". Em 18 de abril de 2018, Ribeiro teve um surto e passou dois dias fora de casa bebendo.
Na ocasião, o então profissional liberal decidiu procurar ajuda, em decisão conjunta com a esposa e a empresa para qual prestava serviços como autônomo. Ele recebeu, entre outros, auxílio de profissionais do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador de Campinas (Cerest). A empresa, de acordo com ele, prestou suporte financeiro até outubro do ano passado, apesar da não existência de vínculo empregatício. "Se as regras não mudarem, faltam três anos para eu me aposentar", afirmou, ressaltando que, atualmente, não tem bebido e está livre de problemas de convívio com a família e amigos. Procurado, o Sindicato dos Despachantes Aduaneiros de São Paulo (Sindasp), que representa a categoria, não se posicionou até o fechamento desta edição.

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Daniel de Camargo