Publicado 08/05/2019 - 09h58 - Atualizado 08/05/2019 - 09h59

Por Daniel de Camargo

Vista aérea do Cemitério da Saudade, um patrimônio de Campinas com 38 mil sepulturas, 112 quadras e 118 mil metros quadrados

Cedoc/RAC

Vista aérea do Cemitério da Saudade, um patrimônio de Campinas com 38 mil sepulturas, 112 quadras e 118 mil metros quadrados

Cinco homens, entre eles um guarda municipal, foram detidos na manhã de ontem, em Campinas, acusados de gerenciar uma organização criminosa responsável por furtar peças e objetos de bronze, estátuas e lápides no Cemitério da Saudade. A Polícia Civil cumpriu sete mandados de busca e apreensão, sendo seis em estabelecimentos comerciais e residências no município, e um em uma fundição de metais, no bairro Verde, em Piracicaba, totalizando 11 alvos.
A operação de ontem da Polícia Civil localizou quase uma tonelada de materiais, entre imagens e peças, em uma fundição localizada em Piracicaba: força-tarefa
Sandro Jonasson, delegado do 5º Distrito Policial de Campinas, situado no Jardim Amazonas, explicou que as investigações tiveram início em março deste ano. Na oportunidade, dois jovens de 21 anos e um terceiro de 24 foram presos em flagrante após furtarem o local. Para entrar no cemitério eles abriram um buraco no muro, com aproximadamente 1,20m. Ao todo, 30 peças foram encontradas, sendo nove imagens de Jesus Cristo e duas estátuas com cerca de 1,5m de altura. Jonasson informou que o veículo utilizado nesse crime pertencia ao filho de um guarda municipal. Além disso, o GM foi apontado por um dos envolvidos como proprietário de um ferro velho, que funcionava como um desmanche.
Policial carrega uma imagem apreendida na operação, supostamente furtada do Cemitério da Saudade
Ontem, foi apreendida quase uma tonelada de materiais nesse estabelecimento localizado no Parque Valença. Esses produtos, entre eles peças automotivas de procedência suspeita, em um primeiro momento estão todos em condição irregular. “Nenhuma nota fiscal, de entrada ou saída, que nos fornecesse sequer um verniz de legalidade foi apresentado”, explicou. “Se as peças e fios de cobre são ilícitos, ou seja, provenientes de ato criminoso, nós vamos apurar", disse o delegado.
Jonasson comentou que o comércio está registrado em nome do filho do GM, que também foi detido. Existem, entretanto, provas e depoimentos que confirmam que o servidor municipal é o verdadeiro dono do lugar. "O filho é um ‘testa de ferro’ dele", contextualizou.
Foram presos também dois empreiteiros (pai e filho) que atuam no cemitério e o proprietário de uma fundição em Piracicaba. Lá foram localizados materiais em bronze e estátuas. De acordo com Jonasson, havia portas de jazigo com sinais de arrombamento, condição classificada pelas autoridades como indício de que sua origem é ilícita.
Com base nas investigações, o delegado constatou que os objetos furtados eram repassados para o ferro velho do GM ou para a fundição em Piracicaba, onde eram derretidos, refundidos e vendidos inclusive para pessoas reformarem ou construírem túmulos no próprio Cemitério da Saudade.
Peças indicam envolvimento de uma verdadeira organização criminosa
A polícia também revistou os armários de funcionários do cemitério, onde foram localizadas placas de cobres com nomes de pessoas já falecidas. Em um dos túmulos, havia munições para revólver calibre 38 e pistola 380. Jonasson revelou que muitas testemunhas denunciaram que alguns empreiteiros trabalhavam armados, justamente para ameaçar ou coagir os concorrentes. Até o final do dia, não foram apreendidas armas. A operação resultou ainda na apreensão de um veículo por adulteração de sinal identificador e diversos documentos encontrados nos lugares alvo dos mandados.
O próximo passo das investigações, segundo Jonasson, é estabelecer se as ações aconteciam ou não com a conivência ou participação de servidores públicos da Setec.
A Setec informou, em nota, que é vítima dessa situação e vem acompanhando e colaborando com as investigações, e tem grande interesse na elucidação dos fatos. No fim da tarde, quatro dos detidos foram liberados, exceto o filho do GM, que permaneceu preso à disposição da Justiça, por crime de receptação qualificada.
Prefeitura
A Prefeitura de Campinas informou, em nota, que uma sindicância está em andamento e os fatos novos que surgiram ontem serão, se for o caso, anexados aos documentos. "A previsão é de que em duas semanas, em média, o processo esteja concluído. Vale lembrar que toda sindicância é sigilosa e seus resultados são comunicados apenas ao investigado e ao órgão ao qual ele responde, no caso, a Secretaria de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública", encerra a nota.
Márcio Frizzarin, comandante da Guarda Municipal de Campinas, esclareceu que o GM vinha trabalhando normalmente porque a sindicância instaurada tem caráter apuratório. O servidor estava afastado por licença médica desde domingo, porque aparentemente está com dengue. Segundo Frizzarin, as sanções possivelmente aplicáveis ao GM podem ir, caso confirmada alguma irregularidade, de uma suspensão até desligamento da Corporação.
Setec abre cadastramento para novos empreiteiros
A Serviços Técnicos Gerais (Setec) abriu prazo para cadastramento de novos empreiteiros e construtores funerários para atuação nos cemitérios públicos de Campinas. O prazo, constante na Resolução nº 04, de 29 de abril de 2019, teve início no último dia 2, data da publicação no Diário Oficial do Município (DOM), e prossegue até a próxima segunda-feira. A determinação ocorreu depois que o Correio Popular publicou reportagem, em 23 de abril deste ano, mostrando denúncias de extorsão por parte dos empreiteiros que atuam no local. Segundo apurado, alguns desses prestadores de serviço superfaturam os orçamentos, extorquem idosos e impedem que os proprietários de túmulos possam contratar o pedreiro de sua preferência para as obras.
CEMITÉRIO DA SAUDADE
Localizado na Praça Voluntários, no Swift, o Cemitério da Saudade é patrimônio cultural tombado de Campinas desde novembro de 2003. Considerado um museu a céu aberto em uma área de 118 mil metros quadrados, abriga peças esculpidas que ornamentam túmulos de famílias abastadas do final do século XIX e início do século XX, auge do período em que o café era o grande gerador de riqueza da região. Ao todo, são aproximadamente 38 mil sepulturas, distribuídas em 112 quadras.

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Daniel de Camargo