Publicado 07/05/2019 - 07h27 - Atualizado 07/05/2019 - 07h27

Por Daniel de Camargo

O Terreiro da Vó Benedita está há 14 anos no mesmo endereço, na Vila Ipê, em Campinas: pedras

Leandro Torres/AAN

O Terreiro da Vó Benedita está há 14 anos no mesmo endereço, na Vila Ipê, em Campinas: pedras

Membros do Terreiro da Vó Benedita protocolaram uma representação no Ministério Público (MP) na tarde de ontem, pedindo a apuração de supostos crimes de intolerância religiosa praticados na última semana contra os adeptos da casa de umbanda situada na Vila Ipê, em Campinas. No domingo, João Galerani, responsável pelo templo, havia registrado um boletim de ocorrência no 5º Distrito Policial, no Jardim Amazonas.
Galerani informou que três carros de frequentadores do terreiro tiveram seus pneus furados nos últimos dias. Na quinta-feira passada, uma mulher entrou em contato com a proprietária do imóvel, onde os rituais são realizados, questionando o motivo de a casa estar alugada para umbandistas. O pior episódio, entretanto, aconteceu no sábado. Um dos vizinhos apedrejou o templo. A mesma pessoa, de acordo com Galerani, assediou alguns de seus irmãos de fé ameaçando-os de morte por não terem Deus no coração. A Guarda Municipal e a Polícia Militar foram chamadas para evitar maiores problemas na ocasião.
Galerani afirma que o conflito está sendo motivado por meio de pregações com cunho pejorativo e incitações à violência, que têm ocorrido na Igreja do Evangelho Quadrangular, situada na Rua Meciacu, a cerca de 50 metros do terreiro. Na representação protocolada no MP, o fato é ressaltado destacando que as expressões utilizadas incluem palavras como “macumba”. A intenção seria, segundo o documento, “demonizar, difamar e enxovalhar as religiões de matriz africana, induzindo e incitando os fiéis ao preconceito e à discriminação religiosa”. Há 14 anos neste endereço, o líder religioso destaca que essa é a primeira vez que ocorrem problemas com fiéis dessa denominação cristã.
Galerani afirma que ele e seus “filhos” não irão aceitar nunca esse tipo de agressão, física e psicológica. “Por sorte, a pedra bateu no toldo e caiu no chão e ninguém se feriu”, disse. “Por precaução, nem colocamos placas na frente dos templos. Isso, porque as pessoas, que não têm conhecimento sobre nossa religião e suas práticas, as arrancam ou picham”, completou. Até que tudo seja devidamente averiguado, o Terreiro da Vó Benedita estará em recesso. Normalmente, o templo abre de segunda a sábado, às 19h30.
Os responsáveis pela Igreja do Evangelho Quadrangular da Vila Ipê e da cidade não foram encontrados para comentar os fatos. Galerani comentou, porém, que foi procurado por diversos pastores e que existe a possibilidade de agendar uma reunião na Câmara Municipal para que o caso e o teor das pregações sejam debatidos. Isso, segundo ele, pode ajudar para que pessoas menos informadas não interpretem de forma equivocada essas pregações.
Encontro vai debater questões
A Associação das Comunidades Tradicionais de Matriz Africana de Campinas e Região (Armac) promove nesta quinta-feira um encontro para debater questões relacionadas à intolerância religiosa. O evento "A concretização dos direitos das religiões afro brasileiras e seu acesso à Justiça" acontecerá às 19h, no Salão Vermelho da Prefeitura de Campinas. A entrada é franca. No Brasil, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional é crime. Segundo a Lei nº 7.716 de 1989, alterada pela Lei nº 9.459 de 1997, as sanções podem resultar em reclusão pelo período de cinco anos, entre outros.

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Daniel de Camargo