Publicado 05/05/2019 - 09h43 - Atualizado 05/05/2019 - 09h44

Por Renato Piovesan/AAN

A Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP) apontou que não há qualquer impedimento em lei quanto à prática da capelania, como a que ocorre na 1ª DDM de Campinas

Denny Cesare/AAN

A Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP) apontou que não há qualquer impedimento em lei quanto à prática da capelania, como a que ocorre na 1ª DDM de Campinas

Previsto e garantido pela Constituição Federal de 1988, o serviço de capelania oferecido na 1ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Campinas, no Jardim Proença, tem gerado polêmica. O Grupo Mulheres Pela Justiça, composto por advogadas, promotoras de Justiça e psicólogas da cidade, denunciou relatos de vítimas de agressões físicas e abusos sexuais que afirmaram terem sido desencorajadas a prestar queixa contra seus agressores após receberem a assistência religiosa e social com capelãs da unidade.
A capelania é um serviço muito utilizado em penitenciárias, hospitais, escolas e até empresas. O papel fundamental de um capelão é contribuir para a saúde espiritual de pessoas com problemas afetivos e emocionais que necessitam de palavras de estímulo e entusiasmo. Na 1ª DDM de Campinas, duas voluntárias prestam o serviço de capelania três vezes por semana. Elas têm uma sala, dividida com psicólogas, e ficam à disposição das mulheres que esperam para registrar boletim de ocorrência. A consulta com as capelãs é opcional.
Segundo a fundadora do Grupo Mulheres Pela Justiça, Thais Cremasco, o ponto de controvérsia do serviço na delegacia é que a capelania muitas vezes se utiliza de passagens bíblicas que incentivam o perdão e a submissão ao homem durante a assistência prestada às mulheres, que, por sua vez, acabam ficando na dúvida se devem dar sequência à queixa ou oferecer uma segunda chance ao agressor.
"Delegacia não pode se misturar com religião. Estado é laico. Quando a gente fala em perdão para uma mulher agredida, estamos praticamente assinando seu atestado de morte", disse a advogada. A vendedora Graziele Aparecida Vieira Maciel, de 38 anos, relatou à reportagem que havia sido agredida pelo companheiro em 2017, quando foi à delegacia e passou pela assistência de uma capelã. "A mulher falou que Deus ia salvar meu casamento, que era para eu voltar para ele (companheiro). Voltei, ele me agrediu de novo e ainda me expulsou de casa. Estou tendo que procurar uma vaga num abrigo agora", afirmou.
A jornalista Verônica Oliveira conta que vivenciou situação semelhante há duas semanas. "Fui acompanhar na delegacia uma mulher que sofreu agressão. Ela foi abordada por essa senhorinha (capelã) e entrou na sala da psicologia. Quando saiu da sala, estava pálida, com os olhos arregalados, e disse que basicamente estava sendo coagida por meio de lindas palavras de Deus a não fazer a denúncia", descreveu.
"A mulher agredida passou a se sentir culpada depois que ouviu da senhorinha que ela que estava indo para o caminho das sombras ao consumir álcool, e que por isso ela se colocou naquela situação", acrescentou a jornalista.
Em nota, a Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP) apontou que não há qualquer impedimento em lei quanto à prática da capelania dentro de delegacias, mas informou que vai reavaliar a manutenção da atividade voluntária, que é executada há 15 anos na 1<SC210,170> DDM de Campinas. A delegada titular da unidade, Licia Couto Lustosa Cordeiro, disse que recebeu com surpresa as queixas de mulheres sobre o serviço de capelania no local.
"Isso é uma novidade para mim. As capelãs atuam na delegacia há 15 anos e nunca ouvi reclamações ou relatos de desencorajamento de alguém, até porque aqui é uma delegacia de polícia, que oferece às vítimas a possibilidade de prestar queixas. A pessoa passa pela psicologia ou capelania se quiser, e a decisão de registrar boletim de ocorrência é sempre da vítima", comentou a delegada. "A capelania é um serviço para trazer um alívio para as vítimas. São palavras para acalmar essas mulheres que chegam nervosas e abaladas psicologicamente, mas jamais para desencorajá-las a fazer a denúncia", finalizou.
Só neste ano, cerca de 800 mulheres prestaram boletim de ocorrência na 1ª DDM de Campinas. Outras 800 denúncias registradas em delegacias de diferentes bairros da cidade foram encaminhadas para investigação na DDM, totalizando mais de 1,6 mil queixas de crimes como estupro, assédio sexual e agressão física de maridos, filhos, companheiros ou desconhecidos.
Capelã atendeu mais de  4 mil vítimas de agressão
Helena de Morais Teixeira, de 71 anos, é uma das duas capelãs que atendem na 1ª Delegacia de Defesa da Mulher de Campinas. Formada em capelania hospitalar por um curso de extensão universitária da Unicamp, ela desempenha a função em delegacias há 15 anos — atuou nas antigas sedes da DDM nos bairros Nova Campinas e Bonfim, e desde 2017 vai duas vezes por semana na unidade do Jardim Proença.
Neste período, diz ter atendido mais de 4,6 mil vítimas de agressão, assédio e abusos, sempre buscando trazer o conforto por meio das palavras de Deus, segundo ela. Em sua sala, há uma bíblia na mesa com algumas páginas marcadas, que remetem a versículos como Romanos 12:18-21: "Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele. Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem".
Para Helena, a religião pode auxiliar mulheres que chegam abaladas à delegacia. "A gente vê a aflição que as mulheres chegam na delegacia. Já acolhi e ouvi pessoas de todos os credos, raças, religiões e níveis culturais e sociais. E muitas delas me procuram depois, me mandam mensagens agradecendo pela ajuda. A parte policial cuida do delito, mas a delegacia não pode fazer tudo. A capelania pode acolher e dar mais tranquilidade às mulheres através dos ensinamentos bíblicos", comentou.
Segundo ela, a capelania não tem o objetivo de desencorajar as mulheres de prestar queixas contra os agressores, conforme as recentes denúncias. "Toda carga de sofrimento que essas mulheres sofreram muitas vezes traz o sentimento de revolta. Eu cito o exemplo de Jesus, que sofreu todo tipo de violência física, moral, psicológica e emocional, e mesmo assim não revidou, e ainda pediu a Deus que perdoasse a todos. Mas isso não significa que é para uma mulher retirar a queixa. Nunca, em nenhuma ocasião, entrei na parte criminal, falando para fazer ou não a denúncia".

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Renato Piovesan/AAN