Publicado 02/05/2019 - 09h20 - Atualizado 02/05/2019 - 09h20

Por Francisco Lima Neto

Entre os principais motivos de incômodo estão problemas simples, como dor de dente e sangramento

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Entre os principais motivos de incômodo estão problemas simples, como dor de dente e sangramento

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) integra a equipe que analisou um estudo epidemiológico realizado pela Secretaria de Estado da Saúde, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que revelou que 50,57% das pessoas com idade entre 35 e 44 anos no Estado de São Paulo sofrem com problemas de saúde bucal, como dor de dente, sangramento na gengiva e doença periodontal.
O índice é considerado alto por especialistas. A Pesquisa Estadual de Saúde Bucal (SB SP 2015) examinou 17.560 pessoas, das quais 6.051 estavam na faixa etária de 34 a 44 anos. Além do exame clínico odontológico, os participantes responderam a um questionário sobre os impactos da saúde bucal em seu dia a dia.
Foram examinadas 875 pessoas em 10 cidades da Região Metropolitana de Campinas (RMC). Sendo: Americana (64), Artur Nogueira (89), Campinas (90), Cosmópolis (91), Engenheiro Coelho (90), Indaiatuba (90), Itatiba (90), Paulínia (91), Santa Bárbara d'Oeste (90) e Valinhos (90).
De posse desses dados, pesquisadores da Faculdade de Odontologia de Piracicaba da Universidade Estadual de Campinas (FOP-Unicamp) e da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FO-USP) analisaram a associação da qualidade de vida relacionada à saúde bucal com variáveis socioeconômicas e clínicas.
Os resultados publicados na revista Plos One (publicação científica internacional) mostraram que a população do Estado de São Paulo tem carências e vulnerabilidades, indicando que é preciso criar novas políticas públicas.
"O resultado é preocupante. O impacto da saúde bucal nas atividades diárias é muito alto no Estado de São Paulo, que tem uma estrutura de serviços públicos em saúde bucal e um PIB maior do que o de outros estados brasileiros. São problemas absolutamente tratáveis e que estão impactando metade dos indivíduos dessa faixa etária", disse Antônio Carlos Pereira, professor da FOP-Unicamp e um dos coordenadores da pesquisa SB SP 2015.
O último estudo do tipo feito em todo o País, data de 2010, e mostrou que o impacto negativo na população de 35 a 44 anos era de 48,1%.
Em outro estudo semelhante, realizado na Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte, com indivíduos maiores de 21 anos, apenas 16% afirmaram sofrer impacto negativo da saúde bucal. Estudo nacional na Noruega indicou um impacto de 19% na faixa etária de 25 a 44 anos e de 17,9% entre os de 15 a 66 anos.
Já na Índia, 50% dos indivíduos entre 21 e 24 anos) apresentam problemas. Na Tanzânia, 51% das pessoas com 26 anos tem problemas bucais.
Diferenças
Entre os principais motivos de incômodo encontrados no estudo estão problemas relativamente simples, como dor de dente, sangramento e bolsa periodontal. Esta última doença, em estágio avançado, pode causar abscesso, dor e constrangimento. Ela causa afastamento entre a gengiva e o dente, gerando acúmulo de placa, o que pode, acarretar perda óssea e do dente.
“Na população adulta, a dor contribui para o absenteísmo do trabalho e pode afetar as atividades diárias, a produção econômica e o trabalho dos indivíduos”, disse Giovana Renata Gouvêa, pesquisadora da FOP-Unicamp e docente da Fundação Hermínio Ometto (FHO/Uniararas).
Cruzando os dados da pesquisa com informações socioeconômicas dos entrevistados, foi possível identificar as camadas da população mais vulneráveis a problemas de saúde bucal. De acordo com os resultados, adultos do sexo feminino, do grupo étnico negro/mulato, com renda familiar de até um salário mínimo e com até oito anos de escolaridade apresentam maior probabilidade de apresentar impacto bucal no desempenho diário.
Segundo Giovana, o estudo aponta que quanto menos renda e menos estudo, mais impactos na saúde. “Há evidências na literatura científica de que baixa renda e níveis educacionais mais baixos estão associados a uma pior saúde bucal. Em complemento, estudos longitudinais mostram que o nível educacional desempenha um papel mais importante na prevenção do surgimento de problemas de saúde, enquanto a renda tem maior influência no curso ou na progressão dos problemas.”
Doenças orais influenciam na qualidade de vida
No artigo recém-publicado na PLOS One, os pesquisadores destacam que as doenças orais influenciam na qualidade de vida. “A dor de dente e a perda dentária causam restrições na função, levam ao desconforto e prejudicam o consumo alimentar, enquanto as alterações periodontais, como sangramento e cálculo dentário, afetam a aparência, a autoestima e até as relações sociais dos indivíduos”, afirmam os pesquisadores no artigo.
O questionário buscou investigar impactos orais nos aspectos físicos, psicológicos e sociais da vida cotidiana. “O estudo foi além da questão do dente e pegou todo o contexto de vida (físico, psicológico, social), identificando não só dor ou doenças, mas constrangimentos e abalos emocionais”, disse Giovana. Dessa forma, ela ressalta que o questionário serve como um indicador de qualidade de vida relacionada com a saúde bucal.
“O conhecimento das condições de saúde bucal da população e seu impacto no desempenho diário das atividades é essencial para viabilizar a implementação de serviços e políticas públicas. Esse avanço é importante para o estudo das desigualdades em saúde, uma vez que os aspectos considerados nessa avaliação não são apenas biológicos e mensuráveis, mas também dizem respeito à autopercepção do indivíduo”, disse Giovana.

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Francisco Lima Neto