Publicado 15/04/2019 - 15h22 - Atualizado // - h

Por Kátia Camargo


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"Ler é beber e comer. O espírito que não lê emagrece como o corpo que não come" VICTOR HUGO

A vida do jovem Max Franco, então com 14 anos, começou a ganhar outras dimensões quando ele decidiu que passaria a ler um livro por semana. O ano era 1984 - época sem internet, celular, redes sociais - o fato é que, de lá para cá, ele nunca mais parou de ler. Não importa onde esteja, na bagagem sempre há espaço para um livro ou mais.

Os filhos Arthur, 9 anos, e Ingrid, 21 anos, nascidos e criados na era tecnológica também herdaram o amor pela leitura dos pais. Max garante que os filhos são apaixonados por leitura. “Quando era casado com a mãe deles, criamos o hábito de desligar todos os eletrônicos, às 21h, com isso cada um aproveitava o tempo para se dedicar ao seu livro favorito. Para eles, ler bastante é um processo muito natural e temos um acordo de pai para filhos: presentes só em datas especiais como Natal e aniversário, mas livros sempre. Por isso temos o hábito de passar em alguma livraria pelo menos a cada 15 dias”, conta.

Hoje, aos 49 anos, o professor de storytelling, da Inova Business School, que também é formado em língua portuguesa e literatura pela universidade Estadual do Ceará, coleciona leituras e também é autor de oito livros, sendo alguns premiados. Entre os títulos estão Fios da Navalha, Palavras Aladas e Outras Crônicas, O Condutor. Max continua devorando livros e tem um projeto #livreomundo. “Basicamente deve-se ‘perder’ um livro em algum canto da cidade, possibilitando que alguém o encontre e possa lê-lo também. Deixo em um banco, em uma praça ou em um café da cidade que estou”, destaca. Ele diz que fica feliz em saber que as obras vão ganhar novos leitores. “Sempre deixo um recado no livro pedindo que a pessoa que achou, depois de lê-lo o perca por aí”, diz.

Foi o que ocorreu no Centro de Convivência, na última semana, quando ele decidiu deixar um livro em um dos bancos da praça. Em menos de um minuto a autônoma Adriana Moraes do Amaral, 48 anos, achou e pegou o livro. “Gosto muito de ler e já tinha achado outros livros por aí, adorei encontrar mais este. Assim que terminar de ler, faço questão de deixar em algum lugar para que outra pessoa encontre e leia”, diz.
Um livro por ano
Estudos apontam que no Brasil a média de leitura dos brasileiros é de um livro por ano. Esse dado alarmante coloca o País em uma das posições mais baixas em relação a outros países da América Latina. Na Argentina, por exemplo, a média anual é de 12 livros por habitante. Ou seja, estamos lendo pouco, bem pouco.

Contrariando os números do País e tentando incentivar a leitura, o advogado Pedro Pacífico criou o perfil Book.ster, no Instagram, para compartilhar suas experiências literárias e incentivar o hábito de ler. Em quase dois anos ele já conquistou mais de 89 mil seguidores interessados em suas dicas de livros e resenhas que vão de clássicos a obras recém-lançadas.

O que era uma ideia despretensiosa acabou se tornando um grande projeto, tanto que ele foi convidado para ser palestrante no TEDx Campinas (evento que traz pessoas com ideias que merecem ser compartilhadas). “Eu sempre li, mas nunca fui um leitor voraz. Comecei a acompanhar nas redes sociais alguns perfis que abriram minha mente e desfizeram minha resistência com certos gêneros literários. Não tenho formação na área de letra/literatura. Pelo contrário: sou advogado e tenho uma rotina intensa de trabalho. Mesmo assim, aos poucos, comecei a entender e me interessar mais sobre o assunto. Hoje leio pelo menos meia hora por dia de algum livro”, conta.

Pedro criou seu perfil literário e começou a fazer posts diários de sugestões e suas impressões sobre determinados títulos. O jovem ainda propõe desafios para seus seguidores a fim de mostrar que o hábito da leitura é algo saudável para se praticar diariamente e que o leitor comum consegue encarar leituras mais densas e ir além dos best-sellers.

Com o crescimento rápido e espontâneo, Pedro passou a ser seguido por nomes conhecidos no mundo dos livros, como o escritor português Valter Hugo Mãe, e personalidades como os apresentadores Luciano Huck, Astrid Fontenelle, Pedro Bial e Sophia Abrahão, além dos atores Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso, do jogador Kaká e da influenciadora digital Gabriela Pugliesi. Em pouco tempo, o perfil no Instagram também rendeu parcerias promissoras, como a feita com a Amazon, grande empresa de comércio eletrônico. O impacto das vendas dos títulos sugeridos por Pedro tem sido tão relevante que seus seguidores apelidaram de “efeito Book.ster” quando um livro comentado por ele ganha destaque na livraria.

No ano passado, foi convidado a comandar um Clube de Leitura no Tucupi, um espaço voltado para o desenvolvimento de atividades que envolvem a criatividade. Desde então, Pedro se encontra a cada 15 dias com um grupo de leitores para discutir a experiência com a obra do mês. O Clube está desde o início com lotação máxima e já conta com uma lista de espera. O advogado participou também de eventos literários, como a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), falando sobre sua experiência com o Book.ster, e foi convidado para ser curador de um clube de assinatura de livros chamado Garimpo Clube do Livro.

Para Pedro, o que está por trás de todo esse seu movimento é fazer com que mais pessoas possam inserir esse hábito em sua rotina e incentivar sobre a importância da leitura. “Além dos benefícios práticos da leitura, como a melhora na escrita e a oportunidade de absorver cada vez mais conhecimento, esse hábito me torna, acima de tudo, um ser humano mais empático. Por meios dos livros, eu posso enxergar a vida a partir das mais diversas perspectivas, seja do autor ou dos personagens por ele criados, passando a compreender e respeitar cada vez mais o outro. A vontade de ler vai contagiando outras pessoas”, diz.

Clarices e Marias

A produtora de conteúdo formada em estudos literários e jornalismo, Michelle Lopes criou o site Clarices e Marias, com o objetivo de destacar a cultura produzida por mulheres. “Inicialmente seria uma página que iria falar de literatura e principalmente pela literatura produzida pelas mulheres, mas foi crescendo e atualmente destaca as mulheres que colaboram com a vida cultural do Brasil e do mundo”, conta . O nome Clarices e Marias é uma referência da música O Bêbado e o Equilibrista, eternizada na voz de Elis Regina. “Só inverti a ordem pois tenho uma profunda paixão pela obra de Clarice Lispector”, diz.

Ela relata que Clarices e Marias quer falar sobre mulheres famosas e desconhecidas, sobre projetos culturais populares e irreverentes, sobre toda e qualquer contribuição cultural feita por elas. Ela conta que lançou recentemente o Autoconhecimento em jornada onde discute presencialmente livros escritos por mulheres. “No momento estamos lendo Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés. Acredito profundamente no poder das leituras coletivas, das rodas de conversa, dos círculos de mulheres. Desde fevereiro, a cada mês promovemos encontros mensais para a leitura de um ou mais capítulos. Além disso, o projeto conta com encontros virtuais”, diz.

No cinema
Falando em encontros literários, vale a pena assistir ao filme A Sociedade Literária (foto) e a Torta de Casca de Batata, baseado no livro que leva o mesmo título. A história traz Juliet Asthon (Lily James), uma escritora britânica que vive livre das influências dos padrões da sociedade e que está iniciando seu trabalho, mas está em busca de uma ótima história para seu próximo livro, algo que faça diferença em sua vida. Em um cenário pós-guerra, Juliet acaba por receber uma carta enviada por um fazendeiro chamado Dawsey Adams (Michiel Huisman), onde ele conta sobre como um clube do livro local foi fundado durante a guerra, em plena fome e sofrimento. E Juliet decide viajar para conhecer este curioso clube literário.

Escrito por:

Kátia Camargo