Publicado 08/04/2019 - 14h50 - Atualizado 12/04/2019 - 20h04

Por Daniela Nucci

As mulheres preferem os jogos lúdicos e de estratégia, e os homens os mais competitivos: mesa do bar Metropoly, em Barão Geraldo, inaugurado em 2014

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As mulheres preferem os jogos lúdicos e de estratégia, e os homens os mais competitivos: mesa do bar Metropoly, em Barão Geraldo, inaugurado em 2014

Na contramão do mundo digital, onde as pessoas ficam horas em computadores, celulares e tablets, um mercado tradicional vem ganhando força no Brasil: o de jogos de tabuleiro. Antes criado pelos consagrados Banco Imobiliário, War, Detetive e Banco Imobiliário, agora existe uma nova onda de jogos, muitos deles inspirados em séries de TV e games famosos. Segundo a Associação Brasileira de Fabricantes de Brinquedos, o setor de jogos de tabuleiro, cartas e memória, faturou R$ 567 milhões em 2017. Em Campinas, a moda já pegou.
De acordo com o site Boardgame Geek, só em 2018 foram lançados mais de 5 mil jogos originais em todo mundo, sendo que mais de 300 deles em versões brasileiras. Para se ter uma ideia, nos anos 80, eram produzidos 400 jogos no mundo, por ano. Na plataforma de financiamento coletivo Kickstarter, a arrecadação para criação de novos jogos foi de mais de US$ 27 milhões - valor que ultrapassou a arrecadação em prol das campanhas dos criadores de videogames, que foi de US$ 15,8 milhões. No Brasil, a prática está cada vez mais presente nos encontros entre amigos, que se reúnem em casas especializadas no assunto, como no clube YoouGeek, no Cambuí. “O mercado está crescendo, assim como o faturamento em todo mundo a uma taxa de 10% ao ano. Devido à era digital, há uma década, os jogos de tabuleiro tiveram uma queda, porém teve o efeito rebote. As pessoas começaram a se sentir solitárias e, hoje, buscam esses jogos para terem mais interação”, diz um dos donos do clube, Luis Tadeu Barros Ferraz de Oliveira. A faixa etária é entre 25 a 40 anos. “São casais ou amigos, até dez pessoas . É um grupo que jogou pouco quando era novo e sente falta da reunião com os amigos. Hoje, os jogos de tabuleiros usam a base do eletrônico, mas traz a mecânica do Body Game (jogo de carta, dados, miniaturas e até associados aos aplicativos)”, diz Oliveira. Entre os mais pedidos, destaque para os Zombicide, Dixit e Imagem em Ação, que foi modernizado e leva o nome de Concept, onde a pessoa tem que adivinhar através de ícones. “O jogo antigo sai porque lembra a infância, só que o novo atrai mais, é desafiador. A maravilha desse jogo é ter um oponente visual, o jogo eletrônico não se sabe onde ele está. Isso mexe com o emocional”, diz o empresário. O tempo de duração varia entre um minuto até um dia de duração, esse último exige muita experiência.
No clube, o cliente paga R$ 10 para entrar, pode escolher entre 100 jogos disponíveis e jogar à vontade, de segunda a domingo, das 12h até as 22h, sexta e sábado das 12h até 00h. Há jogos que chegam a quase R$ 600, e o mais caro é um importado, de R$ 800. “Se a pessoa quiser, vendemos os jogos também”, informa o dono.
A casa conta com uma equipe responsável para auxiliar os jogadores com as regras dos jogos e possibilitar que todos tenham uma diversão garantida. Eles também ajudam na indicação de jogos mais divertidos e adequados aos interessados, de acordo com o número de participantes.
Mania que tem agradado até novos adeptos, como o engenheiro mecânico Lucian Farias Gomes, de 27 anos. “Desde a infância sou apaixonado por jogos eletrônicos. Um dos meus amigos, que sempre joga comigo, comentou sobre os jogos de tabuleiros e me chamou para irmos ao YoouGeek. Como nos encontrávamos só pelos jogos eletrônicos, topei e aproveitamos para sair. A gente adorou o tipo de jogatina e saiu aquela imagem de jogo monótono, voltado para pessoa que têm raciocínio apurado, para ter jogos de todos os tipos, desde Gênio, ao mais completos como Balze Sun, que podem demorar até três horas. Foi muito legal. O clima medieval também é envolvente, assim como a culinária, pois acabamos comendo algo e nos divertindo bastante. Rachamos alguns jogos e vamos nos encontrar mais. Esses locais são legais porque a gama de opções que traz esses jogos e as mecânicas são para raciocínios tão aguçados quanto os próprios jogos eletrônicos e isso me surpreendeu. Quero fazer por muito tempo. A gente sai da tela e se encontra de verdade. É muito bom. É um hobby que vai durar por um bom tempo”, diz Gomes.
Da tela para a realidade
Em Barão Geraldo, o point dos jogos de tabuleiro fica no bar Metropoly. Inaugurado em 2014, o local tem como objetivo mostrar que jogar é um entretenimento saudável, muito divertido e que pode reunir adeptos de todas as idades e gostos. “As pessoas buscam se distanciar um pouco do isolamento que vivem no mundo online. Cada vez mais elas se interessam pelo tema e gostam muito da proposta. Jogar off-line permite a interação entre as pessoas, para que elas se conheçam melhor, além de estimular e desenvolver diversos aspectos de inteligência. Quando falamos de famílias com crianças podemos observar o quão animadas essa crianças ficam por poder ter um tempo de interação com os pais, que, na maioria do tempo, estão ocupados com as tarefas que este mundo tão agitado nos exige diariamente”, diz um dos sócios da casa, Hugo Leonardo Barbuto. A grande maioria dos clientes retorna diversas vezes e, em muitos casos, com grupos diferentes, ora da turma do trabalho, outras de amigos e até com a família. “Aos finais de semana dificilmente você conseguirá uma mesa se não fizer uma reserva previamente”, adianta Barbuto.
O empresário diz que observou um aquecimento deste mercado, meio esquecido no Brasil desde os anos 80 e 90, quando ocorreu o aquecimento da era digital. “Fora do país, obviamente este mercado também entrou em recessão no período, mas nunca ficou tão esquecido como no Brasil. Desde 2014, ano de abertura do Metropoly, a quantidade de editoras e, consequentemente, o número de jogos lançados no país cresceu de forma exponencial, passando de cerca de 50 títulos por ano para quase 400 previstos para este ano”, aponta Barbuto.
E a procura acompanhou este crescimento. Mas, infelizmente, os jogos no Brasil têm um custo muito elevado. “Existem jogos modernos e lançados no Brasil vendidos a partir de R$ 30 (Black Stories) até mais de R$ 800 (TwilightImperium)”, diz Barbuto. Por esta razão, no Metropoly é cobrado uma taxa de R$ 13 a R$ 15, dependendo do dia, e com isso as pessoas podem jogar à vontade quantos jogos quiserem durante a noite dentre os mais de 750 disponíveis, além de contar com o auxílio de uma equipe de monitores que ajudam na escolha e até mesmo com as regras da maioria deles.
Além da interação com os amigos, para o advogado Havner Bezerra, de 29 anos, a gama de jogos atrai muito o público que fica encantado com esse universo. “Antes, as pessoas achavam que tinham só os jogos antigos como Imagem e Ação, mas hoje tem uma variedade incrível, inclusive com temáticas como Game of Thrones, que foi o que iniciei esse gosto. É um jogo muito bom e competitivo onde você ainda conversa, bebe e come com os amigos, num ambiente de interação total, diferente de estar na frente de um computador”, diz Bezerra.

Escrito por:

Daniela Nucci