Publicado 26/04/2019 - 06h56 - Atualizado 26/04/2019 - 06h56

Por Cláudia Antonelli

Expandindo  a mente

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Expandindo a mente

Novos aprendizados costumam expandir a mente. Novas ligações: afetivas, cognitivas, relacionais. Conhecer melhor – o mundo, a História, os outros e a nós -, parece expandir-nos.
Certas situações da vida, quando não excessivas – separação, paixão, mudanças -, costumam também nos convocar a lançarmos mão de recursos próprios que acreditávamos inexistentes, ou a construirmos novos. (Se excedem nossas possibilidades podem ser traumáticas).
Outro dia nosso amigo astrônomo de Campinas, Júlio Lobo, publicava uma citação em sua página no Facebook que me chamou a atenção: “Há um centro profundo em todos nós, onde mora a verdade em sua plenitude. E, para saber, antes rasgar um caminho por onde possa sair o esplendor cativo, que mergulhar na luz que imaginávamos externa.” (Robert Browning).
Está aí alguém que parece investigar “o universo lá fora”, sem perder o interesse pelo dentro e pelo próximo. Esse Universo que se expande muito mais rapidamente que nossas mentes, e do que se imaginava. Astrônomos afirmam, 73km/segundo mais rápido (ou 9%) do que a última medida. Diz a matéria que li há pouco: “Isso significa que o espaço está se expandindo com rapidez suficiente para basicamente dobrar a distância entre nossa galáxia e nossos vizinhos mais próximos dentro de algum tempo”.
Nem sabemos ao certo o que isto significa; exceto que nos distanciamos de nossos vizinhos de galáxia a uma velocidade estonteante. Enquanto o tempo vai passando. Páscoa já passou e estamos no final de Abril; já já, na metade do ano.
Enquanto o Universo segue se expandindo. Desde bem pequena, por volta de 5-6 anos de idade, deitada na cama do beliche de cima, eu olhava o teto branco e no silêncio do quarto, perguntava-me: o que há quando não há espaço (Universo) no lugar? Antes dele chegar, o que havia lá? O que haveria, se não houvesse a vida? Se não estivéssemos aqui - o que haveria?
Tanto o Planetário Hayden de Nova York quanto o Museu do Amanhã no Rio de Janeiro, onde estive recentemente, buscam ensinar fatos da vida às pessoas pequenas e grandes. Ambos dirão a mesma coisa: nossa vida na Terra até hoje, equivaleria a ‘segundos’, em relação ao tempo do Universo. Sabemos que somos quase 7 bilhões atualmente. Mas aproximadamente 108 bilhões (!) de pessoas já passaram por aqui (Pupulation Reference Bureau). 108 bilhões. De pessoas que nasceram, viveram e morreram. Tiveram filhos talvez, trabalharam, viram o sol, a terra, o céu. Envelheceram. Quem não se pega às vezes (será somente eu?) a se perguntar: qual o sentido disto tudo? Da expansão do Universo, da passagem dos anos; da vida e da morte.
“O sentido é a própria vida”, dirão alguns. “A própria construção dela, dia após dia”. Parece-me válido, além de bonito. Os filósofos e os poetas, sabemos, tentam definir, explicar, pensar o sentido dela. Franz Kafka dizia que o sentido da vida, é que ela terminava: este fato lhe atribuía um sentido. Drummond, por sua vez, dizia que o sentido estaria no próprio ato de buscar um sentido: na ação de viver e procurar um sentido em viver (como disse também o poeta Browning acima).
Já Alberto Caieiro, conhecido heterônimo de Pessoa (e sua parte um pouco cética), teria escrito: “O único sentido oculto das coisas, é elas não terem sentido oculto nenhum; É mais estranho do que todas as estranhezas, E do que os sonhos de todos os poetas, E os pensamentos de todos os filósofos, Que as coisas sejam realmente o que parecem ser, E não haja nada que compreender. Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: As coisas não têm significação: têm existência. As coisas são o único sentido oculto das coisas.”
Um “q” de super-realidade talvez. Algumas coisas ainda (falo por mim) têm mistérios. A começar por nós mesmos. Difícil (talvez impossível) sabermo-nos por inteiro, que dirá conhecer o outro. Para outros, “Amar e ser amado”, torna-se o verdadeiro sentido. Uma bússola na existência; uma âncora no mar agitado dela. Pode ser o amor de Deus, da família, do par. Assim cantava Vinicius, nosso diplomata, poeta e filósofo, em sua O que é que tem sentido nessa vida:
“O que é que tem sentido nesta vida 
Não vai ser casa e comida 
Cama fofa, cobertor 
Não vai ser ficar mirando os astros 
Ou então andar de rastros 
Pelas sendas do senhor. 
Para muitos é o dinheiro 
Ir de janeiro a janeiro 
De pé no acelerador 
Eu sinceramente, preferia 
Uma vida de poesia 
Na vigília de um amor. 
Há quem creia em ter status 
Sair em fotos & fatos 
Ter ações ao portador 
Eu só acredito em liberdade 
E estar sempre com saudade 
De viver um grande amor.”
A bênção e o problema do sentido é que ele é individual; particular, intransferível. Feito direito de voto. O voto é seu, em você mesmo. O que te faz sentido. Ou ao menos, o que te faz buscar um. Qual o seu?

Escrito por:

Cláudia Antonelli