Publicado 11/04/2019 - 12h34 - Atualizado 11/04/2019 - 12h35

Por Carolina Scoz


Não demora muito até os apaixonados descobrirem que o entendimento pleno não passa de uma fantasia romântica. "Ele adivinha meus pensamentos!" logo sucumbe à difícil e irreversível constatação: "Ele nunca me entende!". Manuel Bandeira recomendava: "Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor. Só em Deus ela pode encontrar satisfação. Não noutra alma. Só em Deus - ou fora do mundo. As almas são incomunicáveis. Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque os corpos se entendem, mas as almas não." Tinha razão o poeta: basta dizermos uma frase íntima para o ser amado franzir a testa, incerto sobre o que tentamos expressar. A paixão exige paciência. Mensagens que pareciam inequívocas de repente mostram-se capazes de incitar teimosas confusões. Se era preciso relembrá-lo de que "limonada suíça" não expressava que o suco de limão viesse adoçado com leite condensado (ela gostava da espuma cremosa que o liquidificador produzia), imaginem a quantidade de vezes que precisou explicar palavras sentimentais, que falou sem considerar a distância de mundos entre quem diz e quem ouve. Não que tivesse a ilusão dos jovens apaixonados; de algum modo sabia que é preciso tempo. Podem duas pessoas atravessar a noite numa conversa sincera e risonha, enquanto pernas insones aninham-se e cabelos revoltos descansam no ombro ao lado: são dois estrangeiros. Sempre serão. Nasceram em continentes longínquos, afastados por oceanos. São diferentes suas geografias, desde as submersas placas tectônicas até os céus que os recobrem. Têm estranhos hábitos. Falam idiomas exóticos. Nenhum compêndio ou dicionário resolverá as incompreensões: será preciso caminhar enormes distâncias até a Terra Prometida. Quarenta anos, está na Bíblia. Por quê? Dizem os historiadores que se Moisés escolhesse o trajeto mais curto, até o final, a somente 400km, encontraria inimigos filisteus. Se atravessasse a península do Sinai, enfrentaria temperaturas escaldantes no planalto de cascalho e calcário. Não foi por acaso que esse mito sobreviveu. Ninguém chega facilmente ao outro lado. É sempre longo o caminho até a terra sonhada.
Ele insistia para que enviasse abraços quando encerrasse mensagens ou telefonemas. "Tchau, querido, um abraço", por exemplo. Ela dizia que não fazia sentido remeter algo que exige proximidade. Ele a acusava de ser fria, inibida, até desinteressada. "Você é muito técnica" - era o que concluía quando ela tentava explicar suas razões. Para ele, talvez, ler ou ouvir a palavra bastasse para incitar sensações. Quem sabe pudesse sentir o perfume de magnólias que ela usava, a palpitação descontrolada de seu coração. Quem sabe adormecesse, sem a aflição de todas as noites. E, então, acordasse menos receoso: se ela envia abraços, ainda quer vê-lo (uma dúvida absurda que ela nem suspeitava assombrá-lo). Para ela significava trapacear a ausência que ele deixava, negando que havia uma separação. O grave resultado de escrever "abraço" era diminuir o impacto do abraço carnal quando ocorresse depois da arrastada espera. Ela tentava dizer a ele que algumas experiências preciosíssimas estavam banalizadas pela facilidade da comunicação e, como argumento, lembrava-o de que para os judeus o nome divino não pode ser escrito ou pronunciado, tamanha é a grandeza desse ser. Inominável, dizem. Ou Altíssimo. Ou, ainda, Eterno. Seguia exemplificando que as principais tradições da filosofia buscaram palavras que respeitassem a imensidão do fenômeno designado, quer se pense na Ideia do Bem, de Platão, na Causa Primeira, de Aristóteles, no Um de Plotino, na Causa sui de Espinosa ou no Absoluto de Hegel. Um abraço é coisa grande demais para caber num vocábulo corriqueiro de seis letras, desbotado pelo uso cotidiano. "Enviar abraço é profaná-lo" - era sua opinião. Mas, para ele, o abraço imaginado evocava as sensações poderosas que seu corpo trazia registradas em cada neurônio. Bastava fechar os olhos e, instantaneamente, recapturava o prazer sentido junto ao corpo morno dela. Lembrava de ter visto um estudo científico recente que comprovava com larga margem estatística: o contato físico reduz a vulnerabilidade do sistema imunológico. As pessoas que mais abraçam são as que adoecem menos. Nunca mais teve gripe depois que começou a abraçá-la, fosse na realidade ou na recordação. Nunca mais se viu perdido. Nem solitário. Nem velho.
Por isso, ele não desiste de pedir: "Envie um abraço, querida". Não é capricho, vaidade ou dominação: é necessidade. Por isso a abraça, sem nada dizer: tem a fé resignada na compreensão sem palavras explicadas.

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Carolina Scoz