Publicado 30/04/2019 - 09h12 - Atualizado 30/04/2019 - 09h12

Por Francisco Lima Neto

Interior da fábrica no Botafogo guarda, além do descaso do tempo, restos de máquinas e da história que ali se construiu por quase um século

Denny Cesare/AAN

Interior da fábrica no Botafogo guarda, além do descaso do tempo, restos de máquinas e da história que ali se construiu por quase um século

Uma reportagem publicada no último domingo pelo Correio Popular relembrando os tempos de funcionamento e pujança da antiga fábrica dos Chapéus Cury, no bairro Botafogo, reavivou a memória afetiva e comoveu a cidade de Campinas.
A publicação mostra que o prédio onde a fábrica funcionou por 92 anos está abandonado e com a aparência degradada. É notório que nenhum tipo de manutenção é feita no local há tempos.
A reportagem mexeu com as lembranças e a saudade de muitas pessoas da cidade e até de fora. Um vídeo, publicado um dia antes da reportagem impressa, teve até ontem mais de 16 mil visualizações, 571 curtidas, 142 comentários e 246 compartilhamentos.
Já a reportagem publicada no domingo alcançou 254 compartilhamentos, tamanho impacto causado pelas recordações do prédio, testemunha de parte da história da cidade, e da fábrica expoente da indústria do interior no século passado.
Entre os comentários, vários eram de pessoas que trabalharam na fábrica ou que circulavam por ela para ir ao trabalho. A maioria pedia um maior zelo com o símbolo de uma época e uma destinação adequada ao prédio histórico. "Melhor fábrica que já trabalhei até hoje foi Chapéus Cury, meu primeiro emprego foi aí com 18 anos, triste de ver", lamentou Edson Pagliarine Junior.
"Nossa!! Foi bom trabalhar aí, bons tempos, mas é uma pena tudo acabar assim", escreveu Moisés Pachelle.
"Meu tio trabalhou nesta empresa, e colecionava os chapéus que fazia", afirmou Filomena Pianca.
"Sempre disse que Campinas tinha que ter um projeto de recuperação de imóveis!! Existe um mais lindo que o outro... e também uma história mais rica que a outra!! A cidade merece... nós merecemos... e olha que pela minha antecedência, a lembrança pela história de Campinas, não é a das melhores... mas vale a pena... e a beleza dos "Casarões" também!", destacou Sandra Nascimento.
"Passei lá na frente há um tempo atrás...Triste ver o abandono!! Chapéus Cury faz parte da história de Campinas, não pode se perder! No local deveria ser montado um museu!", apontou Rafael Adrenalina.
"Trabalhei aí por anos, primeiro emprego 1989", relembrou Marco Alves Antonio.
"Foi meu primeiro emprego. Na época era menor tinha uma carteira de trabalho!! Trabalhava e estudava trabalhei na expedição", afirmou Renato Gomes Rosa.
"Patrimônio de Campinas mas ninguém cuida. Isso é vergonhoso", lamentou Camila Costa.
Entenda
A reportagem do Correio retratou o descaso com o prédio histórico do Chapéus Cury. O interior da fábrica parece até uma cena de fim de mundo: muito lixo, sujeira para todo lado. Restos de marmitas espalhados, máquinas abandonadas, recipientes de produtos químicos, e, pasmem, até um currículo perdido no chão imundo.
A fachada do prédio histórico ostenta pichações, reboco caindo, infiltrações, e tijolos se despedaçando. As calçadas estão há tempos sem receber nenhum tipo de manutenção. O piso está desnivelado, com mato, folhas, pedaços de entulho, concreto e lixo. Para caminhar pelo local é preciso estar atento e desviar de todos esses obstáculos.
A fábrica empregou centenas de trabalhadores até ser desativada em 2012.
Em setembro de 2008, quando tinha 88 anos de existência, a fábrica se tornou patrimônio histórico de Campinas. As fachadas do prédio que a empresa ocupava desde 1920 e a chaminé foram tombados pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas (Condepacc).
Os estudos visando o tombamento estavam abertos desde 1994 e levaram em consideração a importância econômica da empresa para a cidade, sua história de indústria familiar e sua participação no desenvolvimento urbano de Campinas.
O FUTURO
Em 2012, pouco antes do fechamento da fábrica, Sérgio Cury Zakia, então com 88 anos, deixou claro que a especulação imobiliária era muito forte, agressiva e que era impossível não ceder. Segundo ele, seriam construídos vários edifícios no prédio histórico.
Dayse Ribeiro, da Coordenadoria Setorial do Patrimônio Cultural (CSPC) afirmou que, há algum tempo, projetos imobiliários foram analisados. "A Coordenadoria já examinou dois projetos interessantes de empreendimentos, mas não prosperaram. Eram prédios, mas que iriam ficar bem interessantes. Mas não posso falar mais nada porque não teve andamento", disse.
Sobre a falta de manutenção, ela explicou que o órgão faz, em média, duas vistorias anuais em prédios históricos. Questionada sobre todo o entulho e lixo no interior do prédio, ela deu a seguinte resposta. "A gente precisa tomar cuidado para aquilo não interferir no muro, lá dentro, nada é tombado", finalizou.
Vale ressaltar que o prédio é particular. As únicas estruturas que são tombadas e precisam ser preservadas são a fachada e a chaminé.

Escrito por:

Francisco Lima Neto