Publicado 28/04/2019 - 10h26 - Atualizado 28/04/2019 - 10h37

Por Rogério Verzignasse

Geovanna Bispo Alves mostra o livro A negra cor que resiste nas ruas campineiras

Leandro Torres/AAN

Geovanna Bispo Alves mostra o livro A negra cor que resiste nas ruas campineiras

Uma jornalista de apenas 21 anos, recém formada na Universidade Paulista (Unip), acaba de receber uma moção de aplauso da Câmara Municipal de Sumaré por ter preparado — como trabalho de conclusão de curso — um livro-reportagem sobre o papel dos negros na história campineira. Lideranças que foram importantes na política, nas artes, no trabalho, na organização social. Ícones da liberdade e da solidariedade, em um tempo de valores ultrapassados e preconceituosos.
Geovanna Bispo Alves nasceu em Campinas. Ela mora em Sumaré desde bebê, mas jamais perdeu o contato com os parentes, que continuam por aqui. E a moça sempre foi apaixonada por sua terra-natal.
A queda pessoal pela cultura negra tem explicação genética. Geovanna é bisneta de um negro. Geraldo Marcelino Bispo foi poeta e escritor, e já virou nome de rua em Taubaté.
Em 2017, ela ainda conheceu um projeto de lei na Câmara, que propunha a disponibilização de pequenas biografias de personalidades negras em placas que identificavam nomes de ruas e praças.
Era uma propositura do vereador Carlão do PT, que foi entrevistado para o próprio trabalho de conclusão de curso da então estudante, que remetia a um tema muito difícil: Campinas foi uma das últimas cidades brasileiras a abolir a escravatura. 26 lideranças negras da cidade de Campinas se tornaram nomes de logradouros públicos desde 2015, quando o vereador apresentou a indicação 674, transformado em projeto do Executivo, implementado pela Setec 
A orientadora do projeto foi a professora Cibele Bouro. A colação de grau de Geovanna foi em janeiro. Para fazer a pesquisa, a jovem jornalista recorreu aos arquivos do Centro de Memória da Unicamp, da Academia Campinense de Letras (ACL), do Museu de Imagem e Som de Campinas (MIS), do Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA). Foram diversas entrevistas com historiadores e integrantes do movimento negro.
O livro A negra cor que resiste nas ruas campineiras tem 136 páginas. Detalhe: a moça bancou do próprio bolso a edição de 50 exemplares, e os doou a amigos, parentes, historiadores e professores. Sonha, um dia, despertar a atenção de uma editora e lançar uma edição comercial.
“Conhecer e apresentar em palavras a história de negros que construíram a cidade de Campinas foi minha respiração durante um ano de pesquisa”, conta Geovanna.
Episódios
Luís Gama, baiano que chegou a Campinas na condição de escravo
A obra de Geovanna conta em detalhes e histórias como a do escravo Elesbão, morto no patíbulo por ter sido acusado de planejar a morte de seu próprio senhor (veja trecho nesta página).
“É difícil encontrar uma moça tão jovem, dedicada a um assunto tão complexo. É muito bom ver as novas gerações engajadas na preservação da história”, elogia Edgardo Cabral, vereador que apresentou a propositura da moção de aplauso à jornalista na Câmara de Sumaré.
O livro também conta a trajetória de Francisco Glicério, afrodescendente. Ele foi símbolo da ascensão intelectual da raça, com papel estratégico em um movimento político que mudou a história do Brasil: a construção da República. Historiadores ouvidos por Geovanna, no caso, explicaram que os livros de histórica reservam para os negros os capítulos referentes à escravidão, mas desconsideram a atuação estratégica da raça para o avanço democrático e social da Nação.
Também é personagem da obra a Laudelina de Campos Melo, negra, ativista social, que pelejou pelos direitos igualitários da classe trabalhadora doméstica e lutou contra o preconceito racial na comunidade.
As páginas trazem informações biográficas de muitos outros negros de atuação reconhecida, e que viraram nome de rua pela cidade. Gente como o escravo Antoninho, o mestre Tito, Luiz Gama e Cruz e Souza, personagens centrais de epopéias incríveis, que tratam de solidariedade e cultura.
As páginas denunciam até casos criminosos como a venda ilegal de escravos que já eram libertos, que geravam dinheiro sujo para os barões.
O livro fala também de lugares emblemáticos, como o largo onde os escravos eram comercializados, e a capela de Santa Cruz do Fundão, na Abolição, construída em um terreno que serviu para a sepultura de escravos nos primórdios da Vila São Carlos, e que virou tema de lendas.
O livro é uma viagem deliciosa e tempos e lugares de autênticos heróis campineiros, nem sempre reconhecidos como tal, mas cultuados pelos apaixonados pela memória local.

Escrito por:

Rogério Verzignasse