Publicado 28/04/2019 - 09h43 - Atualizado 28/04/2019 - 10h53

Por Francisco Lima Neto

Uma espiada pelos vidros quebrados mostra o interior degradado e sujo da edificação

Denny Vesare / AAN

Uma espiada pelos vidros quebrados mostra o interior degradado e sujo da edificação

Os mais jovens que andam pelas calçadas mal conservadas da Rua Barão Geraldo de Rezende, na altura do número 142, no Botafogo, em Campinas, talvez não conheçam a importância e o valor histórico daquele prédio que abrigou a fábrica dos Chapéus Cury durante 92 anos. A edificação, que ocupa praticamente um quarteirão inteiro, completa 100 anos em 2020, mas o estado atual nem de longe remete aos seus tempos áureos.
As fachadas do prédio que a empresa ocupava desde 1920 e a chaminé foram tombados
A fachada do prédio histórico ostenta pichações, reboco caindo, infiltrações, e tijolos se despedaçando. As calçadas estão há tempos sem receber nenhum tipo de manutenção. O piso está desnivelado, com mato, folhas, pedaços de entulho, concreto e lixo. Para caminhar pelo local é preciso estar atento e desviar de todos esses obstáculos.
Mas, nada disso é tão assombroso quanto espiar dentro da fábrica, que durante décadas empregou centenas de trabalhadores, até ser desativada em 2012. Observando pelos vidros quebrados, o que se vê causa grande tristeza. O interior parece uma cena de fim de mundo: muito lixo, sujeira para todo lado. Restos de marmitas espalhados, máquinas abandonadas, recipientes de produtos químicos, e, pasmem, até um currículo perdido no chão imundo.
A imponência do prédio correspondia ao prestígio do que lá era produzido. Os verbos no passado são indicativos de que o panorama atual é bem diferente. A antiga fábrica do Chapéus Cury hoje é um amontoado de problemas. Sobra até pouco espaço para as lembranças. Lixo, entulho e descaso decretam um futuro incerto a um pedaço de Campinas com tanta história para contar.
Quem conheceu o passado glorioso da fábrica e revê o prédio hoje tem dificuldade de acreditar que se trata do mesmo lugar.
Moradores da região reclamam do descaso, falta de manutenção, e de uma destinação mais condizente com o valor histórico do prédio.
"Essa fábrica foi tão boa antigamente. Hoje dá dó. Eu passava aqui na hora do almoço e tinha aquele monte de operário sentado aqui do lado de fora. Tanto aqui em cima quanto na parte de baixo. Era muito movimentado. Tinha muito funcionário", conta a empregada doméstica Maria Aparecida Pereira, 62 anos, que trabalha há mais de 20 anos na região.
Ela reclama do estado das calçadas, que dificultam o caminhar, principalmente das pessoas mais velhas, e do estado do prédio. "O casarão é bonito. Não dá pra derrubar. A estrutura é boa. Hoje querem fazer prédio em tudo que é lugar. Tomara que não façam aqui", diz.
Maria comenta que gostaria que o lugar fosse restaurado e se tornasse algum centro de história ou de cultura da cidade. "Tá feia a situação. Uma bagunça. Aqui tá cheio de pernilongo por causa dos lixos lá dentro. De vez em quando, aparece um povo com caminhão e leva umas máquinas embora", conta o manobrista William Menezes, 34 anos.
“Eu passava aqui na hora do almoço e tinha aquele monte de operário sentado aqui do lado de fora. Era muito movimentado.”
Onze anos do tombamento
Em setembro de 2008, quando tinha 88 anos de existência, a fábrica se tornou patrimônio histórico de Campinas. As fachadas do prédio que a empresa ocupava desde 1920 e a chaminé foram tombados pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas (Condepacc). Os estudos visando o tombamento estavam abertos desde 1994 e levaram em consideração a importância econômica da empresa para a cidade, sua história de indústria familiar e sua participação no desenvolvimento urbano de Campinas.
A empresa ficou conhecida internacionalmente como a fabricante do chapéu do Indiana Jones. O visual faroeste do personagem de Harrison Ford tem o acessório "made in Campinas". Ford usava o chapéu desde Os caçadores da arca perdida, o primeiro filme da série, de 1981. A história da empresa em Campinas começou em 1920, quando Miguel Vicente Cury e seu pai Vicente Cury fixaram residência na cidade e fundaram uma pequena fábrica de chapéus. Antes disso, eles tinham uma oficina de reforma de chapéus, em Mogi Mirim.
No começo, importavam da Europa o pelo de coelho que era usado na confecção de carapuças de feltro, como são chamados os chapéus semi-acabados, para chapéus masculinos, sociais e de campo.
Segundo a empresa, o fundador e sua própria família foram os responsáveis pelo início da produção, por sinal, muito pequena. As dificuldades eram tremendas, mas empenhando-se com tenacidade e entusiasmo, Miguel e o pai conseguiram enfrentá-las. Fabricava-se uma dúzia de chapéus — que imediatamente era vendida — e com o dinheiro recebido comprava-se os materiais para a fabricação de novos chapéus e assim por diante, até que a indústria encontrasse bases financeiras mais folgadas.
Ainda nos primórdios da indústria, no ano de 1924, passaram a integrar a sociedade os irmãos Salim Zakia e José Elias Zakia (primos de Miguel Vicente Cury), com atuação destacada no desenvolvimento da indústria.
No decorrer dos anos, a indústria foi crescendo cada vez mais: aumentando as áreas de construção e adquirindo máquinas mais modernas no gênero de chapéus, provenientes de países europeus e dos Estados Unidos. Para aprimoramento da qualidade dos produtos, contratavam para prestar assistência temporária técnicos europeus e norte-americanos, imprimindo desta forma maior aperfeiçoamento na técnica de fabricação e possibilitando que se conquistasse boa parcela do mercado.
No ano de 1975, a empresa deu um grande passo, ao adquirir o maquinário e a marca Ramenzoni. Passou então a fabricar, também, chapéus de lã de ovelha e os chapéus de pelo de coelho, de ambas as marcas: Cury e Ramenzoni.
Em 2004, visando agregar valor à sua linha de produtos, a Cury adquiriu uma confecção e criou a marca Cury Jeans, voltada à fabricação de calças, jaquetas e camisas.
Primeiro emprego com carteira assinada foi como aprendiz de chapeleiro
A equipe do Correio encontrou o instalador de som e alarmes para carros, Ivan Carlos Costa, de 54 anos, em frente ao prédio da empresa. Ele trabalhou na fábrica em 1979. "Meu primeiro emprego foi aqui, como aprendiz de chapeleiro. Foi meu primeiro emprego com carteira assinada", conta. "Aqui era muito diferente. Quando apitava para o almoço, a gente via sair 300 pessoas daí de dentro dessa fábrica", rememora.
Ivan Carlos Costa, de 54 anos: "A gente via sair 300 pessoas daí de dentro dessa fábrica"
Costa morava numa casa em frente ao prédio. Aliás, ela é uma das poucas que ainda restam na rua que foi tomada por prédios. "Minha mãe alugou essa casa e montou uma pensão. Vários funcionários da fábrica moravam na pensão da minha mãe", diz.
Não por coincidência, um dos trabalhadores da fábrica foi morar na pensão e acabou conhecendo a irmã de Costa. "Meu cunhado veio morar na pensão e minha irmã acabou indo trabalhar na fábrica também. Eles se conheceram assim e acabaram se casando. Nós três da mesma família trabalhamos na fábrica", explica. 
“Hoje foi a primeira vez que subi ali pra ver lá dentro. Tá tudo destruído. Dá vontade de chorar. É uma tristeza total.”
Surpresa e crime marcam fechamento
O fechamento da fábrica dos Chapéus Cury em Campinas ficou envolto em surpresa e até assassinato. Em junho de 2011, um ano antes de fechar, a empresa firmou uma parceria com a norte-americana Dorfman Pacific e criou uma nova empresa para comercializar linhas headwear (moda) que levavam a assinatura da multinacional dos Estados Unidos. O investimento inicial anunciado era de R$ 6 milhões. O plano era que em cinco anos as vendas alcançassem R$ 40 milhões na América Latina.
O então presidente do Grupo Cury, Paulo Cury Zakia, afirmou à época que a joint venture com uma gigante do setor traria para a empresa uma exposição maior junto ao mercado consumidor nacional com modelos e linhas nas quais não tinha presença. “O primeiro passo será a estruturação da empresa no Brasil e na América Latina. Iremos comercializar os produtos da Dorfman Pacific em show rooms para o atacado e em três anos em lojas conceito”, detalhou na ocasião.
No entanto, a empresa fechou.
No dia 3 de fevereiro de 2013, o engenheiro agrônomo, Sérgio José Lauandos Zakia, 60 anos, um dos sócios da empresa e irmão de Paulo, foi assassinado em uma tentativa de assalto à sua casa, no Jardim Palmeiras, em Campinas. O caso foi registrado no Plantão Policial do 1º Distrito. O Setor de Homicídios e Proteção à Pessoa (SHPP) de Campinas informou que, após investigação, duas pessoas foram presas pelo crime, um menor e um maior.
VENDAS CONTINUAM PELA INTERNET
As vendas dos chapéus continuam via internet, e os preços variam na casa dos R$ 290 a R$ 800, dependendo do modelo. No site, há dois telefones de contato, com DDD 19.
Por meio do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CPNJ), foi possível descobrir que em 18 de dezembro de 2013, surgiu uma empresa com a Razão Social Polo Import Confecções Ltda, que usa a marca Chapéus Cury.
A fábrica funciona em Botucatu e, segundo uma funcionária, via telefone, mantém vendas para o Brasil todo. Ainda de acordo com ela, Paulo Zakia, irmão de Sérgio Zakia, que foi assassinado em 2013, faz parte da empresa. Mas, a diretoria e os demais sócios não teriam ligação com a fábrica que funcionou em Campinas.
O Correio tentou contato com os diretores da empresa, inclusive para saber o que será feito com o prédio da antiga fábrica. Foi solicitado que a reportagem fizesse contato via e-mail, mas nenhum deles foi respondido.
SAIBA MAIS
Miguel Vicente Cury, o Doutor Miguel, como era conhecido o proprietário do Chapéus Cury, era um caixeiro de loja e foi prefeito de Campinas, cidade onde nasceu, por duas vezes (1948-1951 e 1960-1963).
Em seu primeiro mandato, promoveu significativas transformações urbanísticas, como a construção do viaduto sobre os trilhos da Fepasa, depois chamado Viaduto Miguel Vicente Cury. Em seu segundo mandato, duplicou a estrutura de tratamento de água.
Em maio de 1951, último ano de seu primeiro mandato, renunciou à Prefeitura para candidatar-se a vereador por Campinas, sendo eleito para a legislatura de 1952 a 1955.

Escrito por:

Francisco Lima Neto