Publicado 27/04/2019 - 09h19 - Atualizado 27/04/2019 - 10h26

Por Henrique Hein e Renato Piovesan

Barreiro teria agido com abuso de poder

Cedoc/RAC

Barreiro teria agido com abuso de poder

O Ministério Público de Campinas avalia a possibilidade de abrir investigação contra Carlos José Barreiro, secretário de Transportes e presidente da Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec). Ele é suspeito de abuso de poder e de praticar ameaças contra os servidores da companhia.
Gravações, datadas do dia 14 de março de 2017 e obtidas pelo Correio Popular na tarde da última quinta-feira, mostram o secretário em uma conversa áspera com os agentes da Emdec, durante uma reunião.
No áudio — com mais de uma hora e meia de duração e que está em posse do Ministério Público (MP) — Barreiro deixa explícito que se algum de seus agentes de trânsito decidisse entrar na Justiça com um processo contra a empresa sofreria consequências.
“Quero dizer a vocês que se vocês entrarem com ação trabalhista (..) vocês vão sofrer as consequências. Sou presidente dessa empresa e sou responsável por ela, vou provar judicialmente que nós estamos certos e que vocês estão errados. Vocês vão sofrer com as consequências (…) Eu não tenho essa mancha no meu currículo”, afirmou Barreiro.
Em outro trecho da gravação, ele afirma que seus funcionários não têm direito de entrar na Justiça. “Não é na Justiça (que vão resolver isso), é aqui tete-à-tete, com quem manda. Sou líder, é aqui que se conversa. Roupa suja se lava em casa, meu amigo”, disse o secretário.
Um servidor procurado pela reportagem avalia que há a prática de assédio moral dentro da Emdec. "Ele sempre busca uma forma de incomodar as pessoas que têm processo contra a empresa", relatou o funcionário, que pediu para não se identificar.
Segundo ele, benefícios ou ocupação de cargos com melhores salários na Emdec são oferecidos somente a funcionários que não entraram na Justiça para cobrar pendências.
"Só pessoas que não acionaram a empresa judicialmente têm direito a cargos de liderança, mesmo que temporários, ou ainda benefícios como andar de moto ou bicicleta, que dá 30% a mais de salário. Ele (Barreiro) possui moedas de troca dentro da empresa que privilegia quem não entrou com processo. Essas pessoas ditas de confiança dele são submissas a ele", acrescentou.
Denúncia
A denúncia movida contra Barreiro no MP foi protocolada pela advogada da Associação dos Agentes de Trânsito de Campinas (AGT), Thais Cremasco.
Em entrevista ao Correio, ela conta que vários agentes a procuraram e começaram a entrar com processos contra a Emdec, mas que depois de um tempo, muitos deles a procuraram de novo falando que queriam desistir das ações, por medo de represálias.
“Eu comecei a perguntar por quê estavam desistindo e eles responderam que era porque os próprios supervisores (da Emdec) e o próprio secretário (Barreiro) estavam assediando os trabalhadores para que eles desistissem do processo”, relatou.
Empresa diz reconhecer direito de recorrer à Justiça
Em nota, a Emdec informou que reconhece o direito de todo empregado recorrer à Justiça, caso se sinta prejudicado. “Como toda empresa regida pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a Emdec registra ações trabalhistas, que são tratadas pela Justiça do Trabalho”. Com relação aos áudios, a Emdec alegou que não ocorreu nenhum caso de perseguição a empregados que tenham acionado judicialmente a empresa. “Como sempre de forma transparente, a Emdec está à disposição da Justiça para prestar todos os esclarecimentos que forem solicitados”, informou a nota. Barreiro foi procurado, mas não respondeu até o fechamento desta edição.

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Henrique Hein e Renato Piovesan