Publicado 26/04/2019 - 07h49 - Atualizado 26/04/2019 - 07h49

Por Henrique Hein

O contexto ruim de trabalho coloca os jovens da região de Campinas em estado de vulnerabilidade social

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O contexto ruim de trabalho coloca os jovens da região de Campinas em estado de vulnerabilidade social

O acesso dos jovens entre 18 e 24 anos ao setor industrial está em queda na Região Metropolitana de Campinas (RMC). É o que aponta um estudo divulgado ontem pelo Observatório da PUC-Campinas, com base em dados extraídos da Relação Anual de Informações Sociais (Rais). De acordo com o levantamento, o número de jovens empregados na indústria regional caiu de 53,4 mil pessoas para 35,1 mil, entre os anos de 2010 e 2018. Trata-se de uma diminuição de pouco mais de 34%.
Segundo a pesquisa, a queda no número de vagas preenchidas, observada desde o início da década, evidencia uma condição inédita para a região que, até então, era marcada pela alta empregabilidade no setor. Para o economista e professor da PUC-Campinas Cristiano Monteiro, a situação impacta negativamente a ascensão profissional e o poder aquisitivo desta nova geração.
“A indústria é um setor que costuma remunerar mais, dar uma vida social mais apropriada para as pessoas. Como estes jovens estão ficando longe das atividades de maior valor, há um notório comprometimento de sua reprodução social, tendo consequências, a médio e a longo prazo, no consumo e no acesso aos serviços”, destacou.
Izaias de Carvalho Borges, também professor de economia da PUC-Campinas, avalia que a crise econômica do Brasil é o principal motivo que explica a queda nos números de contratações para o setor. Entre as razões citadas por ele está o baixo (e negativo) crescimento do Produto Interno Bruto do País.
“Estamos no meio de uma crise que ainda está longe de ser bem resolvida. A região acumulou dois anos seguidos (2015 e 2016) de crescimento negativo do PIB, em 3,5%. Como em 2017 e 2018, o crescimento foi apenas 1%, ainda não recuperamos o patamar econômico que estávamos em 2014”, explica.
Ainda de acordo com Borges, a crise econômica fez com que muitos empresários pensassem duas vezes antes de investir e com que empresas buscariam alternativas mais baratas para o setor na hora de contratar e produzir. “Muitas empresas, por exemplo, optaram por transferir suas fábricas para outras regiões, onde o custo é mais barato”, comentou.
Remuneração baixa
Um fator preocupante mostrado no levantamento é que, mesmo nas ocasiões em que os jovens preencheram as vagas de trabalho, a remuneração paga pela indústria regional foi mais baixa.
Em 2002, a faixa entre 3 e 4 salários-mínimos correspondia a 18,2% dos empregos do setor; enquanto a de 4 a 5 salários ficava próxima de 10%. Em 2017, as mesmas faixas representaram algo em torno de 8,8% e 2,9%, respectivamente. “Os empregos de jovens na indústria da RMC estão remunerando menos do que se via no passado, em termos nominais, levando-se em conta apenas a referência do salário-mínimo”, complementou Monteiro.
Vulnerabilidade social
O contexto ruim de renda e trabalho, aliado aos resultados insatisfatórios do desenvolvimento de capital humano — abordagem também realizada no estudo do Observatório —, coloca os jovens da região em estado de vulnerabilidade social. De acordo com a universidade, o acesso ao sistema educacional, indicador usado para analisar a dimensão do capital humano, apresentou números alarmantes: em 2017, segundo dados da Agemcamp — Agência Metropolitana de Campinas — , dos 215,7 mil jovens entre 15 e 19 anos, apenas 117,2 mil estavam matriculados no Ensino Médio.
Em relação à população de jovens de 20 a 24 anos, público em idade escolar demandante das matrículas no Ensino Superior, a realidade é a mesma. De 245,4 mil pessoas nesta faixa etária, apenas 118,8 mil encontravam-se matriculados em graduações presenciais em 2016. “O desenvolvimento social da população jovem depende muito de suas relações com o sistema educacional. Será por meio de planos de educação coerentes que jovens poderão assumir postura reflexiva e crítica capaz de transformar a realidade”, ressaltou o economista.

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Henrique Hein