Publicado 11/03/2019 - 14h43 - Atualizado 11/03/2019 - 14h55

Por Daniela Nucci

Para as baby boomers, beleza é uma questão de cuidado e autoestima

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Para as baby boomers, beleza é uma questão de cuidado e autoestima

Para celebrar o Mês da Mulher, a Metrópole destaca histórias inspiradoras de mulheres maduras, que provam que a idade é apenas número e a atitude vale mais que tudo na vida. Justamente quem faz parte dessa faixa etária protagoniza uma pesquisa importante citada nesta matéria.
Mulheres entre 55 e 74 anos, independentes, batalhadoras, experientes, gostam de viajar, se produzir e gastam mais dinheiro com a própria satisfação, especialmente com cuidados e produtos de beleza. Porém, essas joias raras são invisíveis para o marketing das empresas e afirmam que precisam se reinventar profissionalmente e começar do zero, pois foram expulsas do mercado formal de trabalho bem no auge da carreira. Pelo menos essas são algumas das conclusões da pesquisa Beleza Pura – Mulheres Maduras 2019, conduzida pela consultoria Hype60+, em parceria com Clarice Herzog Associados, em janeiro deste ano. O objetivo foi investigar as demandas de beleza e moda da geração de mulheres baby boomers, nascidas após a Segunda Guerra Mundial, entre 1945 e 1964.
Na pesquisa etnográfica, feita com uma pequena amostragem, porém significativa, apontou que 92% das entrevistadas não se sentem representadas pela comunicação das marcas e somente um terço delas são impactadas pelas propagandas. “Na prática, essas mulheres acham o ambiente de compras hostil, procuram grifes alternativas e não expressam nenhuma emoção positiva com relação às marcas”, diz a cofundadora da consultoria de marketing Hype60+ e uma das coordenadoras da pesquisa, Bete Marin.
Liberdade
Para as baby boomers, beleza é uma questão de cuidado e autoestima. “Para elas, autoestima significa mais do que aparência física: é se cuidar, se manter saudável, enfrentar as dificuldades do viver. Ser feliz”, diz Bete Marin. A pesquisa mostra que elas vivem hoje um momento de liberdade, autoconhecimento, resgate da autoestima e dos sonhos. Namoram, estudam, compartilham planos e buscam novas fontes de renda. Na lista de consumo, o maior desejo é viajar, seguido por moda e beleza. Também se interessam por maquiagem, roupas, cabelos e tratamento para o dia a dia. Não saem de casa sem hidratar e proteger o rosto e as mãos; o kit básico de maquiagem é composto por base, batom e rímel.
O estudo ainda apontou que elas estão em busca de tratamentos para cabelos e pés. Querem roupas e sapatos confortáveis, bonitos e modernos.
Mas, segundo Bete, as marcas não têm enxergado as mulheres maduras de diferentes classes sociais, o que gera oportunidades para empresas interessadas em se reinventar. Sapatos e bolsas são considerados as peças mais queridinhas, independentemente da idade. “A proposta de antecipar a apresentação de um recorte dessa pesquisa atende à estratégia de sensibilizar o maior número de setores para o potencial representado pelo envelhecimento populacional. Enquanto se debate a forma de lidar com a geração Millennium, o planeta envelhece”, explica a coordenadora.
Dificuldade para encontrar roupas
“Hoje, as lojas estão
mais focadas num público
mais jovem e popular”
MARIA DORLI, de 53 anos, costureira
Para as mulheres mais conservadoras, o mercado está mesmo a desejar, segundo a costureira Maria Dorli, de 53 anos, que está na área há 28 anos e tem um ateliê de costura, no Cambuí. “Hoje a moda está muito diversificada e as mulheres escolhem pela atitude. Tenho clientes com 80 anos que compram pantalonas e blusa de babadinhos e usam numa boa. Mas tenho senhorinhas que se acham avós e não querem mostrar a perna. Essas sentem dificuldades para comprar roupas. Não existe mais saia reta, hoje só tem saia lápis, calças justas só mais sequinhas, não dá para esse tipo de senhora. Hoje, a maioria das lojas vende uma moda mais moderna, só que para essas pessoas mais tradicionais, que gostam de peças bem feitas, isso em Campinas não tem. Tenho clientes que vão até para São Paulo, na Rua Oscar Freire, onde raramente há algumas lojas que oferecem essas peças. Outras estão um pouco acima do peso e querem uma alfaiataria, mas também não encontram. Tenho advogadas que procuram blazer com saias ou com calça e não acham, no estilo mais conservador para trabalhar, elas me procuram direto. Hoje, as lojas estão mais focadas num público mais jovem e popular”, diz Maria Dorli.
Entrevistadas contam como encaram a fase
Viagens e muitos cremes
Para a médica endocrinologista Miriam Martins Airoldi, de 67 anos, casada há 40 anos e mãe de dois filhos, vestir-se nunca foi uma dificuldade. “Sempre encontrei roupas, sapatos e cosméticos bons porque acho que hoje a mulher de 60 e 70 anos se modernizou porque você pode usar aquele produto que a mulher de 40 ou 30 anos usa, desde que tenha limites. Não vou sair com minissaia, mas posso usar um modelo moderno e mais comprido. Com isso, a autoestima melhora muito e isso é tudo”, comenta Miriam. 
Como endocrinologista, ela estimula suas pacientes a melhorar cada vez mais esse lado, mas sabe que não são todas que se encaixam . “As mulheres conservadoras, que se colocam como senhorinhas, têm mais dificuldade em se vestir. Antes, a mulher de 40 anos era uma velha, hoje isso mudou. Acho interessante o mercado investir nesse público maduro porque isso vai crescer ainda mais”, comenta. A médica também revela os segredos do seu bem-estar: “Gosto muito de viajar com minha família e minhas amigas. Amo também cuidar do cabelo, da pele, da saúde e da alimentação. Consumo muitos cremes corporais, faciais, para o cabelo e protetor solar”.
A chance profissional, porém, avalia que é mais difícil nessa idade . “É uma pena porque elas são mais preparadas e têm mais cultura, sabem tudo o que está acontecendo no mundo, além de serem mais responsáveis. Já estão realizadas como pessoa, com os filhos, dentro da família e darão tudo de melhor para que o trabalho saia perfeito”, diz.
Básica e preventiva
A publicitária e corretora de seguros Tarciza Dalco, de 52 anos, acredita que as possibilidades de se realizar sonhos, em cada fase da vida, levam as pessoas a retardar a velhice. “Isso dá uma aparência mais forte e essa energia traz um bem-estar impagável, que vai além da questão de vaidade, como quando retardei minha segunda gravidez após 14 anos no mesmo casamento”, diz Tarciza, que é casada há 28 anos e mãe de duas filhas. Para manter a saúde em dia, a publicitária faz exames preventivos de uma medicina integrativa e só toma produtos manipulados. “Não são exames convencionais da medicina tradicional. Os exames investigam e são partidários da medicina preventiva, que detectam se seu organismo está deficitário de alguma vitamina, ácido ou se, com o passar do tempo, vai se descontrolar a partir disso e identificar algum problema antes de se agravar. É bem interessante para as mulheres nessa faixa etária fazer esse tipo de exame”, explica Tarciza, que não é fã de academia. “Faço meio forçada, mas subo a escada do prédio ou dou longas caminhadas para compensar. Tenho uma rotina semanal de tratamentos estéticos corporais para gordura localizada e faciais, como esfoliação de pele, e cuido da alimentação”, comenta. No quesito maquiagens, o básico é o trivial. “Uso corretivo, lápis, rímel e batom rosinha”. No vestuário, segue o mesmo estilo. “Sou sóbria, é da minha natureza, gosto de roupas nude, preto e branco. Visto 42 e não tenho dificuldade de encontrar peças. Não vou na moda de short curto,mesmo se tivesse com corpo impecável. Acredito que algumas mulheres querem despertar o interesse dos olhares, mas não acho que seja dessa maneira. Queremos estar bonitas mais nada que escandalize, acho que há um exagero, como se quisessem reviver a adolescência, como se eu rejeitasse ter meus 52 anos. Deixa minha filha ter 14 anos, deixa a outra ter 28, vou estar na minha melhor versão, este é o meu foco. Não preciso ter a idade de ninguém para estar bem comigo”.
Tem que ter atitude
“Não vou em loja de senhorinha, vou em uma em que a minha filha ou as amigas dela compram as roupas. Adoro sapato alto, roupas coloridas e batom vermelho”. Com toda essa energia, a empresária Maria Rita Caride, de 56 anos, casada há 30 anos e mãe de três filhos, mostra que sua atitude vale mais que sua idade. “Trabalho na área da beleza há muito tempo e, hoje, as mulheres não são mais aquelas caseiras que só cuidavam dos filhos e do marido. Elas querem mais. Atendo clientes de 70 anos que querem ficar bem pra elas. Isso é saúde pra mim e, claro, uma boa alimentação, atividade física, uso de cosméticos, beber muito água, fazem a pele ficar bonita”, garante Rita.
Outro fator da juventude é sair com as amigas. “Ter família é importante, mas sair com as amigas também é, como ir ao cinema, tomar um café, almoçar, jantar, faz você ficar mais jovem. É uma troca de informação”, diz a empresária, que vai toda semana ao salão de beleza. “Não deixo de fazer meu cabelo e minha unha. Não quero ter 20 anos, mas quero me olhar no espelho e me sentir bem, estar bem comigo mesma”, afirma Rita. O importante é manter a cabeça em movimento. “A mulher não pode ficar muito dentro de casa, tem que ler, sair, viajar, tudo na sua proporção”, completa a empresária, que é fã de tratamentos faciais como botox, preenchimento e pilling. “As rugas fazem parte da nossa vida, mas podemos dar uma aliviada com um creminho ou um botox. A mulher tem que passar essa vibração boa que existe dentro dela, essa vontade de viver, de sair em busca dos seus sonhos”, diz Rita, que revela sua outra paixão: “Amo batons e sapatos, tenho mais de 40 pares”.
Segundo ela, o que mais falta hoje é oportunidade de emprego para as novas maduras, em razão de não terem o pique de uma jovem. “Acho que é o contrário, já que esta mulher faz atividade física, se alimenta bem, faz exames preventivos, é mais segura, experiente e comprometida”, avalia.
Novos maduros 
Com mais de 51 milhões de brasileiros com mais de 50 anos, o Brasil ultrapassará os 70 milhões em 2030, superando o número de crianças e adolescentes com até 14 anos. O Brasil é um dos países com envelhecimento populacional mais acelerado do mundo. Na década de 1960, a média de filhos por mulher era de seis crianças; em 2017, o índice caiu para 1,7 filhos e ao passo que a expectativa de vida aumentou. Os novos maduros estão vivendo um momento de liberdade, expandindo a vida pessoal e social. Os prateados são digitais e têm se conectado com novos grupos, optando por diferentes opções de lazer e atividades. O Facebook e o WhatsApp têm sido usados como uma janela para o mundo.
Prateados
No Brasil, os prateados (referência aos cabelos grisalhos) , já são 30 milhões de pessoas. Os maduros brasileiros representam uma força de quase 20% do consumo, movimentando R$ 1,6 trilhão. No mundo, a economia prateada, como um todo, movimenta US$ 7,1 trilhões anuais, sendo a terceira maior atividade econômica global.

Escrito por:

Daniela Nucci