Publicado 14/03/2019 - 16h40 - Atualizado 14/03/2019 - 17h10

Por Carolina Scoz


Nunca subestime o impacto das palavras: quando acertadas, inauguram romances, fecham negócios, encerram guerras, redimem erros e culpas. Desastradamente escolhidas, podem ameaçar o que levou tempos imensos para surgir. Sem perceber (e o que é mais grave, sem desejar), podemos dizer um elogio que, ouvido como crítica, atinge o peito alheio feito lança afiada. Ou podemos encher de alegria um coração por algo que afirmamos sem grande pretensão – apenas escolhemos mal a palavra, talvez por cansaço ou preguiça. “Senhor eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizeis uma palavra e serei salvo”, ainda ouço o refrão ecoar na lembrança das missas de domingo. Uma única palavra salva o indigno – é verdade – mas também condena o inocente. Uma palavra às vezes revela o que outras mil não poderão depois suavizar ou esconder. Uma palavra jura o impossível: Diana subverteu o texto matrimonial da realeza britânica quando prometeu amar o Príncipe Charles, ao invés de dizer “amar e obedecer” (love and obey). Achei estranho na ocasião. Obedecer é ato voluntário, amar não é. Por fim, nem amou, nem obedeceu. Uma palavra é capaz de incitar um grande amor: capítulo que os amantes recontarão nostalgicamente por décadas. Triste é quando uma tola palavra inocula o fel da dúvida nesses que começavam a se entregar. É possível, vejam onde isso chega, que um pequeno vocábulo interrompa para sempre uma história amorosa em suas primeiríssimas linhas. Palavras têm poder.
Ele a convidou para jantar. Não era raro que ela recebesse uma mensagem ousada dessas, mas há anos não cogitava ir. Dessa vez quis. Aceitou imediatamente. Todos os homens pareciam-lhe vulgares quando insistiam em cafés, enviando felicitações simpáticas de “bom dia”, adornadas com xícaras e flores, cujo único objetivo era arrastá-la para um encontro. Alguns tentaram usar frases célebres de poetas ou filósofos – uma profanação inaceitável, ela pensava. Nietzsche detestaria saber que ideias originais escritas na solidão melancólica de seu pequeno quarto agora são flertes desesperados com ares de fina erudição. Também soava-lhe falta de coragem que usassem citações alheias. Por que não diziam logo de uma vez: “Venha ficar comigo”? Um pedido explícito, mas totalmente honesto. O fato é que dessa vez quis ir. Em seus pensamentos, imaginou combinações entre vestidos, sapatos, brincos, jeitos de prender os cabelos. Amedrontada com os próprios sentimentos, que pareciam-lhe desgovernados, levou duas semanas até retomar o assunto por escrito e garantir que sim, gostaria de conhecer o tal restaurante italiano, bastava que ele confirmasse a data. Não chegou resposta até o dia seguinte, o que já era terrível. Por fim, após longa e aflitiva espera, releu dezenas de vezes na tela do celular, incrédula: “Preciso ruminar”. Lembrou de gado no pasto, mastigando o capim fibroso. Demora a engolir a massa indigesta, que sobe e desce pelo estômago segmentado dos animais ruminantes, esses mastigadores obstinados e pacientes. Nós, humanos, deglutimos de uma só vez, estômago abaixo, sem caminho de volta. Era isso, afinal, o que ele pedia: tempo para repensar todas as implicações de revê-la, como um boi que precisa remastigar o alimento feito de moléculas difíceis? A frase também levou sua mente para os caminhões frigoríficos que descarregavam no açougue de seu avô – nunca conseguiu esquecer o cheiro de sangue e o frio asséptico que cercava aqueles amontoados de ossos, músculos e vísceras. Era vegetariana, não à toa.
A brutalidade necessária para transformar um boi em variados pacotes de carne não combinava com a ternura das sensações amorosas. Chegar perto do corpo adorado esquenta a pele até quase recobri-la inteira de vermelho febril. O abraço palpitante é quente. O hálito adocicado é quente. O riso a dois é quente. Estão juntos – então, a névoa fria da incerteza dissipou-se. Nenhuma metáfora é tão imprópria para um encontro romântico quanto um ruminante destinado ao freezer.
Por que ele precisou ruminar sobre o próprio convite que fizera? Ela não compreendeu, embora tenha decretado o fim do romance, encerrado sob o peso de uma palavra indigesta. Talvez a vontade dele fosse hesitante demais, prudente demais, o que nada tem a ver com o ímpeto dos apaixonados que impensadamente seguem, sem ruminação, não porque devam estar juntos, mas porque não conseguem ficar distantes. Não pisam em solo firme, não sabem para onde vão. São os amantes voadores dos quadros de Chagall, perplexos consigo próprios: até ontem pensavam-se donos de si, agora são levados pelo vento. Talvez ele apenas tivesse medo. Todos os bem-aventurados que já se apaixonaram conhecem esse instante de vertigem entre fincar os pés no chão e ir para o horizonte desconhecido. Está perdoado quem sente medo.

Escrito por:

Carolina Scoz