Publicado 17/03/2019 - 10h38 - Atualizado 17/03/2019 - 10h38

Por Alenita Ramirez

Aumento consta em relatório da Ouvidoria da Polícia, que serve de base a estudo mais amplo

Cedoc/RAC

Aumento consta em relatório da Ouvidoria da Polícia, que serve de base a estudo mais amplo

O número de policiais que cometeram suicídio no Estado de São Paulo em 2018 aumentou quase 72%. A elevação dos casos consta em um relatório divulgado recentemente pela Ouvidoria da Polícia. Em 2017 foram registrados 26 casos, sendo 16 de militares e 10 de civis. No ano passado, os números saltaram para 45 — 35 e 10 respectivamente.
Apesar de a maioria dos suicídios envolver policiais militares (51), proporcionalmente ocorreram mais casos de policiais civis, segundo o ouvidor Benedito Mariano, considerando o efetivo das duas instituições. São Paulo conta com cerca de 83 mil militares na ativa e 25 mil civis.
Até 2016, a questão do suicídio dentro das corporações não era nem citada nos relatórios da Ouvidoria. O tema passou a ser referenciado quando foi feita uma pesquisa sobre o uso da força letal por policiais e vitimização policial, referente a 2017.
“O suicídio de policiais é um fenômeno que preocupa e merece atenção. O Estado não priorizou da maneira que deveria e nem viu até agora esse fenômeno, mas é fundamental um amplo programa de assistência psicológica para os policiais”, disse Mariano.
Pela análise da Ouvidoria, o suicídio vitimiza mais policiais civis e militares do que a própria atividade em si. Uma avaliação feita pelo presidente do Sindicato dos Policiais Civis da Região de Campinas (Sinpol), Aparecido Lima de Carvalho, o Kiko, mostrou que entre 2017 e 2018, 20 policiais civis cometeram suicídio, sendo que neste período houve 14 homicídios de policiais, ou seja, uma diferença de 43%.
Já uma pesquisa realizada pelo jornal El País (edição em português) revelou estatísticas assustadoras de homicídios dentro da PM. No entanto, mostrou que o número de suicídios e de transtornos mentais dentro da corporação também chama a atenção. Segundo a reportagem, o Brasil conta com cerca de 425 mil policiais militares, sendo 93.799 só em São Paulo. Desse número, 120 agentes se mataram entre 2012 e 2017.
“O suicídio de policiais ocorre em virtude da situação estressante em que vivem. Alguns sofrem mais essas consequências e buscam lamentavelmente o suicídio como saída. Fatores diversos vão se amontoando no cérebro e no sentimento dessas pessoas como locais de crimes violentos; desajustes sociais; incompreensão de superiores e subordinados com a linha de trabalho; horários diurnos e noturnos; finais de semana; ausência da convivência familiar e salários incompatíveis com a importância e dignidade da função, obrigando-os, muitas vezes, a ter um segundo emprego”, comentou o especialista em Segurança Pública, Ruyrillo Pedro de Magalhães.
Em um comentário para o relatório da Ouvidoria da Polícia de São Paulo, o coronel PM Ibis Pereira, que foi comandante da PM do Rio de Janeiro, afirmou que “a polícia passa por um processo de desumanização" e nesse processo, ou o policial enlouquece ou embrutece. “É claro que o fenômeno do suicídio na polícia deve ser analisado sobre vários aspectos, ou seja, é difícil afirmar quais são as principais causas, sem um estudo detalhado do fenômeno”, disse Mariano.
“A Polícia Civil é a que mais sofre, pois a corporação não tem nenhum tipo de acompanhamento psicológico. Por outro lado, a PM, apesar de ter há uns 10 anos, é da própria corporação, e esse tipo de assistência tem que ser feia com especialista fora do quartel”, frisou o ouvidor.
A maior parte dos suicídios acontece na Capital Paulista. Em razão do número alarmante, a Ouvidoria firmou neste mês uma parceria com os conselhos Federal de Psicologia e do Estado para fazer um “diagnóstico” das principais causas e com o resultado exigir do estado um amplo programa de acompanhamento.
“Vamos analisar se as eventuais mortes entre policiais são diferentes ou iguais. Se no caso da Polícia Civil, por exemplo, é o sucateamento da instituição nas últimas décadas, excesso de escala. Faremos uma análise bem apurada dos casos registrados”, disse Mariano.
O estudo está previsto para começar no final deste mês e sua conclusão no final de julho deste ano. “Existe um tabu muito grande sobre o suicídio, especialmente na polícia”, comentou o ouvidor.
Dois civis cometeram suicídio em 2019
Entre 2016 e 2018, foram registrados dois suicídios de policiais Civis em Campinas. O número de PM´s não foi tabulado. Só neste ano, dois policiais civis lotados em Campinas cometeram suicídio. Os dois, que trabalhavam como investigadores, tinham menos de 40 anos e estavam de folga. As mortes chocaram a corporação, que pede maior atenção dos governantes.
Um dos casos foi registrado no último dia 28, no bairro Vale Verde, em Valinhos, mas o policial, R.G.F., de 38 anos, trabalhava em Campinas. Ele era plantonista no 4º Distrito Policial (DP) e tinha sido transferido recentemente para o plantão da 2ª Delegacia Seccional. “Os policiais civis estão cada vez mais submetidos a uma grande dose de estresse devido à própria especificidade da função.
Com a falta de profissionais na instituição, redobra os afazeres em número de ocorrências, escalas extras e escalas de permanência. Isso fragiliza o policial civil psicologicamente, porque ele não consegue descansar nem mesmo em sua folga, somado as agruras de todos os dias, problemas das mais variadas ordens”, comentou o presidente do Sinpol, Aparecido Lima de Carvalho, o Kiko.
Para o coronel Elias Miler da Silva, presidente da Defenda PM, que é a associação dos policiais militares, e diretor legislativo da Federação Nacional de Oficiais, o suicídio e a tentativa de suicídio no meio policial são consequências da cobrança social e profissional. “As pessoas não percebem que quando um policial entra de serviço, ele não sabe o que pode acontecer. Ele tanto pode ajudar um idoso a atravessar a faixa de pedestre, como tirar corpos na rua, ou ver o colega sendo morto com um tiro na cabeça.
Esse policial pode, inclusive, ter que ferir ou matar alguém. Essa situação é de alto estresse”, exemplifica Silva. “Todo esse quadro, mais a cobrança da sociedade, da instituição o tempo todo — pois o policial tem que dar exemplo —, e o baixo salário baixo, levam os policiais a desenvolverem doenças nos campos psicológico e psiquiátrico. Se corrermos quartéis e delegacias, encontraremos alto número de policiais com dependência de álcool e de droga e isso assusta”, acrescenta o coronel.
SSP destaca a rede de atendimento
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que o Departamento de Administração e Planejamento da Polícia Civil (DAP) conta com a Divisão de Prevenção e Apoio Assistencial, que disponibiliza psicólogos e assistentes sociais. Também encaminha os policiais para atendimento no Departamento de Perícias Médicas do Estado (DPME), no Hospital do Servidor Público Estadual e na rede conveniada disponível em todo o Estado.
"A atual gestão investe nas polícias paulistas e em seus quadros de funcionários. Desde 2011, na região de Campinas foram admitidos 441 novos agentes e entregue 212 viaturas com investimento de R$ 13,8 milhões. Ainda, estão em andamento concursos para a seleção de 2.750 policiais, que após o término do curso serão distribuídos para todo o Estado, inclusive para a região de Campinas", frisou em nota.
Sistema para cuidar da saúde mental do efetivo
Criado pela Lei 9.628, em 1997, e regulamentado em 2001, o Sistema de Saúde Mental da Polícia Militar do Estado de São Paulo (SisMen) tem por finalidade a prevenção, o tratamento e o restabelecimento da saúde mental do policial militar, segundo a corporação.
De acordo com a PM, o funcionamento do sistema é garantido com a contratação de profissionais previamente credenciados, segundo normas estabelecidas em Regimento Interno. “Objetivando garantir o nível de qualidade e uniformidade na prestação de serviços, os profissionais credenciados e integrantes dos órgãos constituintes do SisMen cumprirão regime de trabalho próprio, com dedicação exclusiva e jornada compatível com as orientações de ordem ética, técnica e científica de sua área profissional específica”, destacou a PM.
Segundo a corporação, o ciclo de assistência aos policiais militares se inicia por iniciativa ou requerimento do policial interessado, por convocação, por iniciativa do seu comandante ou excepcionalmente, por decisão judicial. Dentre as várias atividades desenvolvidas disponíveis aos PM ativos ou veteranos, está o atendimento psicológico, que compreende apoio psicossocial em incidentes críticos, suporte psicológico, plantão psicológico, psicoterapia individual, psicoterapia de grupo e programas específicos.
O suicídio de soldados também é um assunto visto com preocupação pelo Exército, tanto que foi produzido um “Guia de orientação para comandantes sobre o Suicídio”, que traz temas como sensibilização, mitos, fatores de risco, de proteção, sinais de alerta, ações e outras medidas.

Escrito por:

Alenita Ramirez