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Publicado 11/02/2019 - 14h54 - Atualizado // - h

Por Daniela Nucci

Reprodução

Maria Pennachin, de 16 anos, aluna da Escola Estadual Culto à Ciência, a criadora do biocanudo: convite para representar o Brasil na Expo Science International, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, em setembro deste ano
Na luta mundial contra o plástico, o canudinho virou o grande vilão após um vídeo chocante nas redes sociais mostrar ambientalistas retirando um canudo de plástico preso no nariz de uma tartaruga. O fato teve grande repercussão e chocou milhares de pessoas, entre elas a estudante campineira Maria Pennachin, de 16 anos. Aluna do 2º ano do ensino médio do Colégio Estadual Culto à Ciência, ela criou o biocanudo de inhame.
“Sempre fui ligada a questões ambientais, desde pequena moro em uma casa com quintal e grama. Quando entrei no Culto à Ciência, fui muito incentivada pelas minhas orientadoras a criar um projeto de pré-iniciação científica e me deparei com o vídeo da tartaruga marinha com um canudinho plástico no nariz. Aí surgiu a ideia do biocanudo”, lembra.
Com a supervisão de orientadores da escola, a estudante diz que observava o inhame na culinária quando teve a ideia de criar o biocanudo. “Já usava na cozinha e sempre me chamou atenção o fato dele soltar uma baba peculiar e também de não haver bioplásticos de inhame. Decidi introduzi-lo nos testes e obtive resultados satisfatórios, dando continuidade ao uso”, revela.
O biocanudo é biodegradável, maleável e comestível. Não tem gosto de inhame e não dissolve no líquido. “Posso variar o sabor e aroma de acordo com a preferência do consumidor. O detalhe crucial é que o sabor não sai na bebida, mas sim aparece no momento em que o consumidor o come”, explica Maria, que já está aperfeiçoando as versões. “Quero fazer uma linha vegana, que exclui o uso da gelatina convencional, que tem origem animal”, diz a aluna. Para chegar à fórmula atual, Maria realizou uma série de testes e contou com a orientação de duas professoras: Claudia Carla Caniati e Aloísia Laura Moretto. O resultado lhe rendeu o 1º lugar na edição da Feira Nordestina de Ciência e Tecnologia (Fenecit), na categoria Meio Ambiente. “Foi minha primeira feira e conseguir o primeiro lugar na categoria de Meio Ambiente foi incrível! A experiência, as pessoas, os comentários motivadores e a ideia de que realmente o que faço está importando está mexendo com pelo menos uma pessoa foi incrível de presenciar”, conta Maria.
Com a colocação, a jovem foi convidada a representar o Brasil na Expo Science International, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, em setembro deste ano. Mas para realizar o sonho, Maria e sua escola estão atrás de patrocínio para pagar a passagem e a inscrição. O colégio começou então uma campanha de crowdfunding no site Vakinha, com o propósito de arrecadar R$ 40 mil para viabilizar sua viagem e a de outro colega, que também deve apresentar seu trabalho de iniciação científica no Exterior. Maria também criou as redes sociais da biocanudo. “A viagem é muito importante para a escola, para a cidade e até mesmo para o estado, visto que, segundo o site da ESI, apenas de 10 a 15 jovens são credenciados por país”, completa Maria, que é um exemplo para todos. Atualmente, para aperfeiçoar os testes e pesquisas do biocanudo, com a ajuda das orientadoras e da direção do colégio, Maria conseguiu uma parceria com o Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), para brilhar ainda mais.
Chega de plástico
Uma onda de canudos sustentáveis invadiu estabelecimentos em Campinas e região. Nas redes sociais, um dos vídeos mais assistidos é de um canudo sendo retirado da narina de uma tartaruga. Com ideias inovadoras e ecológicas, há canudos de papel biodegradável, macarrão, bambu e até comestíveis.
A rede Outback buscou entender a real necessidade do consumidor quanto ao uso do canudo: em teste realizado em um grupo de restaurantes no Brasil, os canudos deixaram de ser entregues proativamente e o resultado foi muito positivo, já que a totalidade de clientes não sentiu falta do item
Em Campinas, nos restaurantes Outback Steakhouse e Abbraccio Cucina Italiana, do grupo Bloomin’ Brands, a oferta proativa do item em suas operações está sendo eliminada. Todas as unidades das marcas passaram a não entregar canudos junto com suas bebidas – a versão biodegradável será disponibilizada apenas aos clientes que preferirem utilizá-la. Em reflexão ao amplo debate, a rede buscou entender a real necessidade do consumidor quanto ao uso do canudo. Em teste realizado em um grupo de restaurantes das marcas no Brasil, os canudos deixaram de ser entregues proativamente e o resultado foi muito positivo: quase que a totalidade de clientes que pediram bebidas não sentiu falta do item. Essa mudança pode representar uma redução de até de 20 milhões de canudos utilizados por ano. “Todos os dias queremos oferecer as melhores experiências aos nossos clientes e é muito satisfatório contribuir com iniciativas que incentivam atitudes positivas”, diz o presidente do grupo Bloomin’ Brands no Brasil, Pierre Berenstein. “Não entregaremos o item de forma proativa com o objetivo de apoiar a diminuição consequências ambientais, mas o cliente poderá solicitá-lo ao garçom caso queira”, completa.
No espaço multiuso Goma Arte e Cultura, em Barão Geraldo, o canudo de macarrão é a estrela da casa
Para o caso das bebidas como milk-shakes e frozens, por serem mais encorpadas, os restaurantes oferecem os canudos de papel biodegradáveis. Já no espaço multiuso Goma Arte e Cultura, em Barão Geraldo, o canudo de macarrão é a estrela da casa. "Começamos a usar na virada do ano, há muito tempo queríamos alterar nossa abordagem de uso e consumo de plásticos e resíduos, e o canudo era um dos passos nessa jornada. Pela alta rotatividade de clientes precisávamos de algo que fosse financeiramente viável e sustentável, mas primeiro zelamos pela livre escolha do cliente em ter esta opção", diz a co-fundadora Danielle Batocchio. Para ela, além da vantagem de ser sustentável, ou seja, biodegradável e comestível, o produto produz um impacto muito menor na hora de ser descartado. "Como todos sabemos, o objetivo é livrar-se do plástico e procurar materiais que não produzam danos ao meio ambiente. A desvantagem é que não pode ser usado nas bebidas gaseificadas, pois gera uma reação que faz com que o produto vaze pelo canudo, então temos também os biodegradáveis", explica Danielle. Apesar do apelo, muitos clientes ainda desconhecem a causa. "O cliente que é mais conscientizado fica vidrado com a ideia. A reação é de surpresa com tom positivo, do tipo como nunca pensamos nisso? Mas como a temática do descarte de plástico de maneira mais incisiva é recente, muitas pessoas não se sensibilizam pela causa. O que é novo e desconhecido gera estranheza, então alguns acham engraçado e outros não validam como opção", compara. Como o canudo é oferecido e não imposto no copo, a casa tem uma média de 500 unidades por mês. "Muitas pessoas mesmo assim preferem não utilizar de forma alguma o canudo pois pensam na logística de descarte. Ainda não se discute a respeito do descarte e dejetos oriundos da produção do setor de alimentos, fator de grande impacto ambiental. Por exemplo, fazemos a reciclagem de materiais trabalhando com cooperativas e também fazemos a compostagem, que alimenta nossa horta e árvores frutíferas que temos no quintal no qual os clientes podem colher legumes e frutos à vontade quando esses estão produzindo", completa.
Impacto ambiental
Segundo uma pesquisa da organização internacional Ocean Conservancy, os canudos de plástico aparecem entre os dez resíduos mais encontrados nas ações de limpezas de praia. Só nos Estados Unidos, são usados 500 milhões deles por dia e no Reino Unido, mais de 100 milhões. E assim como outros resíduos, eles acabam no mar, engolidos por animais, que morrem sufocados. Apesar de ser reciclável, como é muito pequeno e leve, assim como tampas de garrafa, normalmente é jogado no lixo e leva em torno de 400 anos para se decompor na natureza. A luta contra os canudos plásticos tem gerado muito apelo na internet, com o objetivo de incentivar também outras práticas sustentáveis. A expectativa dos ativistas é a médio e longo prazo envolver a população em ações ainda mais difíceis em prol do meio ambiente, como em relação às sacolas e garrafas que poluem ainda mais.
Apesar da mudança ser lenta, muitas pessoas acham que a melhor opção para quem deseja abolir de vez os produtos é adquirir seu próprio canudo e mantê-lo sempre à mão. É o caso de estudante de Barão Geraldo, Lorena Curtolo, de 20 anos. “Levo meu próprio canudo para todo lugar desde outubro do ano passado. É feito de aço inox e muito prático, além de ecológico. Coloco em um saquinho de pano próprio e posso usar onde quiser, também é muito fácil de lavar e manter higienizado”, diz Lorena, que acha muito importante esse movimento contra o plástico para uma mudança mundial para salvar o planeta. “Ele é a nossa casa. Quanto menos plásticos consumirmos, consequentemente, menos plásticos as indústrias terão que produzir. Acho que é uma atitude muito fácil, acessível, então não tem porque não fazer. Se de pouquinho em pouquinho formos mudando nossos hábitos, acho que podemos ter boas colheitas no futuro”, diz Lorena.
Tipos de canudo
O mercado oferece opções sustentáveis, feitas de bambu, acrílico, vidro ou inox. Todas incluem uma escovinha de limpeza e um estojinho de tecido para higienizar e guardar o tubinho. Confira algumas opções:
Canudo de vidro
Poder ser usado mais de uma vez. Uma das qualidades é que costuma ser transparente, e isso auxilia na limpeza da peça. Para a higiene, algumas marcas oferecem uma escovinha com o tamanho próprio para lavá-lo e, quando não vem acompanhada com o produto, é vendida à parte. Uma das maiores produtoras de canudos ecológicos e a primeira a apostar no segmento no Brasil, a Mentah comercializa essas opções tradicionais, com 22cm de comprimento, e o modelo Drink, um pouquinho menor, com 18cm. É possível escolher entre várias frases inspiradoras.

Canudo de inox
Podem ser reaproveitados e, em alguns modelos, possuem a ponta curvada como o canudo tradicional. A marca Beegreen opta por canudos de inox, em dois modelos – reto ou curvado. O material é inoxidável. 
Canudo comestível
O canudo espanhol Sorbos traz a versão comestível e biodegradável. É feito com açúcar, gelatina bovina e amido de milho. Ele pode (ou não) ser aromatizado com seis sabores diferentes: limão, lima, morango, canela, maçã verde, chocolate e gengibre. Se ingerida, cada unidade tem 24 calorias.

Canudo de bambu
Apesar de poder ser utilizado mais de uma vez, o canudo de bambu costuma durar cerca de três anos. Mesmo com essa característica, o objeto é eco-friendly e pode ser encontrado na Paz em Gaia com dois utensílios e escova de higienização. Reutilizáveis, naturais e eco-friendly, as peças são feitas artesanalmente em uma comunidade de Ilhabela. O comprimento médio é de 16cm, e a Paz em Gaia afirma que o material possui resistência natural contra bactérias.

Escrito por:

Daniela Nucci