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Publicado 14/02/2019 - 10h37 - Atualizado 14/02/2019 - 10h52

Por Carolina Scoz

Recostada num amontoado de tapetes, ela o observa conversar com o vendedor. O pedido é singelo: ele deseja ver o certificado de autenticidade, a etiqueta que indica o local de fabricação, o número de série e a metragem exata. Sujeito metódico e inteligente, não quer correr o risco de atravessar continentes e oceanos trazendo do Old Souk de Dubai um tapete feito em minutos por frenéticas máquinas na China. Ocupar espaço na bagagem - sobretudo na sala de estar - com uma peça idêntica a outras tantas, o condenaria a sentir-se ridículo. A história para sempre reapareceria como piada em jantares de amigos. Mas o vendedor não entende a solicitação - qual etiqueta, afinal? Para provar que o tapete é artesanal e, portanto, vale o que custa, acende um isqueiro e passa a chama sobre o avesso e o direito. Sorri levantando o queixo, educadamente soberbo. É um gesto internacional que diz, sem palavras: "Agora vê que eu tenho razão?" Ela teria comprado o tapete. Cor de pérola, inteiramente adornado por flores e pássaros. Ao centro, arabescos riscados de vários azuis cintilantes. Seriam os olhos dela que, felizes, distorciam a realidade monocromática dos arabescos, ou havia realmente um degradê de tons? (Não há como afirmar agora mas há que se desconfiar das emoções intensas: se os apaixonados enxergam beleza onde ninguém mais vê, os deprimidos transformam o mundo inteiro num gradiente de cinzas monótonos e sem vida.) Foi ele quem decidiu ir embora; desculpou-se e disse que retornaria depois. Ela acreditou - ainda era cedo para compreender que ele não tolerava sentir-se ofensivo. Embora não parecesse à primeira vista, tinha uma alma profundamente benigna. Nunca voltaria àquele lugar em que fez a pergunta errada, duvidando de alguém justo.
Horas depois, no magnífico bar panorâmico do hotel, cercado pela imensidão turquesa do Golfo Pérsico, o casal descobriria a lógica daquele pequeno teste: os tapetes industrializados têm os pêlos fixados com cola sintética. Somente os fios de pura lã, amarrados nó a nó, é que resistem à chama: não espalham fogo, nem fumaça. O garçom parecia gostar de explicar quais as evidências para reconhecer um tapete verdadeiro. Era filho de um artesão de aldeia, um homem anônimo que viveu a dar nós em lãs coloridas, dias e noites debruçado sobre trabalhos por acabar. "Tapete feito à mão pode ser dobrado ou enrolado e nada acontece; o falso trinca no avesso porque a cola endurece quando seca. É por isso que um tapete persa não é perfeitamente reto no chão; a tela de fibra natural pode retorcer com o tempo. Quanto mais antigo, mais ondulado; e isso não é defeito, não! Outro detalhe: as franjas. O senhor precisa virar o tapete para verificar se as franjas surgem da própria trama ou se foram costuradas depois. Se olhar de frente não dá para saber, mas o avesso nunca engana." "Pessoas também", ela pensou, "o avesso nunca engana". De repente lembrou de uma história policial escrita... por quem mesmo? Talvez Agatha Christie. Esqueceu o enredo, mas guardou na memória o que a impressionou naquele caso: somente foi descoberto que o casaco de pele era falso quando ignoraram a etiqueta - também falsa - e analisaram a costura. Não se usava aquele tipo de ponto antigamente em nenhum ateliê da Europa, portanto o casaco não era uma preciosa raridade do Velho Mundo. A fala do leiloeiro exercia um perverso encantamento ao fixar a atenção de potenciais compradores na elegância da cor e do corte. Até que ocorreu a alguém ver a costura, detalhe tão ínfimo e silencioso. Enlevada pela recordação literária, olhou para ele e se enterneceu. A comida esfriara, intocada. O gelo derretera no copo, desbotando o vermelho da bebida. Não importava - ele queria ouvir o filho do artesão, jovem garçom do hotel elegante, revestido por imensos tapetes nascidos de mãos pobres e precisas. Quem sabe nem percebeu que ela o admirava, numa alegria serena. Quem sabe apenas foi verdadeiro e fez o que era seu desejo, sua natureza.
"Ah, o avesso...", ela sorriu por dentro.
 
Carolina Scoz
Psicanalista e cronista
scoz@radium.com.br

Escrito por:

Carolina Scoz