Publicado 28/02/2019 - 07h40 - Atualizado 28/02/2019 - 07h40

Por Rogério Verzignasse

Magalhães celebra a vitória em 1992, no primeiro turno das eleições

Cedoc/RAC

Magalhães celebra a vitória em 1992, no primeiro turno das eleições

Há 23 anos, Campinas chorava a morte do prefeito José Roberto Magalhães Teixeira. Ícone da política local, Grama — como era conhecido — ganhou notoriedade, respeito e liderança nacional por implementar um governo marcado por projetos sociais e serviços públicos eficientes. Ações que lhe renderam popularidade única, e reconhecimento até dos adversários históricos.
Magalhães Teixeira, mineiro de Andradas, cursou odontologia na PUC-Campinas entre 1957 e 1961, e se destacou na política estudantil. Esteve à frente de um centro acadêmico e do Diretório Central dos Estudantes (DCE). No limiar da ditadura militar, ele ingressou no MDB, legenda de oposição ao regime.
Foi eleito vereador em 67. Ao longo da década seguinte, foi diretor de esportes, vice-prefeito no primeiro mandato de Chico Amaral, secretário de Cultura, prefeito interino. Se firmou como um nome importante dentro do partido, e candidato natural à sucessão de Chico.
Em 1983, Grama foi eleito prefeito e assumiu a liderança de uma legenda que, até então, era controlada em rédeas curtas por Orestes Quércia. Seu mandato à frente do Executivo o tornou o prefeito mais bem avaliado do Brasil, e e o tornou reconhecido como símbolo da ruptura com as velhas lideranças partidárias.
Em meados de 1988, por exemplo, último ano de seu primeiro mandato como prefeito, Magalhães Teixeira foi um dos fundadores do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), agremiação criada por dissidentes do PMDB.
Com os filhos Gustavo, Christiana e Henrique: família era tudo para ele
Apesar de não conseguir eleger seu sucessor na Prefeitura, Grama concorreu à vaga de deputado federal pelo PSDB e foi eleito com a quinta maior votação do estado — 136.522 votos — mais de 80% dos quais provenientes de Campinas, o que comprovou sua popularidade.
Ele deixou o Congresso Nacional dois anos depois, para concorrer de novo à Prefeitura. E teve nada menos que 61% do total de votos válidos.
De volta ao Executivo municipal, Grama foi um dos precursores do programa de garantia de Renda Mínima para complementar os vencimentos de famílias pobres,modelo para o Brasil todo, referência para o atual Bolsa Família e que inspirou projetos semelhantes no Executivo e Legislativo Brasil afora.
Insubstituível
Em novembro de 1995, Grama recebeu o diagnóstico de câncer no fígado. Ele chegou a governar da própria casa, mas partiu no dia 29 de fevereiro de 1996, depois de uma semana internado no HC da Unicamp. Em sua última entrevista ao Correio, concedida à jornalista Maria Teresa Costa, cunhou a célebre frase: “Quem ama não morre”.
Cortejo na saída do Paço em direção ao Cemitério Flamboyant
O cortejo fúnebre – do Palácio dos Jequitibás até o Cemitério Flamboyant – levou mais de 20 mil pessoas às ruas da cidade. Episódio tocante, que a cidade jamais vai esquecer.
O vice Edivaldo Orsi assumiu o cargo para cumprir o último ano do mandato. Mas a morte de Grama, efetivamente, abalou o PSDB na cidade. A legenda jamais emplacou uma liderança com tamanha popularidade, e viu partidos rivais se revezando no poder. O estilo político inconfundível de Grama ficou na memória coletiva.
PONTO DE VISTA
HENRIQUE MAGALHÃES TEIXEIRA, Vice-prefeito de Campinas
Seguindo pegadas
Em 28 de fevereiro (na falta do dia 29) se completa 23 anos da morte de meu pai, o ex-prefeito Magalhães Teixeira. Nestes anos de ausência, talvez tenha sido a própria política, sua paixão, o que mais me aproximou dele. A sua falta tem sido suprida, em parte, pelo legado de seus atos, pelas histórias contadas por seus amigos e pelo exemplo deixado como político. Talvez, arrisco dizer, ele nunca esteve tão presente na minha vida como agora. Com o passar dos anos e o contato com a vida pública, passei a conhecer mais e melhor as suas realizações no campo social, na organização administrativa, na área da ciência e tecnologia, entre outras que marcaram suas gestões no comando da Prefeitura de Campinas.
Na sua primeira gestão ele mostrou a importância da cidade voltar-se para o desenvolvimento tecnológico, criando a CIATEC - Companhia de Desenvolvimento do Polo de Alta Tecnologia, em 1984. Interessado no tema, quando deputado federal foi membro da Comissão de Ciência e Tecnologia num momento de grande evolução das tecnologias de informação e comunicação, trazendo inúmeras ideias deste campo para torná-las realidade na cidade. Não tinha medo de inovar. Passou pela saúde e deixou sua marca com a primeira experiência de municipalização da saúde do Brasil — projeto este que inspirou a criação do próprio SUS.
No âmbito da organização e planejamento, criou as SAR’s, Secretarias de Ação Regional, onde mudou-se a concepção administrativa do município por completo, otimizando e aproximando a administração da população. Por fim, na assistência social, criou o RENDA MÍNIMA CIDADÃ, projeto que se nacionalizou através do Bolsa Escola e posteriormente do Bolsa Família. Em seu tempo se empenhou no estabelecimento de cooperação internacional entre cidades. Assinou vários acordos com cidades-irmãs, criou uma das primeiras secretarias de cooperação internacional e também o Trade Point, que tinha como objetivo estimular o comércio internacional.
Muitos projetos aos quais me envolvo hoje tem a ver com a trajetória dele. A cidade chinesa de Fuzhou tornou-se irmã de Campinas em sua gestão, em abril de 1996 — uma das primeiras do Brasil! Visitei a cidade algumas vezes e os resultados são concretos. Em particular a ação que desenvolvemos nos últimos dias, quando abrimos inscrições para estudantes de Campinas em bolsas integrais para estudarem na Universidade de Minjiang naquela cidade. Além disso, a vinda de empresas chinesas, como a BYD, alavancou a criação de empregos, contribuindo para o desenvolvimento do Município.
Ao mesmo tempo estou, juntamente com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, promovendo ações para aumentar o intercâmbio comercial entre a China e Campinas. Tenho feito vários encontros em associações civis, sindicatos e empresas explicando a importância do fortalecimento da cooperação internacional para o desenvolvimento econômico de nossa cidade.
Dando continuidade ao seu trabalho participei ativamente da negociação do terreno onde hoje se situa o Polo de Alta Tecnologia I, que passou a pertencer ao Município de Campinas depois de uma luta burocrática de quase 30 anos. Coerente com essa herança político-paterna, hoje é cada vez maior o meu envolvimento na transformação de Campinas numa cidade com intensa utilização da tecnologia para melhorar sua qualidade de vida.
O que me alegra é que seja a área que for, eu encontro os passos do meu pai. São pegadas a serem seguidas por aqueles que visam, independentemente de ideologias, o bem comum acima de tudo.

Escrito por:

Rogério Verzignasse