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Publicado 28/01/2019 - 09h56 - Atualizado 28/01/2019 - 09h56

Por Estadão Conteudo

A vila de Whistler: à noite, os restaurantes ficam cheios, as lareiras acesas s e os copos cheios de uísque canadense - e não há preocupação com segurança

Divulgação

A vila de Whistler: à noite, os restaurantes ficam cheios, as lareiras acesas s e os copos cheios de uísque canadense - e não há preocupação com segurança

Pensei em começar este relato contando sobre como é prazeroso tirar os pés de dentro de pesadas botas de esqui. Acertadamente não levei o projeto adiante – essa descrição implicaria em metáforas, comparações e onomatopeias capazes de derreter a neve das montanhas geladas do Canadá ou de corar quem agora me lê. Decidi, portanto, começar esta narrativa de um jeito mais familiar. Vamos começar pela "pizza".
"Uma pizza perfeita!" – comemorou a instrutora ao perceber que seu aluno brasileiro movia os calcanhares para fora, formando com os pés o desenho de uma fatia imaginária de...pizza. Assim, finalmente, depois de inúmeras tentativas, eu conseguia controlar a velocidade do esqui e me equilibrar.
Claro, minha vitória não foi tão duradoura. Desabei. A neve macia fez da queda um percalço menor. Dor? Só mesmo um leve ferimento no orgulho ao ver um japonesinho de dois anos e meio descer a montanha com a desenvoltura de um profissional. Mas, com a ajuda de Carla, uma paciente instrutora de ski nascida em Andorra, me coloquei de pé, ajustei meu capacete, ajeitei minhas luvas e tentei outra vez. Outra vez. Outra vez. E outra vez.
Não é sempre que se tem a oportunidade de aprender a esquiar em um palco tão relevante. No mesmo local em que eu ensaiava minhas primeiras derrapadas, atletas profissionais batiam recordes e ganhavam medalhas na Olimpíada de Inverno de 2010. Estou falando das montanhas de Whistler e Blackcomb, localizadas na cidade de Whistler, no trecho sul das montanhas costeiras do Canadá, na Colúmbia Britânica, distante cerca de 125 quilômetros de Vancouver.
A partir de dezembro, e durante toda a temporada de esqui, a neve cai de forma constante. Os telhados são cobertos pelo glacê do inverno e toda paisagem vai remeter ao seriado Game of Thrones ou a algum singelo conto natalino (pensei em Rudolph – A Rena do Nariz Vermelho). Apesar disso, e para minha surpresa, o frio não é agressivo. As temperaturas costumam ficar em torno dos 5 graus negativos. Ou seja, é frio, mas nada impeditivo. Com um pouco de coragem, é possível até encarar uma piscina (aquecida) ao ar livre. Os dias, esses sim, são bem mais curtos. Depois das 16h, resta pouco ou quase nada de claridade.
Mas, voltando ao esqui: é importante não errar na hora de escolher as botas. Os pés devem ficar imóveis, mas não encolhidos. A ponta dos dedos tampouco devem tocar a ponta das botas. Eu provavelmente peguei o número errado e meus pés sofreram. Se você não errar no número, não vai passar pelo perrengue que passei.
Alguns hotéis facilitam o aluguel de todo o equipamento. Assim, devidamente equipado, subi no teleférico que me levou ao nível básico do mundo do esqui, na montanha de Whistler. As aulas foram em um local de pouca inclinação e de neve fofa. A paisagem é tão impactante que eu me contentaria em apenas ficar tirando fotos e curtindo o entorno. Ou seja, vale subir mesmo se você não estiver a fim de praticar esqui ou snowboard.
Outra atração é a gôndola que faz a ligação entre as montanhas de Whistler e Blackcomb. A Peak 2 Peak percorre os 4,4 km que levam do topo de uma montanha a outra. Aliás, no topo de Blackcomb é possível almoçar, comer um lanchinho, tomar uma cerveja e relaxar. Do alto, a pergunta que muitos se fazem é: e quando a temporada de neve acabar? Bom, quando o gelo derreter todo aquele espaço se transforma em uma desafiante pista de mountain bike.
Happy hour
A partir das 16h, uma espécie de happy hour, o après ski, reúne turistas, instrutores, esportistas e locais. Dá para sentir o clima de camaradagem e ouvir a variedade de idiomas que se esparramam por entre as mesas de lugares como o Longhorn Saloon. Talvez eu não devesse contar isso, mas se você é solteiro e tem o Tinder instalado no celular, vale dar uma conferida no aplicativo (vai que...).
A vila de Whistler, a cidade, também tem os seus encantos – independentemente das montanhas. Visitei o Audain Art Museum, que exibe máscaras das primeiras nações que habitaram a província e quadros de Emily Carr, pintora nascida em British Columbia, inspirados na cultura desses povos.
À noite, Whistler continua viva. Mesmo debaixo de muita neve, caminhar por suas ruas é uma experiência reconfortante. Nós, brasileiros, vamos notar a ausência de qualquer indício de força policial nas ruas. Pois é, não precisa. Os restaurantes estão cheios, as lareiras estão ligadas e nos copos, quase sempre, tem uísque canadense com um toque de bordo.
Não é difícil ouvir relatos sobre a presença de ursos na região. Mas a possibilidade de avistá-los durante o inverno, período em que estão hibernando, é remota. Ainda assim, é possível identificar placas de advertência pela cidade e encontrar lixeiras adaptadas para evitar que os animais tenham acesso a qualquer resíduo. Na minha estada em Whistler, os ursos ficaram apenas na minha imaginação.
Também eu hibernei em Whistler. Na cama, escandalosamente confortável, sonhei com a montanha, com uma descida em zigue-zague e com a voz de Carla, a instrutora de Andorra, pedindo para que eu prestasse atenção na pizza, "na pizza perfeita". Depois de movimentar meus calcanhares e me estabilizar, olho para os esquis e os percebo como um prolongamento dos meus pés. Acho que entendi o básico do esporte O japonesinho de dois anos e meio volta a cruzar o meu caminho, fazendo manobras incompatíveis com a idade dele. Tento acompanhá-lo. Mas desabo na neve macia. E vou afundando, afundando...
Acordo com o despertador do celular. Vou esquiar mais uma vez. Nem se for apenas pelo prazer inenarrável de tirar as botas.
Muito mais do que só esqui e snowboard
O complexo de montanhas Whistler/Blackcomb, na costa Leste do Canadá, é um dos mais famosos destinos para "surfar na neve"
Whistler tem outras opções para se aventurar além do esqui e do snowboard. Eu, por exemplo, experimentei as tirolesas que conectam as montanhas de Whistler e Blackcomb. Não sou adepto das radicalidades, mas a sensação de liberdade vale cada gotinha de medo.
As tirolesas cruzam a floresta e o Rio Fitzsimmons, que separa as duas montanhas. São mais de 2 km de cabos, com alturas que podem superar a de um edifício de 15 andares.
Antes da aventura, aprendi a montar a cadeirinha que iria me sustentar nas alturas. Não confio muito nas minhas habilidades manuais, o que aumentou o meu receio. Mas, felizmente, o processo é simples, seguro e supervisionado pelos instrutores.
No dia do passeio, a neve caía pesada. Pensei que as condições climáticas seriam um empecilho, mas, em nenhum momento, os instrutores cogitaram cancelar o tour. Percorri um trajeto a pé carregando minha própria cadeirinha e pensando que, talvez, a melhor ideia fosse deixar para outro dia. Nada disso! Eu tinha trechos para cumprir, o que significava cinco tirolesas a serem vencidas.
Na primeira, desci sem os óculos protetores. Acho que não seria um problema se o tempo estivesse bom. Mas, com a neve batendo na cara, tive de fechar os olhos em alguns pontos do percurso (o que é um desperdício). Ainda assim, venci o primeiro trecho e me empolguei para enfrentar o restante da jornada. Nas demais (que variavam de extensão e altura), foi puro desfrute. Menos tenso, aproveitei melhor, soltando as mãos em alguns pontos (básico para os experientes, mas uma grande conquista para mim). O Bear Tour dura 3 horas e custa 119 dólares canadenses (R$ 333); http://www.whistler.ziptrek.com.
SAIBA MAIS
Como chegar: não há voos diretos a Vancouver; com a AirCanada, o voo com conexão em Toronto custa a partir de 832 dólares canadenses (cerca de R$ 2.300) em fevereiro. Whistler fica a quase 2 horas de carro de Vancouver (há shuttles a partir de R$ 90, ida e volta).
Passes de esqui: quanto mais dias nas montanhas, maior o desconto; para um dia, custa 142 dólares canadenses(R$ 395). Compre com antecedência para mais descontos. Site: http://www.whistlerblackcomb.com.

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