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Publicado 10/01/2019 - 10h23

A ideologia bolsonarista e a realidade nos primeiros dias de governo

Os primeiros dias de governo de Jair Bolsonaro foram pródigos em manifestações ideológicas de extrema direita que não encontram respaldo na realidade nacional.
Foram muitas as manifestações desse tipo. Entre as mais recentes está a decisão de retirar o Brasil do Pacto Global para Migração Segura, Ordenada e Regular com diretrizes para a gestão dos fluxos migratórios e assinada com a adesão de 165 países. Essa decisão intempestiva do governo brasileiro é contrária aos interesses nacionais uma vez que temos mais brasileiros que vivem fora do país do que imigrantes que aqui chegaram, incluindo a migração recente de venezuelanos.
A decisão não levou em consideração a histórica contribuição dos imigrantes na construção do país. O papel dos imigrantes na formação de nossa identidade nacional é inegável ao longo de nossa história. Pode-se afirmar que a população brasileira tem majoritariamente origem na imigração, particularmente nas regiões mais populosas como no Sul e Sudeste.
Romper com o Pacto Global para Migração foi uma decisão tomada tendo como referência a posição adotada pela extrema direita europeia e norte americana que tende a remeter erroneamente aos imigrantes muitos dos problemas de seus países.
O anúncio favorável à construção de uma base norte-americana no Brasil beirou o ridículo, surpreendendo os próprios norte-americanos e aos militares brasileiros. Estes se mobilizaram e conseguiram que o presidente recuasse no anúncio deste tema sensível à segurança nacional. Recuo à parte, ficou clara a vergonhosa subserviência do bolsonarismo a um Estados Unidos idealizado representado pelo mais ridicularizado chefe de governo do planeta, Donald Trump.
A emissão de opiniões e comentários com críticas a um dos principais parceiros do Brasil, a China, pode causar prejuízos significativos ao país. Desconsiderar o papel do país asiático no comércio exterior brasileiro não é só arriscado, mas temerário, pois é a nação que mais investe no Brasil e com a qual temos uma balança comercial positiva considerando exportações e importações. Os chineses estão entre os principais importadores de produtos agropecuários como soja, carne bovina, suína e de aves, entre outros.
O alinhamento incondicional a posições norte-americanas não traz benefícios ao Brasil. Temos interesse em manter relações de equidade com os principais atores internacionais: Estados Unidos, União Europeia e a China aproveitando as diferenças que possa haver entre eles para ampliar nossa vantagem na realização de negócios bilaterais.
Outro movimento do bolsonarismo contrário aos interesses nacionais foi o anúncio precipitado da mudança da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém confrontando a posição dos países muçulmanos que se opõe à medida. Os países árabes representam o quarto principal destino do comércio externo brasileiro, atrás apenas da China, Estados Unidos e Argentina. A posição adotada pelo governo, se efetivada, prejudicará as relações históricas que temos com os países árabes. A mudança da embaixada não atende a nenhum interesse nacional identificando-se tão somente com uma postura ideológica do Presidente da República.
Pouco antes da posse aconteceu episódio constrangedor devido a comentários de Jair Bolsonaro sobre a França remetendo aos imigrantes gerarem problemas naquele país. O presidente usou o exemplo do país europeu para explicar o impacto da entrada de estrangeiros afirmando que está simplesmente insuportável viver em alguns locais da França devido a “essa gente”. O embaixador francês nos Estados Unidos respondeu curto e grosso: "63.880 homicídios no Brasil em 2017, 825 na França. Sem comentários". Mais uma vez um comentário feito tendo como base as posições da extrema direita francesa mostrou-se infeliz e prejudicial à imagem do Brasil num tema que não nos afeta e não tem nada a ver com a nossa realidade.
A discussão pautada pelas autoridades sobre a Escola Sem Partido é a expressão mais acabada da disputa ideológica em curso e que se caracteriza por estar distante de solucionar os verdadeiros problemas do ensino no Brasil. A intenção do governo é substituir uma ideologia por outra. Um petismo com sinal trocado. A ação empreendida pelos bolsonaristas é feita às claras sem esconder a intenção. A educação nesse aspecto será um dos setores mais afetados pela luta ideológica em curso com as posições indo de um extremo ao outro, sem meio termo.
O combate explícito à ideologia de gênero é outro movimento do bolsonarismo que tende a gerar situações que beiram o ridículo. A expressão mais recente desse movimento foram as declarações da Ministra Damares Alves de que uma nova era começou, meninos vestem azul e meninas rosa. O impacto dessa declaração na sociedade foi grande e atingiu todas as classes sociais. O motivo é que até o momento vigorou liberdade de expressão nesse domínio, respeitando-se o indivíduo e suas opções individuais, não cabendo ao Estado intervir. Aqui também a ideologia não encontrou respaldo na realidade e sua continuidade anuncia várias áreas de atrito entre governo e sociedade.
O governo está apenas começando e mostra que a ideologização não contribui para o diálogo e a harmonia ao contrário causa mais problemas com perseguições e discriminações de toda ordem e fortalecendo a divisão e não a união.