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Publicado 20/12/2018 - 14h49

O Brasil na nova onda da globalização

Ao longo de 2018 cresceu entre os partidários do livre comércio a preocupação com a possibilidade de retrocesso da globalização, ameaçada pela ascensão do populismo nacionalista em várias partes do mundo, inclusive no Brasil. Entretanto, vários sinais indicam que a globalização continua avançando, em que pese os contratempos advindos do protecionismo e do unilateralismo.
A reunião do G20 que ocorreu em Buenos Aires e que contou com 100% de participação de seus integrantes sinalizou que a manutenção do multilateralismo nas relações comerciais se mantém, pois este é um dos pilares da globalização e está baseado na cooperação entre as nações, o que o que implica em um futuro mais pacífico para o planeta.
É importante lembrar que a globalização é uma força baseada no instinto humano de negociar, viajar e conhecer. É um fenômeno que nos acompanha há milênios, desde que os primeiros humanos saíram da África e se espalharam por todo o planeta. A expansão da civilização ocidental é um produto da globalização, tal qual o celular ou o computador pessoal. É uma força irreversível que permite que a humanidade vislumbre um destino comum, compartilhado e de responsabilidade de todos.
A realidade mostra que apesar do ressurgimento de sentimentos protecionistas, a tendência é que os governos continuarão negociando acordos em todos os âmbitos de atividade humana como o comércio, educação, meio ambiente, direitos humanos, esporte, lazer, entretenimento entre outros.
Os processos de globalização da era moderna sempre tiveram uma nação que funcionou como locomotiva perante as outras, liderando o processo de internacionalização.
Neste momento vivemos um período de transição em que a líder do processo globalizante, nação porta-voz do multilateralismo, os Estados Unidos retrocedeu ao adotar políticas protecionistas na perspectiva do “América First” e a China, por sua vez, vem assumindo a condição de liderança da globalização adotando uma política de cooperação multilateral que envolve o mundo todo numa iniciativa denominada “Cinturão e uma rota”, inspirada na antiga rota da seda que abriu as portas do país asiático para comercialização com o ocidente.
Para os chineses, o mundo hoje está passando por desenvolvimento, transformações e mudanças fundamentais. À medida que a globalização econômica avança, o protecionismo e o unilateralismo se tornam um obstáculo ao crescimento global. Nesse contexto, o presidente Xi Jinping definiu parâmetros para direcionar o desenvolvimento da economia mundial com foco na abertura e criar mais espaço para o crescimento econômico, na perspectiva de proporcionar mais benefícios às pessoas, na inclusão e promoção da interação. A política chinesa postula ainda concentrar-se na inovação para aproveitar as novas fontes de crescimento com uma orientação baseada em regras para melhorar a governança global.
Na perspectiva chinesa de globalização a cooperação aberta trará mais oportunidades e mais espaço para o desenvolvimento que permitirá a construção de uma economia mundial aberta que contribuirá para que seja alcançado um mundo de benefícios compartilhados.
Em sintonia com esses princípios a China está investindo cada vez mais na América Latina. De acordo com relatório do Fórum Econômico Mundial, o país asiático é o principal parceiro comercial da Argentina, Brasil, Chile, Peru e Uruguai e o segundo de vários outros países, entre os quais o México. Inicialmente os investimentos chineses estavam concentrados em setores geralmente relacionados com mineração, energia e matérias-primas.
Posteriormente, em consonância com a iniciativa “Um cinturão e uma rota” a China tem privilegiado investimentos em infraestrutura que facilitem o desenvolvimento e consolidação da iniciativa que conecta diferentes partes do mundo através de rodovias, ferrovias, redes marítimas, dutos e oleodutos que tem destino final os portos chineses.
No Brasil os chineses desde 2016 investiram cerca de R$ 90 bilhões no Brasil, principalmente nas áreas de energia elétrica, óleo e gás. Desde 2017 empresa chinesa controla o Terminal Portuário de Paranaguá, o segundo do país, superado somente pelo porto de Santos.
A economia do Brasil hoje é bastante dependente da China. A metade das exportações de matéria-prima e mais de um quarto das exportações totais do Brasil vão para o país asiático. Entre os produtos mais vendidos aos chineses estão a soja (78% da soja triturada), minério de ferro, petróleo em bruto e celulose. Compramos mais produtos associados à tecnologia como circuitos impressos, peças de telefonia, partes de aparelhos receptores e transmissores e outros produtos manufaturados. No ano passado, dos 25 estados brasileiros além do Distrito Federal, treze tiveram a China como principal destino de seus produtos no exterior, contra seis dos Estados Unidos.
Há muito que falar sobre nossas relações com a China que se intensificam a cada dia. Por isso não faz nenhum sentido declarações do governo de privilegiar as relações com os norte-americanos em detrimento da China. O Brasil só tem a perder se assumir incondicionalmente um dos lados – Washington ou Pequim – da guerra comercial travada por esses gigantes do sistema econômico global.
O mais prudente nesse período de transição em que se redefine a liderança global do processo de globalização é adotar uma postura de neutralidade, mantendo ótimas relações com os principais atores.