Publicidade
Publicado 13/12/2018 - 13h52

O que mostra a transição do futuro governo Bolsonaro

O período de transição mostrou algumas características do novo governo.
A primeira delas é que não há plano de governo a ser seguido pelos titulares escolhidos para os diversos ministérios. Há um conjunto de intenções expressadas ao longo da campanha e que norteiam tanto as escolhas ministeriais como indicam aos escolhidos como devem proceder no exercício de suas funções. Não há um conjunto unificado de propostas para o desenvolvimento do país de forma sustentável em suas diversas vertentes econômica, social, cultural e ambiental. Cada titular escolhido apresenta propostas para sua pasta baseando-se num alinhamento incondicional às declarações de intenções de Jair Bolsonaro.
Acertos e erros provém desse alinhamento. Na economia, Paulo Guedes, por ter sido escolhido com bastante antecedência é o que tem propostas mais adiantadas para execução permitindo ao mercado planejar e agir.
Já Sérgio Moro foi escolha aplaudida para enfrentar uma das principais bandeiras do bolsonarismo: o combate à corrupção. Mas como não existe um plano de governo, não há uma unidade política articulada com outras pastas o que pode gerar conflitos, pois o Ministério da Justiça não cuida somente do combate à corrupção e ao crime organizado, envolve-se diretamente, por exemplo, com a questão dos direitos humanos.
O futuro Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, demonstra claramente pouca autonomia na proposição de orientações para a pasta. Anuncia decisões sem uma consulta prévia aos quadros do Itamaraty para verificar se há ganhos ou perdas ao Brasil. Estão nessa ordem de decisões insensatas a confirmação da mudança da embaixada brasileira para Jerusalém, em Israel, o que nos coloca numa posição de confronto com países islâmicos que são grandes compradores de produtos brasileiros. A recente declaração de que o Brasil se dissociará do Pacto Mundial da ONU para Migração é outra manifestação sem sentido e de pouca reflexão. O pacto foi fechado no último dia 10 com a assinatura de 164 países, em Marrakesh, Marrocos. Segundo o futuro ministro, o Brasil se dissociará do Pacto por ser “um instrumento inadequado para lidar com o problema. A imigração não deve ser tratada como questão global, mas sim de acordo com a realidade e a soberania de cada país”. Declaração insensata que revela desconhecimento de que toda imigração envolve causas e consequências diretamente relacionadas com pelo menos dois países, ou seja, é sempre uma questão internacional. O agravante dessa decisão é que temos hoje em nosso país 1 milhão de imigrantes, mas, por outro lado, temos 3 milhões de cidadãos brasileiros que emigraram para outras nações. O problema, portanto, é claramente global, não somente nacional.
Outra escolha, a do titular do Ministério do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi um parto difícil sujeito a pressões de todos os lados. No final, a alternativa não foi um mal maior pois pelo menos não passaremos o vexame internacional de nos retirarmos do Acordo climático de Paris. Pelo menos o futuro ministro declarou a intenção de permanecer. Porém, tratando-o como uma questão secundária. Que seja.
A futura Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, já indicou que sua pasta será a grande trincheira conservadora do governo Bolsonaro. Provavelmente é a pasta que deverá se envolver em maiores polêmicas pois tratará diretamente dos direitos humanos, que envolve as minorias e que tem mais a perder num governo conservador. A tentativa de imposição de valores conservadores deverá entrar em confronto direto com os valores liberais nos costumes que predominam na sociedade brasileira e que de certa forma nos caracteriza.
Assim, de forma resumida, o governo que se instalará no próximo dia primeiro de janeiro deverá atender parte das expectativas daqueles que o elevaram ao poder, mas, por outro lado, encontrará barreiras em questões pontuais que envolvem direitos adquiridos por grupos específicos e conquistas na área ambiental que correrão risco de retrocesso.
O apoio ao futuro governo Bolsonaro continua alto, segundo pesquisa divulgada pelo Ibope nesta quinta-feira, dia 13, três de cada quatro brasileiros (75%) acreditam que o presidente eleito está no caminho certo. Já 64% dos entrevistados consideram que próximo governo será ótimo ou bom. Acreditam que será regular 18% e ruim ou péssimo 14%.
O presidente eleito tem apoio popular suficiente para realizar as reformas que o país necessita, em particular a da previdência. Seu maior problema, revelado na transição, é a falta de um plano claro de governo que norteie as políticas públicas dos diversos atores que compõe a equipe de governo, o que pode levar a desencontros na equipe de governo que podem comprometer o apoio popular recebido até agora.