Desafios do Brasil diante da nova revolução tecnológica
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Publicado 30/11/2018 - 11h39

Desafios do Brasil diante da nova revolução tecnológica

O alinhamento do Brasil em relação às transformações promovidas pela quarta revolução industrial é um dos principais desafios a serem enfrentados pelo próximo governo.
A Quarta Revolução Industrial– também denominada Indústria 4.0 – é marcada pela integração de tecnologias do mundo físico, digital e tecnológico. Suas características são: o aumento do poder de processamento, a conectividade dos itens utilizados no dia-a-dia com a rede mundial de computadores (Internet das coisas – IoT), ampla utilização da inteligência artificial, intensificação do uso de impressoras 3D e uso da nano e biotecnologia para a produção de objetos utilizados no cotidiano.
As empresas de ponta da indústria, como as montadoras de veículos, estão acelerando seu processo de reestruração produtiva para fazer frente a essa mudança de paradigma, que indica, no caso desse setor, para um cenário de automóveis elétricos, conectados e autônomos.
A decisão tomada pela segunda maior fabricante de automóveis do mundo, a General Motors (GM) de dispensar 14.500 trabalhadores de um total de 53.000 pessoas de sua força de trabalho em sete fábricas nos Estados Unidos e Canadá revelam que o custo social das mudanças pode ser alto se os governos não estiverem preparados.
O que acontece agora com a GM na América do Norte se repete nos demais setores produtivos e gera uma verdadeira corrida de sobrevivência das empresas que afetam profundamente a estabilidade da sociedade.
Outro lado dessa quarta revolução é a possibilidade de haver um aumento da desigualdade social no mundo, pois a propagação da inteligência artificial e o uso de robôs aumentarão o desemprego e o desequilíbrio no mercado de trabalho. As economias mais prejudicadas serão as que mantém alguma vantagem na utilização de mão de obra barata, como acontece com o Brasil.
A redução da força de trabalho devido a robotização e demais mudanças tecnológicas é uma realidade que não pode ser ignorada. Esse processo irreversível somente poderá ser amenizado em seus efeitos caso os governos adotem políticas diferentes da atual em termos de política social.
A manutenção de empregos condenados à extinção poderá atender momentaneamente a necessidade de alguns setores, contudo, terão um alto custo social para as sociedades com produtividade e competitividade baixas.
Como pilar dessa transformação radical promovida pela revolução tecnológica, a educação deverá melhorar a qualidade como um todo, especialmente as habilidades associadas aos ensino das ciências e da matemática.
O populismo de Donald Trump baseou-se na defesa dos empregos norte-americanos ameaçados pelos imigrantes e pela produção chinesa. O discurso fácil encontrou eco na força de trabalho do meio oeste norte-americano, onde estão ocorrendo as demissões da GM, que votou em massa e garantiu sua eleição. Ocorre que o problema real não é esse. É que cada vez mais se produz com menor número de trabalhadores. A automação diminui custos de produção e melhora a qualidade do produto.
A solução do problema não está na revitalização de setores produtivos ultrapassados com a justificativa de manutenção de empregos, mas na requalificação da mão-de-obra para novos postos de trabalho, novas profissões e posições geradas pela nova revolução industrial.
A decisão da GM também é consequência da evolução do mercado automobilistico em todo o mundo de crescente demanda por automóveis elétricos e híbridos, com alto grau de automatização e autonomia. Essa demanda está tão elevada que a GM fechou suas fábricas contrariando Donald Trump que defende a manutenção de empregos com base em processos produtivos ultrapassados.
A principal barreira que temos para um alinhamento com as transformações promovidas pela quarta revolução industrial é, sem dúvida, a educação em todos os níveis, da educação infantil à pós-graduação com maior valorização do ensino de ciências e matemática, como o fizeram os países asiáticos – Coreia e Japão – e o fazem hoje a China e a Índia. Os dois países já fizeram grandes avanços e continuam apresentando saltos de produtividade, aumentando a competitividade em relação às demais nações do mundo.
Naturalmente, como toda mudança, a quarta revolução industrial traz incertezas. Nesse sentido, a tensão principal é o que acontecerá com a mão-de-obra não qualificada que, conforme estimativas, terão 47% de suas ocupações eliminadas até 2030.
Em contrapartida há muitos aspectos positivos que emergem da quarta revolução industrial. Além da melhoria da qualidade de vida com o aumento da conectividade e maior acesso à informação, a revolução em curso também trará uma modificação nos parâmetros estabelecidos das relações humanas e das ideologias dominantes. Uma mostra do que está ocorrendo vimos nas manifestações recentes em torno das eleições e seus desdobramentos com o aumento da participação e da transparência na política.
Cada vez mais, o talento, mais do que o capital, representará o fator crítico de produção. Em decorrência disso, haverá um aumento do fosso salarial, que separa os segmentos de baixa e alta qualificação. Novos estilos de vida deverão predominar entre os jovens, com base em valores como criatividade, transparência e respeito ao meio ambiente.
A questão central para o Brasil portanto é um melhor direcionamento de seus investimentos em educação. O país precisa se destacar em termos de competitividade global a fim de obter, como resultado um desenvolvimento interno mais sustentável e a diminuição das desigualdades sociais. Caso contrário, lhes restará um papel secundário na economia global de fornecedor de matéria-prima e de consumidores.