A tragédia migratória latino-americana
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Publicado 08/11/2018 - 14h57

A tragédia migratória latino-americana

A caravana de migrantes da América Central que ruma aos Estados Unidos é mais um capítulo da recente tragédia migratória latino-americana cujo protagonista maior é a diáspora venezuelana.
O fluxo massivo de migrantes da caravana é formado essencialmente de homens, mulheres e crianças de três países centro-americanos: Honduras, El Salvador e Guatemala que fogem da violência agravada pela corrupção e pela pobreza.
A marcha teve início em Honduras no último dia 13 de outubro numa cidade do norte de Honduras, San Pedro de Sula, a segunda maior do país e sua capital administrativa, considerada durante muito tempo a cidade mais violenta do mundo. Título que perde atualmente para a capital venezuelana- Caracas. Nessa cidade hondurenha mais de 90% dos estabelecimentos pagam extorsão para as gangues criminosas que mantém uma cruenta guerra permanente entre si para controle de território.
A violência foi um dos principais fatores determinantes para o início da marcha que começou como uma ação espontânea de 160 pessoas. Logo se converteu em uma grande caravana de migrantes engrossada com cidadãos da Guatemala e El Salvador que enfrentam os mesmos problemas. Em alguns momentos a caravana chegou a ter 7.000 integrantes.
O fenômeno migratório de centro-americanos para os Estados Unidos não é novo. Há muito tempo existe e o fluxo de dólares remetidos por aqueles que lá se instalaram dão um aporte significativo ao PIB de seus países de origem.
A remessa dos migrantes para Honduras significou, segundo o Banco Mundial, 18,81% do PIB do país em 2017. Em El Salvador a remessa representou 20,37% do PIB e na Guatemala 11,18%. Isto mostra a importância da remessa de dólares para esses países e ao mesmo tempo o imenso número de migrantes oriundos dessa região nos Estados Unidos. O fato permite supor que um dos atrativos para a marcha pode ter sido o PIB norte-americano, que cresceu a uma taxa de 4,1% no segundo trimestre deste ano e o baixo índice de desemprego de 3,8% equivalente ao índice de 18 anos atrás.
O início da marcha em Honduras não foi por acaso. Há uma conjunção de fatores que a favoreceram. Em primeiro lugar, como já dito, o alto índice de violência. Acrescente-se a isso o fato de ser um dos países mais pobres da América Latina, com uma corrupção desenfreada e em crise política provocada por eleições questionadas, inclusive pela OEA. Esses fatores associados geram um grau de descontentamento social elevado que forma o caldo de cultura necessário para que o povo busque soluções não convencionais para resolver seus problemas.
A situação é muito semelhante em El Salvador e na Guatemala. As gangues tornam a vida do cidadão insustentável e o cotidiano um tormento que provoca o êxodo de muitos de seus cidadãos em busca de lugar mais seguro. O trinômio violência-pobreza-corrupção é semelhante nos três países e desencadeou na atual onda migratória que tem chamado mais atenção que a dos venezuelanos que continuam a fugir de seu país, mas em direção ao sul para países como a Colômbia, Brasil, Equador, Peru, Chile e Argentina.
A corrupção segue sendo o fator mais importante causador de migrações. A Organização Transparência Internacional (TI) em seu relatório anual de 2017 mostra que numa escala de 0 a 100 o Canadá se destaca nas Américas com 82 pontos enquanto na América Central a Nicarágua tem 26 pontos, a Guatemala com 28, Honduras com 29 e El Salvador com 33. A Venezuela ocupa uma das piores colocações com 18 pontos. Esse quadro permite identificar a corrupção como um sintoma comum na região e que prejudica o seu crescimento. O dinheiro que flui para a corrupção não cria emprego e nem emprega as pessoas, que encontram na migração a única opção.
A caravana de migrantes para os Estados Unidos representa o último recurso encontrado pelas pessoas que buscam paz, segurança e progresso econômico.
O momento em que ocorre a marcha teve um desdobramento inesperado que foi a coincidência com as eleições norte-americanas, fundamentais para o presidente Donald Trump implementar suas políticas. Trump utilizou a caravana para intensificar seu discurso racista e xenófobo para influenciar os eleitores, criando temores e incertezas na população com a iminente chegada da onda de migrantes. Procurou colocar o problema migratório como central para a segurança nacional e provavelmente conseguiu, ao menos em parte atingir seu objetivo, influenciando milhões de norte-americanos que mantiveram o voto no partido republicano. Trump ampliou sua base no senado e perdeu a maioria na Câmara de Representantes.
A marcha dos migrantes está se aproximando de seu objetivo: a fronteira dos Estados Unidos. Qualquer que seja o desfecho a chegada da caravana na fronteira ficará marcada como um fenômeno de mídia tendo alcançado uma dimensão global de denúncia da situação de miséria em que vive parte significativa da população latino-americana.