O tsunami eleitoral da mudança
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Publicado 11/10/2018 - 09h59

O tsunami eleitoral da mudança

A votação em primeiro turno ocorreu num ambiente de paz e tranquilidade. Os eleitores brasileiros demonstraram um amadurecimento democrático maior do que as expectativas veiculadas nos dias anteriores em muitos artigos na imprensa. Não houve conflito significativo entre apoiadores das duas posições extremadas; ocorreram ações isoladas em poucos lugares do país, fato que pode ser considerado espetacular num país de dimensões continentais como o Brasil.
Segundo o Datafolha 69% da população brasileira apoia a democracia e os eleitores mostraram nas urnas o seu significado na prática, exerceram-na em toda sua plenitude. Eleições fazem parte do jogo democrático e devem ocorrer com naturalidade periodicamente.
O resultado da eleição foi uma manifestação do desejo de mudança do povo brasileiro. Saíram perdedores os que combatiam a lava jato. Os corruptos receberam um claro recado da população: não serão tolerados desvios de conduta.
O assistencialismo lulopetista recebeu seu prêmio com os votos do nordeste que deram uma sobrevida ao seu candidato no segundo turno.
Chegamos a um momento de virada na política brasileira. Ocorreram significativas mudanças na composição da Câmara dos Deputados e no Senado indicando que teremos um novo Congresso com muitos estreantes na política institucional.
Figuras tradicionais e conhecidas da política foram ceifadas pela onda de mudança. Dilma Roussef sofreu seu segundo impeachment, agora diretamente pelo voto popular. A manobras de Ricardo Lewandowski levada a efeito no dia da votação do impeachment, dando à ex-presidente a oportunidade de concorrer nas eleições após sua cassação, saiu pela culatra. O povo repudiou nas urnas a inoportuna iniciativa do juiz do STF.
A palavra maturidade é bem adequada para caracterizar o movimento popular eleitoral de 7 de outubro. Maturidade da democracia brasileira que se mostrou fortalecida e alheia aos ataques que quiseram lhe desferir tanto dentro como fora do país. A narrativa de golpe esvaiu-se. O povo confirmou nas urnas o veredito de impedimento, varrendo várias lideranças que defendiam essa posição. A imprensa internacional está estupefata, pois a democracia brasileira mostrou-se sólida, incontestável contrariando o catastrofismo veiculados por alguns órgãos de imprensa internacionais.
Há ainda aqueles que contestam a democracia considerando que ela tem uma única via. Classificar a mudança ocorrida nas urnas como conservadora é só uma constatação do lado que pendeu a mudança, mas considerá-la como um fato negativo e que deve ser combatido é não valorizar a livre escolha que a população pode fazer nas urnas. Podemos não concordar com os rumos da mudnnça escolhida pela população, mas foi fruto de uma livre escolha e deve ser respeitada.
A democracia não existe somente para um lado do espectro político. Há progressistas e conservadores que são democratas e não almejam outro regime. É próprio da democracia a alternância no poder e a eterna vigilância de todos para que não haja uso impróprio do governante de turno do mandado que lhe foi conferido pelas urnas. As regras do jogo democrático permitem a alternância, não a quebra delas. Aqueles que o tentarem enfrentarão a resistência de todos os que defendem a democracia.
Vamos a um segundo turno em que os dois candidatos amenizam suas declarações e propostas anteriores. Jair Bolsonaro durante sua vida de parlamentar mostrou-se homofóbico, misógino, xenófobo, a favor de um golpe militar, defensor de execução sumária de criminosos, contra a política de direitos humanos, contra a política atual em relação aos indígenas e não esconde ser favorável à tortura. Agora garante que é um democrata desde criancinha, acenando para o centro e para os que não querem a volta do petismo ao poder.
O candidato do PT, Fernando Haddad procura se distanciar de Lula, embora no primeiro dia pós-eleição tinha visitado o presidiário para receber novas instruções. Chegou ao ridículo de apagar a imagem de Lula na foto oficial, não se deram ao trabalho de tirar outra fotografia. Tirou o vermelho e a estrela do PT na propaganda do segundo turno. Voltou atrás na proposta de constituinte, declarou-se socialdemocrata e não usa mais a camiseta “Lula livre”. Aguardemos suas posições em relação às ditaduras de Nicolas Maduro na Venezuela e de Daniel Ortega na Nicarágua. Se por um lado as novas posições e declarações visam atrair o eleitorado de centro, as mudanças podem acentuar sua característica de personalidade volátil em virtude de sua encarnação de Lula no primeiro turno.
Nesta segunda etapa da eleição presidencial a população deverá continuar atenta às manifestações e propostas dos candidatos e suas mutações de última hora. A maturidade demonstrada no primeiro turno deverá se manter na escolha do novo Presidente da República. E a eleição deverá ocorrer em paz, revelando ao mundo a solidez da nossa democracia que, com todos os defeitos, é o melhor regime para se viver.