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Publicado 09/05/2017 - 08h45 - Atualizado 09/05/2017 - 08h47

Por Adriana Ferezim/Gazeta de Piracicaba

Crianças angolanas escrevem cartas para as piracicabanas

Divulgação

Crianças angolanas escrevem cartas para as piracicabanas

Cartas. Um meio de comunicação considerado ultrapassado, atualmente, está fortalecendo a amizade entre crianças angolanas e piracicabanas. Em março, os estudantes da Escola Estadual Professor Samuel de Castro Neves, do 6ºano B, dos bairros de Santana e Santa Olímpia, enviaram cartas aos alunos da escola Pequena Chama, na Ilha de Mussulo, em Angola. A iniciativa foi noticiada pela Gazeta. Agora, chegaram as resposta, por carta, dos estudantes que vivem nessa península de Luanda, capital do país africano.
A correspondência chegou há duas semanas. As cartas dos piracicabanos foram levadas por Maria Isabel Baptista Barbosa de Oliveira, que também trouxe a dos angolanos. Ela está desenvolvendo a pesquisa 'O escuro dos meus pés é o branco dos seus - histórias de crianças brasileiras e angolanas'. Uma folha de papel vozes e sensações, para a sua tese de mestrado pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Unisal - unidade Americana).
Nas cartas, as crianças relataram o que gostam, como plantas e animais e as brincadeiras que têm, principalmente um jogo de roda chamado zero. Que usa muito ritmo e é a brincadeira preferida das meninas.
As crianças da ilha não têm energia elétrica, internet e sua comunidade e carente. Mesmo assim, as descrições e os desenhos que enviaram ao Brasil são alegres.
Sabendo da realidade difícil do local onde vivem os seus novos amigos, os alunos piracicabanos ficaram emocionados e surpresos com as informações que chegaram. Também ficaram felizes com os presentes que vieram: conchas do mar que foram coletadas especialmente para eles, nas praias da ilha Mussulo. São conchas diferentes, mais grossas do que as que se encontram no litoral brasileiro.
"Em muitas cartas, as crianças angolanas mencionaram os seus amigos de escola. Quando, em Piracicaba, os estudantes perceberam que a carta que um aluno tinha recebido fazia referência a uma criança que tinha escrito para outro aluno, houve uma interação inesperada, eles começaram a identificar quem eram amigos. Os daqui, em suas cartas, não falaram dos amigos. Isso demonstra, o quando a amizade é importante para a vida deles", falou Maria Isabel.
Segundo ela, foi surpreendente também o carinho que as crianças tiveram com alguém desconhecido por meio de cartas. "Tanto aqui, como lá em Angola, todos fizeram questão de mandar presentes, desenhos. Foi gratificante poder acompanhar isso", afirmou.
Ela procurou a escola de Piracicaba para complementar sua pesquisa e recebeu apoio da direção e coordenação da escola e da professora de língua portuguesa, Lídia Bilia Camargo.
"A análise para o meu estudo ainda será feito, porque a educação é diferente, mas não esperava tanta emoção", comentou.
Para a professora Lídia, a emoção deles ocorreu também porque a carta os aproximou. "Aqui, apesar de estarem próximos, ficam distantes por conta do novo modo de relacionamento com a tecnologia. A carta se tornou algo muito pessoal para eles. Se sentiram ouvidos e com a sensação de que alguém está realmente o conhecendo", afirmou.
INÍCIO
Maria Isabel levou as cartas dos alunos, em um envelope com foto. Ela passou uma semana convivendo com as crianças na escola Pequena Chama, em abril.
Vinte e cinco crianças com idade entre 8 e 10 anos, apenas uma criança tinha 11 anos, participaram da atividade lá. Aqui o número de alunos foi o mesmo. "O ensino na ilha é diferente. Muitos apresentaram dificuldade na leitura e na escrita. Alguns ainda estão na fase silábica. Tudo é bem precário e a escola tentar dar o melhor, como alimentação e o ensino dos valores, que não encontram em suas famílias, muitas desestruturadas por conta da pobreza", revelou.
A pesquisadora registrou todos os momentos - do recebimento das cartas - as cantigas de recepção - a elaboração das respostas aos brasileiros - em fotos e em vídeo. "Um dos momentos mais emocionantes, foi quando as crianças africanas cantaram uma música que uma das alunas daqui gravou no YouTube para elas", revelou.
No retorno a Piracicaba, ela apresentou as imagens aos alunos da Samuel de Castro Neves. "A apresentação ocorreu no anfiteatro. Primeiro eles assistiram ao vídeo e só depois eles abriram as cartas. Foi uma mistura de alegria e emoção".
As crianças angolanas fizeram questão de enviar desenhos, que mostram a realidade do local onde vivem, da escola onde estudam, mantida por uma ação voluntária do Movimento dos Focolares, fundado em Trento, na Itália. Na unidade eles recebem alimentação e ensino. Aos 11 anos, as crianças deixam a entidade e vão para a escola regular.
Agora, os piracicabanos preparam cartas para responder às questões que os angolanos fizeram e afirmaram que continuarão a se corresponder com eles, independentemente do projeto que promoveu esse encontro.
"Mais do que o estudo da língua e das questões da infância e da educação dos dois países, o carinho com as cartas surpreendeu", afirmou Maria Isabel. Ela teve de digitalizar algumas cartas, porque algumas crianças têm a letra ilegível para as crianças.
IMPRESSÕES
Toda a sala de aula disse que continuará escrevendo para o seu amigo de Angola. As cartas que vieram causaram surpresa neles. "Eu gostei que na carta veio a foto de quem eu recebi a carta. Achei importante conhecer porque quando escrevemos a carta não tinha ideia como ela seria", disse Graziela Correr Gomes.
A aluna Maria Eduarda Gobette percebeu diferenças na escrita. "Eles não usam pontuação. Gostei que falaram das frutas e das brincadeiras".
O jogo de roda zero foi o que chamou a atenção de Ana Júlia Corrêa.
"Também gostei do jeito que explicaram a brincadeira e o carinho que tiveram de escrever", falou Nayara Alice Forti.
O nome deles chamou a atenção de João Guilherme Stenico. "A menina que me escreveu disse que se chama Laurieta, mas que era para eu chamá-la de Lavínia. Porque ela gosta mais desse nome".
"Achei legal eles terem ido à praia para pegar conchas para nós", disse Eliã Fernanda Ramos.
Eles vão responder o que eles perguntaram, compartilhar com eles o que sentiram ao receber as cartas e estão preparando uma história em quadrinhos. "A ideia foi dos alunos. Eles criaram a história, nós vamos fotografar, editar e mandar para as crianças de Angola", comentou a professora Lídia.
Esse elo de amizade foi formado e pode seguir pela vida toda.

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Adriana Ferezim/Gazeta de Piracicaba