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Publicado 12/03/2016 - 16h54 - Atualizado 12/03/2016 - 16h54

Por Gustavo Abdel

A enóloga da Epamig, Isabela Peregrino, no Núcleo Tecnológico mantido pela entidade, que disponibiliza mudas e assistência técnica para produtores do novo

Leandro Ferreira

A enóloga da Epamig, Isabela Peregrino, no Núcleo Tecnológico mantido pela entidade, que disponibiliza mudas e assistência técnica para produtores do novo "cinturão" vinícola brasileiro

Nos contrafortes do Sul de Minas Gerais, os milhares de pés de café que cobrem as montanhas estão gentilmente emprestando a fama da região para fileiras e mais fileiras de videiras, carregadas de promessas de futuros bons vinhos e espumantes à mesa do brasileiro. A viticultura se consolida como uma importante atividade para produtores que investiram em pesquisas e estão apostando em uvas finas, nas fazendas que vão de Três Corações até Andradas, na divisa com São Paulo.
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Pesquisadores afirmam que a inclusão desse novo terroir (características regionais que peculiarizam a produção de algum produto) no cenário dos vinhos finos brasileiros é viável diante das possibilidades agronômicas e climatológicas de poder “enganar” o ciclo da videira, com a chamada dupla poda, e assim obter melhora na qualidade das uvas e, consequentemente, uma produção de vinhos de destaque.
Somente na safra do ano passado, o campo experimental da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), localizado em Caldas, produziu 30 mil litros de vinho. O número não é tão expressivo perto dos 50 mil litros de 2014, mas uma boa quantidade em razão das chuvas que deixaram o solo encharcado no final do ano passado, o que é muito ruim para a uva.
Foto: Leandro Ferreira
Núcleo Tecnológico da Epamig, em Caldas, onde são produzidos vinhos com uvas Syrah e "Folha de Figo"
Núcleo Tecnológico da Epamig, em Caldas, onde são produzidos vinhos com uvas Syrah e "Folha de Figo"
A enóloga da Epamig, Isabela Peregrino, explicou que hoje são 16 produtores (Minas em maior quantidade, São Paulo e Rio de Janeiro) que levam suas uvas para aquele núcleo tecnológico, que abriga a única adega enológica experimental do Sudeste do Brasil. Durante um ano os produtores aguardam o processo de vinificação, que vai desde o processamento da uva até o engarrafamento. A capacidade de produção no local é de 56 mil litros — com duas safras ao ano, são 112 mil litros.
“A qualidade do vinho é muita boa. A técnica da inversão de ciclo faz com que a gente produza uva na melhor época possível para a produção de uva fina, no Inverno. É uma época seca e com amplitude térmica elevada (sol durante o dia e noites frias), o que propicia baixa doença, melhor maturação da uva e melhor manutenção da cor”, explicou a enóloga. Além de ter uma vinícola experimental para o processamento das uvas e a produção de vinhos e maquinários importados, a Epamig em Caldas disponibiliza mudas de qualidade, tecnologias de manejo e suporte técnico ao produtor.
As uvas que são processadas no campo experimental são Chardonay, Pinot Noir, Merlot, Bordo “Mineiro” (ou Folha de Figo), Sauvignon Blanc, Syrah, Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon. Neste ano a vinícola fez 80 anos, e o vinho produzido pela Epamig, dos tipos Bordo e Syrah, é comercializado no próprio campo experimental.
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A enóloga da Epamig avalia que haverá um crescimento expressivo de novos rótulos dentro dos próximos quatro anos. “Temos diversos projetos sendo implantados na região cafeeira, de Três Corações, São Gonçalo do Sapucaí, Três Pontas e Cordislândia. Aquela região concentra vários projetos novos, e daqui a três ou quatro anos, quando as videiras começarem a produzir, a gente começar a escutar mais dessa região e vai chamar a atenção para esse polo vitivinícola”, acredita.
O novo polo inclui cidades da região do Sul de Minas (Três Corações, Caldas, Varginha, Baependi, Santo Antônio do Amparo, Andradas, São Sebastião do Paraíso, São João Del Rei e Divinolândia) e municípios do Estado de São Paulo próximos à divisa com Minas (São Bento do Sapucaí, Itobi, Louveira, Valinhos e Espírito Santo do Pinhal).
 
Técnica inverte o ciclo natural da planta
A técnica da inversão de ciclo foi testada na produção de vinhos na vinícola Estrada Real, na Fazenda da Fé, em Três Corações, pelo pesquisador da Epamig Murilo Albuquerque Regina. A técnica altera o ciclo natural da planta, fazendo com que o período de maturação da uva seja no Inverno. O primeiro corte dos galhos da videira acontece em setembro para formação de ramos e o segundo, em janeiro ou fevereiro, para produção. No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina é feita uma poda só, de produção, em agosto ou setembro.
Na primeira safra, a marca produziu 10 mil garrafas da bebida feita a partir da uva Syrah, mas prevê aumentar a produção em breve. Uma garrafa da safra 2010 do Primeira Estrada Syrah é vendida em Belo Horizonte por cerca de R$ 78. O técnico agrícola e gerente da Fazenda da Fé, Enilson Ribeiro de Oliveira, mostrou à reportagem do Correio as videiras de Syrah. A poda havia sido feita há 15 dias, e as videira estavam preparadas para a próxima colheita, no Inverno. “Tivemos um aproveitamento de 70% do que foi colhido no ano passado”, explicou.
As pesquisas da Epamig naquela fazenda iniciaram-se há mais de 11 anos, e contemplaram as uvas Syrah, Cabernet Sauvignon, Chardonnay e Merlot. A Syrah mostrou melhor desenvolvimento e produção e, por isso, a área foi ampliada para dez hectares. A vinificação já passou por Caldas e Espírito Santo do Pinhal, em São Paulo.
O Primeira Estrada é comparado por especialistas aos vinhos de Bordeaux (França), mesmo em fase inicial. No entanto, a grande deficiência dos vinhos nacionais, principalmente dos tintos, com relação aos vinhos das regiões tradicionais produtoras do mundo — como Argentina, Chile e sul do Brasil — é exatamente a condição climática no momento do amadurecimento, que não permitia a maturação plena da uva.
SAIBA MAIS
Blogs e sites especializados não poupam elogios ao Syrah Primeira Estrada. Enólogos que avaliaram o vinho mineiro demonstraram, em geral, ter apreciado o produto. Entre as características, especialistas citaram aroma refinado, frescor e coloração violeta intensa. Os aromas, dizem, remetem a sabores como framboesa, noz moscada, pimenta, baunilha e menta. Também foram citadas notas de iogurte de frutas e café com um final de boca lembrando algo tostado.

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Gustavo Abdel