Perda de Magalhães abre 'lacuna tucana' de 20 anosCampinas e RMC
Publicidade

Publicado 28/02/2016 - 21h32 - Atualizado 28/02/2016 - 21h32

Por Bruno Bacchetti

Magalhães Teixeira

Cedoc/ RAC

Magalhães Teixeira

Há exatos 20 anos Campinas perdia José Roberto Magalhães Teixeira, aos 58 anos, vítima de um câncer no fígado. Deputado federal (1990 a 1992), duas vezes prefeito (1983-1988 e 1993-1996) e fundador do PSDB, o político deixou uma lacuna do partido na cidade.
Desde o fim do seu mandato, que após a sua morte foi concluído pelo então vice-prefeito Edivaldo Orsi, o PSDB não mais conseguiu eleger um prefeito. Célia Leão (1996) e Carlos Sampaio (2000, 2004 e 2008) tentaram por quatro vezes, mas quem mais se aproximou do Palácio dos Jequitibás foi Henrique, filho do meio de Magalhães Teixeira. Atual vice-prefeito, ele é considerado o sucessor político do pai e uma das esperanças do partido renascer em Campinas.
Para Roberto Romano, professor de ética e filosofia da Unicamp, o vazio deixado por Magalhães é mais do que uma questão de ideologia partidária. Para ele, a personalidade carismática e simples do político fazia com que o ex-prefeito exibisse uma liderança natural e vocação para trabalhar em prol da cidade. “Não se pode desconsiderar em política a personalidade do governante. O Magalhães tinha um trato com a população de muito empatia, não era demagogo ou populista. Gostava de Campinas e era muito claro que não cumpria uma função burocrática, fazia porque gostava. Não era um politiqueiro, tinha um plano para a cidade”, analisou.
Romano lembra que após a morte do tucano, Campinas elegeu duas figuras carismáticas na sequência — Chico Amaral (PPB, à época) e Antonio da Costa Santos (PT), o Toninho, morto em 2001, no primeiro ano de mandato —, com o mesmo perfil. Depois do governo Izalene (PT), o PSDB não conseguiu fazer valer sua ideologia nas urnas. “Campinas tem uma estrutura política muito própria, tem uma diversidade político-ideológica grande. O debate é bastante intenso. Após o trauma da eleição do Toninho do PT, que morreu logo depois, veio a administração desastrosa da Izalene e, em vez de puxar a hegemonia aos tucanos, o debate político se deslocou mais à esquerda”, afirmou.
Filho de Edivaldo Orsi, vice de Magalhães Teixeira na ocasião de sua morte, o vereador Artur Orsi (PSD) concorda que a lacuna tucana na Prefeitura de Campinas é motivada pela falta de uma liderança com o perfil do ex-prefeito. Para Orsi, que deixou o PSDB na semana passada depois de 28 anos na legenda, Magalhães Teixeira era capaz de unir as diferentes correntes do partido. “Depois da morte do Magalhães o PSDB não conseguiu ter uma liderança que agregasse o partido. Sempre ficou muito dividido porque perdeu o pilar de sustentação. De lá para cá o PSDB teve muita dificuldade de se firmar aqui. Acho que a liderança que ele tinha não era só eleitoral, era uma liderança em relação a administrar grupos, ouvir e exercer a democracia interna do partido”, afirmou.
Embora o PSDB não tenha mais voltado a ocupar o Palácio dos Jequitibás desde a morte de Magalhães, o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) discorda que a legenda esteja enfraquecida na cidade. Ele ressaltou que o partido tem lideranças importantes da cidade na Câmara dos Deputados (Sampaio) e na Assembleia Legislativa de São Paulo (Célia) — justamente os dois últimos candidatos pelo PSDB à Prefeitura de Campinas —, além de ocupar a vice-prefeitura do município. “Não acredito que há uma lacuna do PSDB na cidade. O partido é forte em Campinas, tem dois deputados e também o vice-prefeito”, disse.
Derrotado nas urnas três vezes na disputa pela Prefeitura de Campinas, o deputado federal Carlos Sampaio reconhece que após a morte do ex-prefeito o PSDB teve um vácuo de lideranças, por isso não teve forças para reassumir a Prefeitura. “Com a morte dele reconheço que ficou um vácuo e as lideranças foram construídas não mais como um catalisador”, disse. Porém, Sampaio acredita que a sigla está se fortalecendo e tem plenas condições de suceder Jonas Donizette. “A partir de 2008 criamos um grupo segmentado dentro do PSDB. Indicamos o vice, estamos indicando novamente e elegemos a maior bancada. O PSDB tem todas as condições de suceder o Jonas, mas não é um assunto para agora.”
Atual vice-prefeito, filho Henrique busca honrar o legado político
O papel de carregar o legado político de Magalhães Teixeira cabe a seu filho do meio, Henrique, de 36 anos. Eleito em 2012 vice-prefeito na chapa de Jonas Donizette (PSB), ele encara com naturalidade o peso das conquistas do pai e diz que trabalha para construir a sua trajetória de maneira independente. Na última eleição municipal, Henrique disputaria uma cadeira na Câmara, mas a impugnação do nome de Paulo Eduardo Moreira Rodrigues e Silva, que seria vice de Jonas, abriu espaço para o herdeiro do ex-prefeito na chapa majoritária. Ao colocar seu nome à disposição do partido, resgatou um dos sobrenomes mais tradicionais da política campineira. Com a simplicidade característica do pai, Henrique evita falar do futuro na política e de uma candidatura ao Palácio dos Jequitibás num futuro próximo. “Na política a única previsão é sobre o passado”, desconversou. O vice-prefeito, porém, não esconde o orgulho do legado deixado pelo pai. Para ele, a herança deixada por Magalhães Teixeira vai muito além de obras e projetos. “Quanto mais o tempo passa, mais conheço os amigos dele e mais o conheço. É uma relação que se desenvolve a cada dia e está ligada ao legado que ele deixou.” Henrique diz que o patrimônio político deixado por Magalhães é um estímulo. O peso do sobrenome não preocupa o vice-prefeito, embora reconheça que não há como dissociá-lo do pai. “Quando entrei na política, por ter um pai que foi uma referência, tive que fazer um autoexame para não ver isso como um peso. Minha conclusão foi que meu pai já fez a parte dele e eu vou fazer a minha. Isso me traz muita leveza. Não precisa separar, é tudo da mesma história e não pode ser apagado.” Como o maior exemplo do pai no campo político e que o guia em sua trajetória, Henrique cita a humildade e amor pela função pública. “A grande qualidade dele foi a simplicidade como filosofia de vida. Era um político coerente e que conseguia transitar nas diversas áreas da cidade. Fazia política com amor e desprendimento.” 
Líder, unia aliados e tinha o respeito dos adversários
Conhecido como Grama, Magalhães Teixeira era querido pela população, admirado por colegas do partido e respeitado até pelos adversários políticos. Em seu primeiro mandato no Palácio dos Jequitibás, ele teve a maior avaliação da população em todo Brasil, segundo pesquisa do Instituto Datafolha. Um dos seus principais feitos foi a criação do Programa de Renda Mínima, pelo qual era destinado um complemento em dinheiro à renda de famílias consideradas miseráveis (abaixo da linha da pobreza), uma espécie de embrião do Bolsa Família.
O ex-prefeito é reconhecido por amigos e companheiros como um líder nato, simples e capaz de aglutinar lideranças políticas das diferentes correntes existentes no PSDB. “O Magalhães Teixeira foi um paradigma para a gente na política local e aprendi muita coisa com ele. O jeito, a humildade e a liderança dele em tratar o grupo e sempre ouvir. Ele agregava facilmente e cativava as pessoas próximas a ele”, contou o vereador Artur Orsi (PSD).
Apesar de não ter uma relação íntima com o ex-prefeito, o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) manteve estreito contato político com Magalhães Teixeira por muitos anos e destacou que o ex-prefeito não deixou de fazer política nem quando estava gravemente doente. “Gostava muito do Magalhães. O conheci quando voltei do exílio, na época do MDB. Ele era uma das figuras de destaque do partido. Na última vez que o vi, ele já estava doente. Ele me recebeu no gabinete e estava bastante debilitado. Falamos de política e obras como se não estivesse doente. Aquilo me marcou muito e ele ficou na lembrança.”
Líder do governo na Câmara de Campinas no último mandato de Magalhães, o deputado federal Carlos Sampaio (PSDB-SP) ressaltou a liderança política do ex-prefeito e lembra que foi seu padrinho na política. “O Magalhães transcendeu Campinas e foi um dos mais importantes nomes do PSDB no País. Não só porque ajudou a fundar o partido, mas porque assumiu o papel de liderança nacional em razão de sua gestão em Campinas. Tenho muito orgulho de ter entrado na política pelas mãos do Magalhães.”
Fora do âmbito político, um episódio ocorrido em 1985 ressaltou a simplicidade do ex-prefeito e de sua família. Então com 21 anos, Fernando Vicente Ferreira atropelou Henrique Magalhães Teixeira quando deixava a Hípica com sua moto e recebeu todo o apoio do ex-prefeito. “Voltava para casa com minha moto, de repente saiu um menino correndo da calçada para a rua tão rápido que não consegui desviar. Peguei no colo e fui entrando pelo mesmo portão de onde ele tinha saído dizendo que tinha acabado de atropelar o moleque. Um senhor, que não me pareceu estranho, partiu para o hospital. A mãe do garoto (Thereza Christina) falava ‘você salvou meu filho’. Eu falava não senhora, eu quase matei”, contou.
“Depois de me agradecer, não chamar a polícia ou querer me processar, cuidar dos meus ferimentos, e insistir em pagar os estragos em minha moto, coisa que não aceitei, ela me falou: ‘você acabou de atropelar o filho do prefeito’. Na minha opinião isso demonstra o caráter, a humildade e o discernimento dessa família”, completou.
Henrique se recorda com detalhes do episódio traumático, apesar da pouca idade. “Lembro que meu pai tinha uma Caravan e a gente foi correndo para o hospital. Recordo que estava ensanguentado e meu pai nervoso. Depois o Fernando foi me visitar, levou brinquedo.”

Escrito por:

Bruno Bacchetti