Livro mostra mulheres que escandalizam e seduziam a sociedade
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Livro mostra mulheres que escandalizam e seduziam a sociedade


Mulheres que se dedicavam ao faquirismo no Brasil são tema de 'Cravo na Carne', de Alberto Camarero e Alberto de Oliveira

LIVRO

Livro mostra mulheres que escandalizam e seduziam a sociedade

Mulheres que se dedicavam ao faquirismo no Brasil são tema de 'Cravo na Carne', de Alberto Camarero e Alberto de Oliveira

14/08/2015 - 20h18 - Atualizado em 15/08/2015 - 18h15 | Delma Medeiros
delma@rac.com.br

Foto: Cedoc/RAC
Suzy King posa com uma serpente: artista é uma das retratadas no livro
Suzy King posa com uma serpente: artista é uma das retratadas no livro

A história de 11 mulheres, transgressoras para a época e que, ao mesmo tempo que escandalizam, seduziam a sociedade e se tornavam celebridades por adentrar num universo até então restrito ao masculino — o faquirismo —, é o objeto de atenção do livro Cravo na Carne: Fama e Fome - a História do Faquirismo Feminino no Brasil, de Alberto Camarero e Alberto de Oliveira, que tem lançamento na próxima quarta-feira, na Livraria Zaccara, em São Paulo.
O livro conta a história dessas mulheres belas e sensuais que arriscavam suas vidas em performances escandalosas Brasil afora. Elas jejuavam por semanas ou meses, trancadas com cobras em caixas de vidro, deitadas sobre pregos ou cacos de vidro, expostas à curiosidade popular. “Isso numa época em bastava uma mulher optar por carreiras como as de atriz ou cantora para enfrentar o preconceito e o moralismo”, diz o cenógrafo e figurinista Alberto Camarero.
Ele diz que sua fascinação pelo faquirismo feminino começou em Campinas, onde morou por quase 30 anos. “Eu tinha 8 anos quando apareceu em Campinas a faquiresa Verinha, que montou seu pavilhão num terreno ao lado do Palácio da Justiça. Numa das paredes o cartaz anunciava: ‘A jovem faquiresa Verinha desafia a morte em sua prova de jejum e suplício’". Meu irmão me levou para assistir e foi uma loucura ver uma mulher dentro de um sarcófago, numa cama de pregos, com uma cobra e que se propunha um jejum de 40 dias, para quebrar o recorde de uma francesa. Aquilo me marcou”, conta Camarero. “O jejum de Verinha foi grande destaque na imprensa campineira, que acompanhava e noticiava diariamente seu desafio”, explica. “Era louco, ela ficava numa espécie de altar, com trajes azuis, numa mistura de santa com odalisca de Carnaval. Era algo sexual e religioso”, relembra. Segundo ele, Verinha jejuou por 46 dias, saiu da urna e sumiu do mapa, nunca mais se soube dela.
“Fiquei com essa história na cabeça, tentei descobrir alguma coisa, mas não lembrava os detalhes.” Apenas em 2012, depois de ter montado até exposições de artes plásticas inspiradas nas faquiresas, Camarero vislumbrou a possibilidade de aprofundar a história. Conheceu Alberto de Oliveira, pesquisador fascinado pela história brasileira do início do século 20 e coautor do livro. “Conversamos, contei a história da Verinha e, três dias depois, ele me aparece com uma matéria do jornal Folha de S.Paulo falando dela, dando nome, data. Era de Pernambuco. Pesquisamos todas as homônimas (Verinha era nome artístico), até que encontramos a família de Verinha, hoje uma senhora de 80 anos, com dois filhos, netos e que prefere não lembrar o passado escandaloso.” Na busca apareceram outras faquiresas, 11 no total. “O livro aborda um universo do faquirismo brasileiro do qual ninguém se lembrava. Nem meu irmão se lembra”, diz Camarero citando que, embora não fosse feito embaixo da lona, o faquirismo é uma arte circense, que foi perdendo força nos anos de 1960, devido à imprensa, que parou de noticiar os eventos.

Jejum
Segundo Camarero, tudo indica que as faquiresas realmente não comiam, tanto que saíam da urna muito magras. “Talvez algumas driblassem a vigilância e se alimentassem, mas em geral tomavam apenas suco de laranja. Uma delas, que era patrocinada por uma empresa de água mineral, só ingeria a tal água, que dizia ser milagrosa. Há toda uma mística sobre os faquires, não se sabe exatamente o que é verdade e o que é mito.”
Sem ser biográfico, o livro aborda a história pessoal de faquiresas como Verinha, Suzy King, Rose Rogé, Zaida, Rossana e Marciana, entre outras. A pesquisa, que durou cerca de três anos, teve como principal fonte de informações os jornais e revistas da época, que tratavam as faquiresas como verdadeiras celebridades. Apesar de ser um assunto amplamente divulgado na mídia, de forma glamourosa, a atividade se tornou um tabu para herdeiros e familiares. “Essas mulheres e esse assunto são totalmente malditos, abominados por todos os envolvidos. O circo em si já está à margem da sociedade, e o faquirismo é uma arte circense, mas marginal até dentro circo”, afirma Alberto de Oliveira. Com trechos das publicações da época e um rico material iconográfico, o livro faz o retrato de um Brasil praticamente desconhecido.

SAIBA MAIS
Cravo na Carne: Fama e fome - A História do Faquirismo Feminino no Brasil
Autores: Alberto Camarero e Alberto de Oliveira
Editora Veneta, 308 págs., R$ 49,90

Participação do Correio foi crucial na produção da obra

“Esse livro só existe por causa do Correio Popular. Graças às reportagens do Correio chegamos a Verinha, o ponto de partida da pesquisa. Não teríamos avançado sem as informações colhidas nos arquivos do jornal, que fez ampla cobertura do evento na época. O processo de pesquisa também começou no Correio Popular. O editor Marcelo Pereira foi muito receptivo e tivemos toda a colaboração também do (Antonio João) Boscolo na busca nos arquivos. O Correio foi também o único veículo que nos cedeu gratuitamente as imagens”, afirma Camarero. (DM/AAN)



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