Baú de Histórias

Fisionomias da cidade

“Nunca houve uma mulher como Gilda”, dizia o cartaz dofilme que consagrou a atriz Rita Hayworth. Em Campinas, ano de 1947, uma mulher simples chamada Geovi...
14/11/2013 - 14h45 | Janete Trevisani
faleconosco@rac.com.br
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Fisionomias da cidade

“Nunca houve uma mulher como Gilda”, dizia o cartaz dofilme que consagrou a atriz Rita Hayworth. Em Campinas, ano de 1947, uma mulher simples chamada Geovina Ramos de Oliveira entrou no cinema para assistir a película e saiu da sala se sentindo a própria Gilda. Ela e Mane Fala Ó formam, até hoje, a dupla mais famosa das ruas da cidade. Mané com seu “Ó”, cumprimento que só pedia para as mulheres, e Gilda com suas faixas de miss e rainha. Ora era Miss Universo, ora Rainha do Brasil.


Gilda assegurava ser “noiva” de Orestes Quércia, político que, quando eleito prefeito de Campinas, em 1968, foi generoso com ela, doando uma casa popular para que a conhecida figura das ruas pudesse viver sossegada na Vila Rica, segundo informações de reportagens publicadas na época em jornais da cidade. Mas Gilda também se dizia viúva do cantor Francisco Alves, o famoso Rei da Voz, que morreu num desastre automobilístico na Via Dutra, em 27 de setembro de 1952.


Geovina não gostava quando algum fã se referia aos nomes das cantoras Emilinha Borba e Ângela Maria, justamente pelo fato de adorar Francisco Alves, colega de profissão das duas cantoras. Nessas horas xingava, em outras era doce e cantava canções de Maysa. Também arriscava um “I love yoy” e um “kiss me” quando se sentia uma estrela feito a Gilda protagonizada por Rita Hayworth. A Gilda de cá e a da telona tinham em comum apenas a inicial “G” do nome, mas a de Campinas se achava uma estrela como a do cinema. No fim, não houve mesmo uma mulher como Gilda. Nem como a da telas e tampouco como a que circulava pelas ruas de Campinas.


Geovina dizia ser nordestina. Casou e teve três filhos, mas perambulava sozinha pelas ruas, sempre vestida com peças coloridas, chapéus e até estolas de pele. Uma foto tirada por Augusto de Paiva, fotógrafo da equipe de redação do Correio Popular, em 1978, mostra Gilda com a faixa de Rainha do Brasil, chapéu grande e fisionomia cansada. Morreu com 74 anos, depois de ser internada no Mário Gatti. Em breve, a coluna Memorável, da revista Metrópole, vai falar mais sobre Gilda.




Zé Trovão

Campinas teve outras figuras pitorescas que ficaram esquecidas com o passar dos anos. Zé Trovão, por exemplo, lançado como cantor pela PRC 9- Rádio Educadora de Campinas, enchia de acordes as ruas do Centro com notas musicais tiradas de uma flauta. Depois resolveu escrever versos, como os da poesia Amor Gelado.


Entrei na Sorveteria Sônia

Olhei bem para aquele cantinho

Logo fui avistando em minha frente

Lindo casal de pombinhos.

Da mesa onde que eu estava sentado

Apreciava aquele casalzinho

Eles conversavam muito alegres

Eles eram também muito mansinhos.

A pombinha era mui carinhosa

Tirou de sua bolsa um pentinho

Com toda a delicadeza ela penteava

O bigode do seu pombinho.




Dito Colarinho

Muitas das figuras populares de Campinas ficaram conhecidas na década de 50, como foi o caso de Benedito Vasconcelos Siqueira, mais conhecido como Dito Colarinho. Nascido na Rua Culto à Ciência, o carroceiro estava sempre vestido de terno e gravata, por isso a alcunha Dito Colarinho. Era simpático e popular, tanto que, quando seu cavalo morreu, ganhou outro dos populares para continuar seu trabalho de carroceiro. Ficava parado na antiga Estação, sempre à espera de carretos.




Chumbinho

A alma boêmia das ruas o batizou de Chumbinho, sabe-se lá o motivo, mas ninguém sabia seu verdadeiro nome. Ele adorava tomar café pelo Centro, sempre oferecimento dos fãs, e não andava sem sacola e guarda-chuva.




Outros tipos


Não há fotos de Eliseu, o bonitão, nos arquivos dos jornais, já que ele não gostava de ser fotografado. No início ele se julgava um Tyrone Power, mais ou menos como a Gilda, que se achava a própria Rita Hayworth. Mas daí surgiram rumores de que Gilda faria um belo par com Eliseu, o que o deixou muito bravo, a ponto de desistir de ser um astro hollywoodiano. Usava terno e gravata e tinha muitas fãs. Era considerado o próprio príncipe encantado, querido de todas. Seu ponto preferido era a Barão de Jaguara.


Sabe-se que só em Campinas os mendigos são chamados de “ligeiras”. E a cidade teve uma legião deles, sendo Pedrinho Caramujo o mais conhecido. Ele vivia com a mãe a irmã numa maloca de folhas de latão e tábuas em um matagal atrás da fábrica de chapéus Cury. Quando se mudava para outro bairro, levava a lataria nas costas. Também havia o De Monte, que perambulava com um saco nas costas. Diz a lenda que ele vinha de família rica e foi consumido pelo álcool depois de uma frustração amorosa com Telma, bela jovem que morreu depois de a família impedir o romance.


Coronel Receba andava na maior elegância, de terno e guarda-chuva, mesmo em dias muito quentes, e frequentava as missas aos domingos. Batia de porta em porta e quando lhe perguntavam: “Quer esmola?”, ele dizia: “Não, vim cobrar a conta”, imitando a figura do cobrador, comum na Campinas antiga. Em tempo: os cobradores eram chamados de prestamistas e batiam nas casas para cobrar a prestação da loja, a conta do telefone, da padaria, do armarinho, da Tração, Força e Luz...




Uma crônica de Moacyr Castro, publicada em 1999 no Correio Popular, fala de outras figuras populares: “Não podemos nos esquecer de Fala Rio, gari da limpeza pública, sempre com uma lata de óleo Lírio e uma vassoura, recolhendo o lixo das ruas do Centro. Esse seu “grito de guerra” era uma imitação do locutor de futebol Oduvaldo Cozzi, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, que transmitia jogos da seleção brasileira em outros países. Para chamar o plantão esportivo, dizia: ‘Fala Rio’.

Justamente aquele que não falava, constrangido por ser fanhoso, tinha o apelido de Falinha . Magro, careca, baixinho, óculos de aro de tartaruga, terno de casimira cinza, vivia no auditório da Rádio Brasil, ali na Galeria Trabulsi. Era pau para toda obra e foi um dos primeiros office boys da cidade. Um dia, pediram que comprasse um pente Flamengo e lhe deram uma nota de 50 cruzeiros, aquela com a esfinge da princesa Isabel. Falinha voltou com dez caixas de pentes. Ninguém entendia o que ele falava, mas era melhor deixar pra lá e distribuir aquele mundo de pentes entre os amigos”, conta o cronista.

 





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