Região metropolitana tem maior incidência de raios


Aumento de descargas elétricas durante temporais preocupa equipes de segurança e Defesa Civil


17/17/2013 - 14h48

| E-Braille
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O volume de tempestades mais que dobrou nos últimos dois anos na região de Campinas, trazendo junto aumento da incidência de raios, vendavais, granizo e os problemas decorrentes dos temporais. Segundo levantamento do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) e Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IpMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), no Verão de 2004/05, a região enfrentou uma média de 12 temporais. “O volume foi crescendo desde então e hoje a média é de 25 temporais durante o Verão”, informa o diretor regional da Defesa Civil, Sidnei Furtado. 



Até ontem, o volume de chuvas neste mês de fevereiro já era de 320,9 milímetros (mm), 54% a mais que a média histórica para o mês, de 208mm. O maior total acumulado até então em fevereiro foi de 406,9mm, em 1995, e 332,8mm em 1993. 



Na mesma proporção das tempestades aumenta a incidência de acidentes com raio. Só nesta semana, três pessoas foram vítimas de descargas elétricas na região, duas em Paulínia, na segunda-feira, quando um raio atingiu um bar no bairro Monte Alegre; e outra anteontem em Indaiatuba. As três vítimas passam bem. 



Em São Paulo, um adolescente de 14 anos teve de ser hospitalizado anteontem depois de ser atingido por um raio, quando participava de um treino de futebol na Ponte Pequena, e outros três meninos tiveram escoriações. 



Minutos antes, no Bom Retiro, uma mulher foi ferida por tijolos que caíram de um prédio atingido por raio. Em janeiro, um raio causou a morte de um operário da construção civil em Paulínia. Outro operário perdeu a vida em decorrência de uma descarga elétrica em fevereiro do ano passado em Campinas. 



O número de mortes por raios no Brasil no primeiro mês do ano já supera o volume do mesmo período de 2008, ano que registrou o maior número de mortes causadas por descargas elétricas no País — 75, contra 47 no ano anterior. 



De acordo com levantamento do Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), em janeiro deste ano foram registradas 14 mortes por raios no País, contra 13 no mesmo período do ano passado. Os raios matam mais que furacões ou tornados, conforme dados da Agência Americana para Desastres (Fema). “Entre os fenômenos meteorológicos, os raios são os que mais matam”, afirma o pesquisador do Inpe, Marcelo Saba. Ele cita que, além de serem mais frequentes, os raios não podem ser previstos como ocorre com furacões e tornados. Lembra ainda que a maioria dos temporais vem com raios, ventos fortes e outros perigos, como granizo. 



Segundo Furtado, nos últimos quatro anos, pelo menos uma pessoa morreu por raio na região de Campinas. Ele alerta que os raios são indicativos dos temporais. “As pessoas ouvem o trovão, mas levam um tempo para se abrigar, o que é arriscado. Em geral, os raios vêm antes, precedendo a chuva. Por isso, ao ouvir o trovão, é aconselhável procurar abrigo, e nunca embaixo de árvores, próximo de torres. Barracas e tendas também não são recomendáveis”, afirma. Ele cita que a Defesa Civil faz, em parceria com o Inpe, monitoramento dos raios para prever se algum temporal se aproxima.



La Niña 



A temporada de raios acompanha o período de chuvas, que em geral vai de dezembro a março. A causa mais provável para a maior incidência de tempestades e raios, segundo o pesquisador do Inpe, é a relação com o La Niña, fenômeno que provoca o resfriamento das águas do Oceano Pacífico na costa peruana e altera as condições climáticas, gerando mais chuva. 



Cepagri prevê mais chuva até domingo



As condições de instabilidade observadas nos últimos dias devem persistir nas próximas 48 horas, conforme previsão do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A expectativa é de poucos períodos de sol entre nuvens na região, com possibilidade de temporais durante a tarde e início da noite. Apenas no domingo retornam as condições de tempo mais estável com o sol predominando na maior parte do dia e chance apenas de chuvas rápidas no fim da tarde. As temperaturas continuam amenas, com ligeiro abafamento que tende a aumentar a partir de amanhã. 



Petrobras monitora tempestades desde 2003


A Petrobras é uma das empresas pioneiras no monitamento de raios para prevenir acidentes envolvendo funcionários ou terceirizados. Mantém desde 2003 uma parceria com o Instituto de Tecnologia Simepar, do Paraná, para receber on-line as previsões meteorológicas e de descargas elétricas. “O objetivo é evitar que uma descarga atinja o pessoal que trabalha em áreas não protegidas”, explica o consultor técnico da área de Segurança e Meio Ambiente da Refinaria de Paulínia (Replan), Jorge Mercante. 



Segundo ele, o Simepar conta com uma rede de detectores de descargas elétricas que mostram no mapa geográfico da empresa os locais mais prováveis de temporais. “O instituto faz uma avaliação do risco de um raio cair em determinado local e, em geral, nos avisa com 30 minutos de antecedência. Dado o alarme, os trabalhos em áreas externas são interrompidos e os colaboradores vão para área protegida até não haver mais risco”, diz.

Mercante cita que o maior contingente de trabalhadores fora de áreas protegidas são para serviços de manutenção ou de obras. Ele cita que a empresa está desenvolvendo um outro equipamento para detecção ainda mais precoce de raios. “A meta é reduzir o número de horas paradas e aumentar a segurança da equipe. Sete refinarias da Petrobras adotaram este sistema. 



O meteorologista do Simepar, Marco Antonio Rodrigues Jusevicius, afirma que a Petrobras foi inovadora neste sistema e induziu outras empresas a adotarem o monitoramento. “O monitoramento e alerta de raios é hoje uma norma interna da Petrobras, e exigência contratual para as construtoras que prestam serviços à estatal.” 



Outras empresas que buscam o monitoramento são as concessionárias de energia elétrica. “Mas, neste caso, o foco é agilizar o reparo nos casos de queda de energia em decorrência de raios”, explica. Na outra ponta estão empresas que não querem ou não podem ter a produção interrompida por falta de energia, como a Aracruz Celulose e Arcelor Mital Tubarão (antiga siderúrgica de Tubarão), e a mineradora Samarco, que mantêm parceria com o Simepar. 



A CPFL Paulista também faz monitoramento de raios, usando um aplicativo desenvolvido pelo Inpe. “Recebemos informação on-line de quando ocorrem raios e, em caso de desligamento da rede, enviamos a equipe imediatamente. O objetivo é agilizar os reparos e restabelecer a energia o mais rápido possível”, informa o gerente de Operações da Transmissão, José Geraldo Paiva.



Em quase todo Verão há registro de vítimas fatais


O operador de máquinas Antônio de Oliveira, de 45 anos, morreu após ser atingido por um raio quando trabalhava num canteiro de obras de um condomínio de casas em Paulínia, no dia 10 de janeiro deste ano. O mesmo ocorreu no ano passado com Claudinei Justino, de 42 anos. Ele trabalhava na terraplenagem de um loteamento em Sousas, quando um raio atingiu a barraca em que se abrigou com os outros companheiros. Ele morreu e outro operário que estava próximo teve queimaduras nas costas. 



Na última segunda-feira, a incidência de raios em Paulínia feriu duas pessoas e causou prejuízos ao empresário Paulo Roberto Rosa. Sua madeireira e residência, no Jardim Santa Terezinha, foi atingida por um raio que queimou praticamente todos os aparelhos eletrônicos: central de PABX, telefones, computadores, alarme, câmeras de monitoramento, televisores e lâmpadas. “Sentimos o impacto do raio que estourou tudo. 



Não sei ainda de quanto foi o prejuízo, mas foi pesado”, afirma, explicando que não tem seguro contra fenômenos naturais. Rosa fez contato com a CPFL Paulista para verificar a possibilidade de ressarcimento, mas foi informado que a concessionária tem dez dias para fazer a vistoria, prazo em que nada pode ser mexido. “Não posso fechar a empresa por dez dias esperando a CPFL. Dependo dos equipamentos para trabalhar. Nem pedido consigo tirar sem os computadores”, lamenta. No Jardim Monte Alegre, um raio atingiu um bar onde estavam cerca de 15 pessoas. Duas ficaram feridas sem gravidade. 



A CPFL informa que se o raio tiver entrado pela rede de energia, o cliente é ressarcido pela empresa, conforme resolução da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Pela resolução, a concessionária tem 60 dias para avaliar o dano, prazo que reduziu para dez dias por decisão própria. 



Anteontem, em Indaiatuba, outra pessoa foi atingida por raio. Francisco Pereira da Anunciação fazia manutenção numa casa do condomínio Jardim dos Lagos, quando recebeu a descarga, por volta das 15h. Ele foi socorrido ao Hospital Augusto de Oliveira Camargo (Haoc), onde ficou em observação, sendo liberado no final do dia. 



SAIBA MAIS


A maioria das mortes por raio é causada por parada cardíaca e respiratória. O cardiologista do Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, Vinícius Argenton Sociato, explica que o choque tanto pode causar como reverter a arritmia cardíaca. Por isso, nos casos de parada cardíaca, é usado o desfibrilador, que dá choques no paciente. 



Segundo ele, o choque intenso provoca fibrilação ventricular, em que o coração não para exatamente, mas fibrila, se contraí e não bate. “Se a pessoa não for atendida de imediato, morre”, diz o médico, lembrando que quando o choque é muito intenso, provoca lesão na musculatura do coração, que nem sempre pode ser revertida. O raio pode ainda causar queimaduras, distúrbio auditivo ou neurológico e muitas vezes deixar sequelas psicológicas ou orgânicas.