CORREIO POPULAR

Explicação

01/08/2013 - 05h00 |

Mosaicos são obras de arte. São feitos com cacos. Os cacos, em si, não têm beleza alguma. Mas se um artista os ajuntar segundo uma visão de beleza, eles se transformam numa obra de arte.

Músicas são mosaicos de sons. Notas são cacos. Não são nem bonitas e nem feias. Mas se um compositor as organizar numa “frase” elas passam a dizer algo. Transformam-se em temas. Sonatas e sinfonias são feitas com temas entrelaçados.

Também nós somos feitos de cacos. Milan Kundera comparou a vida a uma partitura musical. “O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o acontecimento fortuito ('o caco') para fazer dele um tema que, em seguida, fará parte da partitura de sua vida. Voltará ao tema repetindo-o, modificando-o, desenvolvendo-o, transpondo-o, como faz um compositor com os temas da sua sonata”. ('A Insustentável Leveza do Ser', p. 58). Somos um mosaico espiral, à semelhança do bolero de Ravel.

As "Escrituras Sagradas" são um livro cheio de cacos. Nelas se encontram poemas, estórias, mitos, pitadas de sabedoria, relatos de acontecimentos, poemas eróticos, eventos sangrentos. Ao ler as "Escrituras" comportamo-nos como um artista que seleciona cacos para construir um mosaico ou como um compositor a compor sua sonata.

Os cacos das "Escrituras Sagradas" existiram por muito tempo como estórias que eram contadas oralmente, antes de serem transformados em textos para serem lidos. O registro escrito dessa tradição oral trouxe uma vantagem: as estórias continuaram a existir mesmo depois da morte do contador de estórias. E trouxe uma desvantagem: transformados em textos escritos perdeu-se a figura do contador de estórias. Com isso os leitores começaram a ler as “estórias” como se fossem “história”.

“História” refere-se a coisas que aconteceram realmente no passado e nunca mais acontecerão, como um jogo de futebol que acontece só uma vez e nunca mais se repete. Mas a parábola do Bom Samaritano nunca aconteceu. Foi uma “estória” contada por um mestre contador de estórias chamado Jesus.

As estórias são contadas no passado mas elas não têm passado. Só têm presente. Estão sempre vivas. Quando as ouvimos ficamos “possuídos”, rimos, choramos, amamos, odiamos — embora elas nunca tivessem acontecido.

O místico Ângelus Silésius escreveu: “Temos dois olhos. Com um vemos as coisas eternas, que permanecem. Com o outro as coisas efêmeras, que desaparecem.” A “história” é criatura do tempo. As “estórias” são emissárias da eternidade.

Muitos são os mosaicos que podem ser feitos com um monte de cacos. Muitas são as músicas que podem ser feitas com as doze notas da escala cromática. Horror, humor, amor, vida, morte, vingança... Tudo depende do coração do artista. Como disse Jesus, o homem bom tira coisas boas do seu bom tesouro; o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro. Coração feio faz mosaicos e músicas feias. Coração bonito faz mosaicos e músicas bonitas. Os mosaicos e as sonatas são o retrato de quem os fez.

Cada religião é um mosaico, um jeito de ajuntar os cacos. Cada religião é uma sonata: uma rede de temas. Escolhi os cacos de que mais gosto para fazer o meu mosaico, o meu livro de estórias, a minha sonata, o meu altar à beira do abismo.