HISTÓRIA

Livro detalha a epidemia de febre amarela em Campinas

Livro detalha a epidemia de febre amarela que quase varreu a cidade do mapa no século 19

16/06/2013 - 10h17 | Rogério Verzignasse
rogerio@rac.com.br

Foto: Dominique Torquato/AAN
Advogado Jorge Alves de Lima, autor do livro O Ovo da Serpente
Advogado Jorge Alves de Lima, autor do livro O Ovo da Serpente

A Campinas da segunda metade do século 19 era uma cidade poderosa, com agricultura forte e fábricas brotando por todo canto. A chegada da ferrovia, o impulso do milionário ciclo cafeeiro e a emigração intensa já faziam dela a cidade mais importante do Interior. Mas seguidas epidemias de febre amarela, ao longo de uma década inteira, quase varreram a cidade do mapa. E a urbe precisou, literalmente, ser reconstruída para retomar o próprio desenvolvimento. As bibliotecas públicas e os centros de memória possuem vasto material sobre a doença que ceifou a vida de pelo menos 2 mil cidadãos na cidade. As novas gerações, no entanto, ignoram capítulos obscuros, e um pesquisador campineiro se propôs a passar a história a limpo.

Além de enaltecer o trabalho de cidadãos altruístas — muitos dos quais perderam a própria vida em benefício de semelhantes — o autor detalha acontecimentos que a memória oficial preferiu ocultar, ou simplesmente não destacar. Brigas políticas, manobras interesseiras e atitudes covardes marcaram o comportamento de cidadãos ilustres. A epidemia revelou a hipocrisia de uma classe dominante que, de repente, se viu impotente, ameaçada, desmoralizada.

A pesquisa detalhada foi elaborada ao longo de dois anos e meio por Jorge Alves de Lima, de 75 anos, advogado e ex-procurador da Prefeitura, que hoje ocupa a presidência do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Campinas. No período, ele pacientemente anotou a mão, em cadernos, episódios curiosos que encontrava em livros, artigos, carta, atas e reportagens. E acaba de terminar o boneco do primeiro volume da obra O Ovo da Serpente, que promete presentear as novas gerações com informações inéditas sobre a peste e suas consequências. Neste volume, o autor detalha o primeiro (e mais grave) surto da doença. “Eu procurei contar a história da cidade em 1889, e fui relacionando episódios que precederam ou se sucederam à epidemia”, diz.

E as revelações são surpreendentes. Já se sabia, por exemplo, que Campinas tinha 12 mil moradores naquele ano. E que metade deles debandaram daqui quando a epidemia começou a matar em série. A pesquisa revela, no entanto, que cada cidadão cuidou da própria vida. Quem tinha para onde fugir não pensava em quem ficava para trás. Mas imigrantes, ex-escravos e lavradores paupérrimos, por exemplo, foram largados à míngua. Quem não tinha a febre, passava fome. E quase metade dos que ficaram morreram. Depoimentos de época, extraídos de livros históricos, contam quem as famílias rodeavam as vítimas em seus leitos de morte, em cenários sepulcrais.

No momento mais crítico, apenas três dos 23 médicos atuantes na cidade se dispuseram a permanecer por aqui e cuidar dos doentes. Campinas ficou sem governo. A Câmara teve as sessões suspensas entre 11 de março e 30 de abril daquele ano, porque só quatro vereadores continuavam na cidade. Todos os outro fugiram. Lima descobriu, analisando atas do poder público na época, que o principal hospital campineiro de então, a Santa Casa, se negou a receber mendigos doentes, por conta da falta de leitos“Intromissão”

Lima resgatou um editorial de fevereiro de 1889, logo depois dos primeiros óbitos, em que o Diário de Campinas denuncia a precariedade completa da infraestrutura urbana. Terrenos baixos da cidade (como a gleba da atual Praça Carlos Gomes) eram imensos brejos com água acumulada e esgoto despejado. Diante do quadro, apurou o pesquisador, o governo paulista se encarregou de nomear uma comissão especial para executar obras estruturais na cidade. A inauguração do Desinfectório Central, a instalação de canais para córregos e as obras de saneamento fizeram a cidade renascer.

O que pouca gente sabe, no entanto, é que o governo municipal da época relutava em atender exigências feitas pelos técnicos indicados pelo Estado. “Políticos campineiros simplesmente não aceitavam o que diziam ser uma intromissão externa”, diz o pesquisador.

Para a historiadora Ana Maria Negrão, que prefaciou o primeiro volume da obra, o autor foi muito feliz em dar nomes a cidadãos que desconheceram a fadiga e o medo de contágio, e se dedicaram a minimizar o sofrimento dos infectados. “O leitor visualiza, a cada parágrafo, o êxodo de uma cidade elitista, que se tornava cada dia mais deserta, pois as pessoas abastadas fechavam suas casas e se refugiavam em fazendas”, considerou. O primeiro volume, de 210 páginas, já tem editora definida, mas não existe previsão de quando estará no mercado.



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