'Boca do lixo' sustenta morador de rua no Centro

'Boca do lixo' sustenta morador de rua no Centro

iG Paulista - 15/05/2013 20h15
Patrícia Azevedo | patricia.azevedo@rac.com.br

Grupos perto de caçambas de lixo próximo Terminal Central
Foto: Gustavo Tílio/ AAN
Grupos perto de caçambas de lixo próximo Terminal Central

Quem circula pela Rua Cônego Cipião, nos arredores do Terminal Central, em Campinas, presencia cenas que parecem ser retiradas de filmes. Dezenas de moradores de rua e usuários de drogas circulam pelo local e reviram lixeiras em busca de alimentos ou algo que possa ser vendido por alguns trocados. Homens e mulheres esquálidos, sujos e maltrapilhos permanecem pelo local durante todo o dia.

“É uma cena horrível, parece que a gente está assistindo a um filme de zumbis. Eles reviram o lixo, comem coisas que tiram de lá. Não têm nenhuma preocupação com a higiene”, contou a balconista N., que trabalha nas imediações da Praça Felipe Selhi.

Os nove contêineres de lixo que ficam na Rua Cônego Cipião são usados por comerciantes e moradores da região para acondicionar o lixo. Ali são depositados materiais recicláveis e todo tipo de lixo orgânico. “As bancas de frutas e legumes do mercadão despejam tudo ali e aí os moradores de rua ficam procurando o que comer. É uma cena chocante”, disse o comerciante R.

Durante a manhã desta quinta-feira (16), a reportagem flagrou vários moradores de rua buscando comida nas lixeiras. Um dos homens retira do contêiner um abacaxi que havia sido dispensado por um comerciante. Uma outra mulher aparece ao lado da lixeira com um prato e um garfo na mão, uma imagem que remete aos campos de refugiados.

Comerciantes instalados nas imediações reclamam da sujeira deixada no local. “Eles reviram não só o lixo jogado nessas grandes lixeiras, mas também os que são deixados na rua. A gente chega para trabalhar e encontra tudo sujo, jogado no chão”, contou C.
Os arredores do Terminal Central reúnem todos os atrativos para os usuários de crack. Ali eles encontram público para pedir dinheiro, contam com a alimentação na Casa da Cidadania, têm na linha férrea um local para consumir a droga e ainda podem comprar o entorpecente com os pequenos traficantes que atuam na região, chamada de Boca do Lixo campineira.

No início do ano, o prefeito de Campinas, Jonas Donizette (PSB), afirmou que pretendia revitalizar a região. Além de aumentar a segurança no local com a presença maciça da Guarda Municipal, o político anunciou que iria retirar a Casa de Cidadania do local.

A entidade fornece alimentação, banhos e roupas limpas a moradores de rua e dependentes químicos. Por causa disso, uma grande concentração de pessoas fica nas imediações.

Outro problema no local são os recuos sob a estrutura do terminal, que se convertem em esconderijos para criminosos que fazem pequenos furtos no local. “Isso dificulta muito o trabalho da polícia porque alguns desses moradores cometem pequenos furtos e se escondem ali”, afirmou um polícial militar que atua na cidade.

Mapeamento

Uma equipe com profissionais de saúde, denominada Consultório de Rua, visita pontos onde há aglomeração de moradores de rua para checar as condições dessa parcela da população.

A intenção é incluí-los na Sistema Único de Saúde (SUS) e oferecer os tratamentos necessários. O médico Felipe Augusto Reque, que integra a equipe, alerta que consumir alimentos sem os devidos cuidados de higiene pode provocar verminoses e infecções intestinais, com vômitos e diarreia.

Além disso, a despreocupação e a dificuldade em manter um padrão de higiene pode causar feridas infeccionadas em moradores de rua.

“Isso acontece porque eles se coçam com as unhas sujas e acaba formando uma ferida, que infecciona com o tempo e a falta de cuidados”, disse o médico. Desidratação e problemas respiratórios são outros tipos de problemas sofridos por essa população. 

A assessoria de imprensa da Prefeitura informou que não há prazo para que a revitalização dos arredores do terminal seja concluída.